A Virada do Jogo do Brasil

O Instituto McKinsey publicou em julho de 2013 o relatório Game changers: five opportunities for US growth and renewal apontando cinco iniciativas para acelerar o crescimento econômico dos Estados Unidos: (1) produção de energia barata usando gás de xisto; (2) maior competitividade na indústria com conhecimento intensivo; (3) maior produtividade usando Big Data; (4) investimentos em infraestrutura; e, (5) investimento em capital humano.

Substituindo o primeiro item por geração de energia barata renovável os outros itens se aplicam inteiramente no Brasil.

Energia renovável e barata

A Aneel criou condições regulatórias que permite uma gama de opções para a geração de energia renovável com subsídios fiscais. A resolução normativa nº 482 permite a produção independente de energia renovável até 1MWp com acoplamento à rede pública de distribuição para exportar o excedente produzido. A resolução normativa nº 556 permite o uso das verbas contratuais de eficiência energética das concessionárias de energia de forma mais eficaz. O mercado livre de energia para empresas com consumo superior a 500kW é uma oportunidade para energia mais barata e opção viável para empresas comprometidas com a sustentabilidade ambiental.

As empresas com operação no Brasil devem agir rápido na adoção de uma solução mais barata de consumo de energia, pois nossos vizinhos, Argentina e Paraguai, estão prontos para oferecer energia mais barata. A Argentina está pronta para produzir gás de xisto e possui a terceira maior reserva de xisto betuminoso do mundo. O Paraguai está atraindo investimentos depois que reduziu o custo da energia em até 63% do custo no Brasil.

Manufaturados com inteligência intensiva

Nos últimos anos a exportação de manufaturados brasileiros está caindo e as commodities crescendo, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e apresentados no gráfico abaixo. Isso demonstra que os produtos brasileiros não agregam inteligência e, consequentemente, tem seu preço controlado pelo mercado internacional e sensível a variações de clima e vulneráveis a substituição por outros materiais. Várias simulações de mudanças climáticas indicam variações significativas do clima em 2025 e os estudos do grafeno indicam a substituição de vários materiais derivados do ferro e outros minérios.

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Precisamos, urgentemente, investir na indústria de transformação das commodities e intensificar as pesquisas no grafeno e outros materiais. A boa noticia é que a Universidade Presbiteriana Mackenzie inaugura em março de 2014 o Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno e Nanomateriais, o MackGraf.

Nossa indústria de tecnologia de informação é bem desenvolvida com destaque no setor de automação bancário. Também, estamos nos destacando na indústria de games e várias empresas internacionais estão investindo em centros de desenvolvimento de software no Brasil. Um exemplo é a empresa alemã SAP que montou um centro de excelência na UNISINOS em São Leopoldo no Rio Grande do Sul.

Big Data

A tecnologia Big Data permite analisar grande volume de dados, voláteis ou não, com maior velocidade para auxiliar nas decisões de negócios. A análise de grandes volumes de dados, gerados principalmente pelas redes sociais, permite a identificação de tendências comportamentais dos consumidores e outros padrões antes impossíveis devido a restrições tecnológicas.

Essa tecnologia já está disponível e pronta para uso. O Brasil possui uma significativa parcela de consumidores utilizando redes sociais, o que abre uma enorme oportunidade para criar novos produtos e abrir novos mercados.

Considerando que os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) possuem alguns mercados de nicho similares ao nosso, temos uma excelente oportunidade para aumentar nossas exportações de manufaturados com inteligência, gerando maior valor agregado.

Investimento em infraestrutura

A falta de infraestrutura no Brasil limita nosso crescimento econômico. Precisamos melhorar a produtividade dos investimentos em infraestrutura para facilitar o comércio interno e externo, reduzindo custos e desperdícios.

Investimentos em infraestrutura criam novos empregos e forçam a qualificação da mão de obra, permitindo maior renda dos trabalhadores e, consequentemente, maior consumo interno.

O desafio da infraestrutura no Brasil não é apenas de investimentos e obras eficazes, mas da nossa capacidade de execução dos projetos e a operação dos serviços após a conclusão das obras. É necessário um choque de gestão, tanto no setor público como privado.

Investimento em capital humano

Todos os itens discutidos acima só se viabilizarão se tivermos mão de obra capacitada e com capacidade de execução.  Nesse item o Brasil tem que evoluir muito. No Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) que avalia a capacidade dos alunos em leitura, matemática e ciência, o Brasil figura nas últimas posições entre os países avaliados.

Nosso desafio começa no ensino fundamental e médio que prepara mal os alunos. As deficiências são sentidas nos cursos de graduação que reduzem os níveis de exigência para evitar reprovações em massa. As Universidades estaduais e federais adotam um polêmico sistema de cotas raciais e para alunos egressos de escolas públicas. Medidas eficazes de inclusão social, porém de resultado incerto como fator de crescimento econômico e social no longo prazo.

Cabe aqui a participação da iniciativa privada e de organizações não governamentais (ONG) para auxiliar no desenvolvimento de crianças e jovens. Um exemplo importante é a Fundação Bradesco que vem há anos se dedicando na formação de crianças, jovens e adultos.

Algumas faculdades brasileiras participam do programa Open Courseware do MIT (Massachusetts Institute of Technology) liberando cursos online gratuitos via Internet. O portal Efagundes.com faz sua contribuição com cursos gratuitos sobre inovação, tecnologia e gestão.

O desafio é de todos nós

A execução dessas iniciativas é de responsabilidade de todos. Esperar que o governo tome a iniciativa é um equivoco. Resultados práticos das manifestações populares em julho de 2013 mostraram a capacidade de transformação e pressão da sociedade. A vontade popular associada com a de empresários e acadêmicos auxiliarão o legislativo e executivo a criar leis e projetos para virarmos o jogo no Brasil.

Novas fontes de energia substituem o petróleo

Já é oficial, o boom do xisto betuminoso (gás de xisto) americano está atingindo o mundo, segundo relatório da AIE – Agência Internacional de Energia. O petróleo que antes era enviado para os Estados Unidos agora está sendo enviado para outras países. Um ponto interessante, segundo a Agência, é que a maior parte da nova produção de petróleo mundial nos últimos cinco anos ocorreu fora dos países da Opep – Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

As ondas de choque provocadas pelo produção de gás de xisto e petróleo leve (como o do pré-sal) estão sendo sentidas no mercado global. Os países árabes e, provavelmente, a Venezuela são os mais atingidos por essas transformações. Desta forma, a produção de combustível e outros derivados de petróleo se voltam para a América do Norte (EUA e Canadá) e o pré-sal brasileiro.

Os maiores produtores de xisto betuminoso são a China, EUA e Argentina. Nosso vizinho já está pronto para produzir energia usando o gás de xisto. Isso irá baratear, significativamente, o custo da sua energia e poderá ser um grande fator de atratividade de investimentos internacionais. Lembrando, também, que o novo governo do Paraguai irá desenvolver sua indústria usando como atrativo a energia barata da sua parte da Usina de Itaipú.

O Brasil têm a 10º maior reserva de xisto betuminoso do mundo. Temos um grande número de termoelétricas operadas com gás natural, que a princípio, podem utilizar o gás de xisto sem necessidade de grandes modificações e impacto na eficiência. O governo planeja para o final de 2013 fazer os primeiro leilões das reservas de xisto betuminoso.

Além disso, a produção de energia renovável no Brasil vem  evoluindo rapidamente focadas em energia eólica e fotovoltaica. O aumento de plantas de geração faz que os custos dos equipamentos fiquem mais baratos. Importante, também, são os incentivos do governo para o setor de energia renovável e para as empresas que optarem pelo seu uso. A geração distribuída resolve o sério problema da nossa infraestrutura de transmissão, pois estando próximas das fontes consumidoras o risco de blackout diminui.

Resumindo, o Brasil tem um enorme potencial de geração de energia através das atuais e novas fontes de energia que irão baratear os custos de produção da indústria e atrair novos investimentos para o país. A questão principal é direcionar os investimentos e os incentivos para programas eficazes de geração de energia renovável.