Um Supply Chain transparente e ético usando tecnologia blockchain

Hoje a transparência e a ética nas relações entre governos, pessoas e empresas são fundamentais para o desenvolvimento sustentável. Os objetivos de desenvolvimento sustentáveis (ODS) das Nações Unidas nos desafiam a buscar soluções para melhorar a qualidade de vida das pessoas e ações efetivas para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Temos como trabalho infantil, trabalho escravo e rendimentos dignos são temas em debate.

Atualmente, quando compramos um produto não temos a menor ideia da origem de seus insumos e de seus custos originais. A cadeia de suprimentos é opaca para nós e só conhecida pela empresa que fabrica o produto final. Pode ser que uma empresa esteja tendo um lucro maior ou preço de venda menor por utilizar trabalho infantil ou técnicas de produção poluentes.

Empresas pioneiras já perceberam as vantagens competitivas das cadeias de suprimentos abertas, transparentes e a produção sustentável. Um exemplo, são os fornecedores de peixes John West que passou a incluir códigos nas latas de atum para permitir que um consumidor possa rastrear o produto de volta ao pescador. Só essa iniciativa aumentou em US$22,6 milhões em vendas da marca.

Padrões de sustentabilidade e certificação (por exemplo, Fairtrade, FSC e Soil Association) são ferramentas importantes para diferenciação da marca, escolha e consumo consciente. Mas como esses certificados são estampados nas latas e embalagens torna-se difícil verificar sua integridade. Muitas vezes são necessárias onerosas auditorias para garantir a veracidade das informações. Em sistemas fechados e centralizados de Supply Chain é difícil auditar e descobrir fraudes.

Felizmente, o jogo está mudando com a tecnologia blockchain, que permite uma nova abordagem para as cadeias de suprimentos. O blockchain é um desenvolvimento, relativamente recente, no campo da ciência da computação, que utiliza uma rede global peer-to-peer para fornecer uma plataforma aberta que entrega neutralidade, confiabilidade e segurança. A tecnologia é baseada na proposta de Satoshi Nakamoto (2008) de um livro-razão (Ledger) aberto, utilizado pela moeda virtual Bitcoin. Essa aplicação financeira pode ser generalizada e implementada com um conjunto de regras (smart contracts) com extrema segurança, onde as informações gravadas não podem ser alteradas por ninguém.

Na tecnologia blockchain não existe apenas uma única máquina que governa a lógica de negócios ou seus dados. A validade dos dados é determinada por consenso, que é uma convenção definida para saber como executar e administrar a lógica de negócios (por exemplo, para atualizar o estoque de um determinado bem). A magia do blockchain é que os usuários de forma inequívoca podem descobrir o estado do sistema (por exemplo, o nível atual de estoque ou a origem de um certificado particular), e não de uma única autoridade em particular, mas sim pela forma independente da aplicação de regras comuns e publicação de dados abertos.

Nos últimos anos os ataques cibernéticos aos sistemas centralizados têm aumentado significativamente. Isso faz aumentar, significativamente, os investimentos em segurança da informação. Entretanto, sabemos que apesar dos altos investimentos em software e treinamento, ainda o ser humano é a peça mais vulnerável no processo.

A segurança do blockchain é diferente. Não importa quem ou onde o usuário está porque as informações fornecidas ao blockchain só serão aceitas se forem autenticadas através de um complexo mecanismo criptográfico, que permite provar a sua identidade. Você só pode interagir com o blockchain ser fornecer uma “chave” digital que só você conhece. Utiliza algoritmos de chaves-públicas e chaves-privadas.

O blockchain elimina a necessidade de uma organização central confiável que opera e mantém o sistema. Usando uma plataforma segura, descentralizada e compartilhada conseguimos eliminar muitos pontos fracos dos sistemas atuais, permitindo auditar de forma segura todas as transações que produziram um determinado estado, ou seja, podemos inspecionar toda a cadeia de suprimentos das matérias-primas até a venda final. Também, podemos continuar a monitorar a vida útil do produto até o seu descarte, importante para atender as novas legislações sobre logística reversa.

É possível implementar esquemas de reconhecimento de um padrão (por exemplo, sem testes em animais, biodinâmica, trabalho digno). Os produtores e fabricantes podem exigir inspeções por um certificador ou auditor em suas instalações para obter um certificado de produção.

Os programas certificados são utilizados pelos produtores para provar a criação de materiais ou bens primários, especificando parâmetros para cada unidade de produção:

  • Certificação da capacidade de produção (por exemplo, 500 toneladas de algodão por ano);
  • Descrição taxonômica do bem, que incluiria uma descrição detalhada do produto, juntamente com “tags” para ajudar a identificar atributos específicos (por exemplo, práticas éticas de comércio, trabalho digno, material orgânico);
  • Contabilização da produção, ou seja, registro de produtos criados até a capacidade máxima de produção anual e registros de vendas.

Esses parâmetros podem ser ajustados de acordo com as orientações das certificadoras e nas inspeções dos auditores.

Obviamente, que esse modelo aberto de cadeia de suprimentos traz mudanças profundas nos modelos de negócios das empresas. Sabemos que muitas mercadorias são fetichizadas, ou seja, seus valores não refletem os custos multivariados de produção e consideram outros elementos como marca e status. Como desconhecemos os custos de produção cabe a nós apostarmos na nossa intuição e objetivo para adquirir um determinado produto.

A globalização tornou ainda mais opaca a cadeia de suprimentos com a pulverização dos fornecedores e a integração dos canais de distribuição. Como consequência temos a deterioração das condições ambientais e do aquecimento global, péssimas condições de trabalho, exploração do trabalho escravo moderno e preços imprecisos dos custos de produção.

O blockchain é uma forma de repensar as práticas comerciais e atender a busca por racionalização da produção e custos menores.

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