O Fim da Competição por Terra: Energia e Alimento Juntos
Você já imaginou uma fazenda que produz comida e eletricidade no mesmo metro quadrado, economizando água e protegendo a lavoura do sol escaldante? Isso não é ficção científica. É o Agrovoltaico (AgriPV), e um novo estudo técnico de dezembro de 2025, assinado por Eduardo Mayer Fagundes, mostra que o Brasil está posicionado para liderar essa revolução global.
Neste artigo, traduzimos os principais pontos desse estudo detalhado para você entender como essa tecnologia está mudando o jogo no campo.
O Que é Agrovoltaico (AgriPV)?
Ao contrário das usinas solares tradicionais, que ocupam a terra exclusivamente para gerar energia, o AgriPV consiste na instalação de painéis fotovoltaicos elevados sobre as culturas agrícolas.
O segredo está em uma métrica chamada Razão Equivalente de Terra (LER). O estudo aponta que, em sistemas AgriPV, a produtividade combinada pode aumentar em 60% a 70%. Basicamente, é como fazer 1 hectare render por 1,6 hectares.
A Magia do Microclima: Menos Sol, Mais Água
Muitos produtores temem que a sombra dos painéis prejudique as plantas. Mas, no clima tropical brasileiro, o “excesso” de luz e calor é frequentemente o vilão.
O estudo destaca que os painéis funcionam como um escudo inteligente:
- Economia de Água: Ao reduzir a evaporação, o sistema mantém a umidade do solo, atuando como uma “bateria de água”. Em regiões semiáridas como a Caatinga, isso pode reduzir a necessidade de irrigação em até 30%.
- Proteção Térmica: As plantas sofrem menos estresse nas horas mais quentes do dia (“depressão do meio-dia”), o que compensa a menor quantidade de luz.
As Superculturas do Futuro
O relatório analisou quais plantas “casam” melhor com a energia solar no Brasil. Aqui estão as campeãs:
1. Brassica carinata: O Combustível de Aviação
Esta oleaginosa de inverno é a grande aposta para o Combustível Sustentável de Aviação (SAF).
- Vantagem: Ela protege o solo na entressafra e se beneficia do microclima criado pelos painéis, que reduzem o risco de geadas no Sul e picos de calor no Cerrado.
- Lucro: Além de vender o grão para biocombustível, o produtor gera créditos de carbono de baixíssima intensidade.
2. Sorgo: O Rei da Safrinha
Conhecido por sua resistência, o sorgo mostrou uma capacidade incrível de adaptação. Mesmo sendo uma planta que gosta de sol (C4), ele compensa o sombreamento mantendo a água no solo, garantindo estabilidade na produção mesmo em anos de seca.
3. Culturas de Alto Valor
- Gergelim: Sensível ao calor extremo na germinação, ele agradece a sombra protetora dos painéis.
- Feijão-Mungo: Uma leguminosa que prospera na sombra parcial, ideal para o Nordeste.
- Lúpulo: As estruturas altas dos painéis servem de suporte para as treliças do lúpulo, e a energia gerada alimenta as luzes LED necessárias para a floração no clima brasileiro.
O Cenário Regulatório: Por Que Investir Agora?
A viabilidade do AgriPV no Brasil não é apenas técnica, é econômica e legal. O estudo ressalta dois marcos fundamentais:
- Lei 14.300 (Marco da Geração Distribuída): Permite que a energia gerada na lavoura abata o consumo da sede, dos pivôs de irrigação ou até do escritório na cidade.
- Lei 14.993 (Combustível do Futuro): Sancionada recentemente, ela cria um mercado garantido para biocombustíveis como o SAF (da Carinata) e o Etanol (do Sorgo), trazendo segurança para quem planta.
Conclusão: A Fazenda 3.0
O Brasil tem a oportunidade de sair na frente. O modelo AgriPV permite ao produtor rural diversificar sua renda em três frentes: venda da safra, economia/venda de energia e créditos de carbono.
Como conclui o estudo de Fagundes, não se trata mais de escolher entre produzir energia ou comida. O futuro é a intensificação sustentável, onde os painéis solares trabalham em simbiose com a agricultura para criar um campo mais resiliente e lucrativo.
Analogia Final: Pense no sistema AgriPV como um “ar-condicionado natural” que paga a própria conta de luz. Ele resfria a lavoura, economiza a “bateria” de água do solo e, de quebra, gera energia limpa para toda a fazenda.
Baseado no artigo técnico: “Integração Estratégica de Culturas Energéticas Emergentes e Sistemas Agrovoltaicos”, Eduardo Mayer Fagundes, Dezembro de 2025.

