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Arquiteturas de Confiabilidade em Energia & Utilities: do Projeto ao O&M

Sumário executivo

A rede elétrica deixou de ser apenas um “ativo operacional” para se tornar uma plataforma estratégica do negócio. A combinação de transição energética, eletrificação de cargas, crescimento de data centers, inserção intensiva de renováveis e digitalização de subestações mudou o jogo. Não basta mais cumprir requisitos mínimos de engenharia; a pergunta chave passa a ser: a arquitetura como um todo é resiliente, adaptável e economicamente sustentável ao longo de décadas?

Confiabilidade, nesse contexto, deixa de ser um tema exclusivo da área técnica e passa a ter impacto direto em receita, multas e penalidades regulatórias, reputação, experiência do cliente e posicionamento competitivo. Redes planejadas e operadas apenas “no mínimo técnico” tendem a concentrar falhas, responder mal a eventos climáticos extremos e consumir mais CAPEX e OPEX para manter níveis mínimos de serviço. Em contrapartida, arquiteturas bem desenhadas de confiabilidade e resiliência funcionam como um “seguro estrutural” contra interrupções relevantes, perda de confiança e deterioração de indicadores regulatórios.

Do ponto de vista de gestão, o eixo de decisão muda: confiabilidade passa a ser atributo arquitetural, não apenas operacional. As escolhas feitas no projeto executivo, no comissionamento, na automação (IEDs, SCADA), na telemetria, na estratégia de manutenção e na cibersegurança formam um encadeamento único. Se esse encadeamento é coerente, a organização captura valor de tecnologias digitais, reduz riscos e consegue planejar investimentos com previsibilidade. Se não é, acumula complexidade, vulnerabilidades e atuação predominantemente reativa.

Para organizar essa agenda em um nível estratégico, é útil pensar em quatro pilares:

  • Engenharia de confiabilidade ao longo do ciclo de vida – projetar, operar, manter e substituir ativos com base em risco, criticidade e valor para o negócio, em vez de apenas idade ou histórico de falhas. Isso reduz “apagões de CAPEX”, evita picos de indisponibilidade e melhora o retorno sobre investimentos em ativos.
  • Arquitetura em camadas – ativos físicos robustos; automação e proteção bem desenhadas (subestações digitais, IEDs, esquemas de restabelecimento); supervisão e dados que transformam telemetria em decisão; e uma camada de cibersegurança e resiliência que protege a operação em um ambiente de ameaças crescentes.
  • Manutenção orientada a dados – migração da manutenção reativa para preventiva, depois baseada em condição e, por fim, preditiva, com uso de sensores, telemetria e modelos analíticos. O resultado esperado é redução de paradas não planejadas, otimização de OPEX e maior previsibilidade de disponibilidade.
  • OT cybersecurity como parte da confiabilidade – redes OT e subestações digitais exigem tratamento integrado de cibersegurança e continuidade de negócios. Incidentes cibernéticos passam a ser tão críticos quanto falhas físicas, e precisam ser endereçados como risco operacional e estratégico.

Para conselhos de administração e alta gestão, as implicações são claras. Primeiro, confiabilidade e resiliência devem ser tratadas como temas de estratégia corporativa, não apenas como questões técnicas ou de “manutenção da rede”. Segundo, investimentos em modernização de rede, automação, monitoramento, analytics e OT cybersecurity precisam ser priorizados como um portfólio integrado, com base em risco e valor, em vez de projetos dispersos e desconectados entre si. Terceiro, é fundamental estabelecer um modelo de governança que conecte operação, planejamento, manutenção, TI, segurança da informação, regulação e finanças, com fóruns regulares de decisão e indicadores que façam a ponte entre desempenho técnico e resultados de negócio.

Na prática, isso se traduz em construir um masterplan de confiabilidade e resiliência: um roteiro estruturado que combine diagnóstico de maturidade, desenho de uma arquitetura alvo em camadas, roadmap de investimentos, implantação gradual de manutenção orientada a dados, fortalecimento da segurança em OT e capacitação das equipes técnicas e gestoras. A mensagem central é objetiva: organizações que assumirem confiabilidade como questão de arquitetura e governança – e não apenas como “problema operacional” – estarão melhor posicionadas para enfrentar o novo ciclo de exigências regulatórias, pressão por sustentabilidade, aumento de eventos extremos e maior escrutínio de clientes, investidores e sociedade.


Introdução: confiabilidade como eixo estruturante em Energia & Utilities

Na prática de engenharia de sistemas elétricos, quem opera rede sabe que “estar em conformidade” com critérios mínimos já não é suficiente. A combinação de transição energética, eletrificação acelerada, presença crescente de renováveis e digitalização intensiva deslocou o foco: a pergunta deixou de ser apenas “o sistema atende à demanda com segurança?” e passou a ser “a arquitetura como um todo é resiliente, adaptável e economicamente sustentável ao longo de décadas?”.

As definições de engenharia de confiabilidade reunidas pelo Sustainability Directory ([s.d.]b) e a abordagem proposta pela ABS Group sobre engenharia de confiabilidade na era da análise preditiva ([s.d.]) ajudam a estruturar esse raciocínio: confiabilidade precisa ser tratada ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos, do projeto ao descomissionamento, com visão integrada de risco, custo e desempenho. Quando se observa o comportamento real de redes em campo, essa proposição deixa de ser conceito abstrato e aparece como padrão: redes planejadas apenas para o “mínimo técnico” tendem a concentrar falhas, reagir mal a eventos extremos e consumir mais CAPEX/OPEX no longo prazo.

Bjerkebæk et al. (2025) exploram esse ponto ao simular efeitos de diferentes estratégias de gestão de ativos na confiabilidade de suprimento em horizontes longos. Em paralelo, análises de modernização e resiliência de redes (KIRZINGER, 2025; IBM, 2025a; ENGINEERING WAYS TO IMPROVE ELECTRICAL GRID RESILIENCE, [s.d.]) mostram que confiabilidade, resiliência e descarbonização estão convergindo para um mesmo centro de gravidade decisório.

À luz dessas evidências e da experiência acumulada em projetos de utilities, uma leitura consistente é a seguinte:

  • confiabilidade deixou de ser atributo “de operação” e passou a ser atributo arquitetural;
  • decisões tomadas no projeto executivo, no comissionamento, na automação, na telemetria e na cibersegurança formam um encadeamento que define a resiliência real da rede;
  • a organização só captura o valor pleno das tecnologias digitais quando conecta tudo isso a um modelo de governança e a métricas de negócio.

Este artigo propõe uma síntese aplicada dessa visão, estruturada em:

  • engenharia de confiabilidade ao longo do ciclo de vida
  • projeto executivo e comissionamento como primeira linha de defesa
  • arquitetura em camadas (ativos, automação, supervisão, cibersegurança)
  • telemetria, monitoramento de condição e manutenção orientada a dados
  • resiliência e modernização de redes
  • modelo integrado de governança
  • e, por fim, um caminho de atuação consultiva para acelerar essa jornada.

Engenharia de confiabilidade ao longo do ciclo de vida

2.1 Conceitos e papel na tomada de decisão

O Sustainability Directory (DIRECTORY, [s.d.]b) organiza a engenharia de confiabilidade em torno de um conjunto de conceitos que, na prática, se traduzem em decisões muito concretas:

  • probabilidades de falha e curvas de confiabilidade de equipamentos
  • interdependência entre componentes em topologias radiais, aneladas ou malhadas
  • métricas de desempenho de serviço, como SAIDI e SAIFI em distribuição (WHAT IS GRID RESILIENCE AND HOW CAN IT BE IMPROVED?, [s.d.]).

A ABS Group ([s.d.]) argumenta que, em infraestruturas críticas, confiabilidade não pode ser tratada isoladamente: ela precisa ser combinada com risco, segurança e custo total de propriedade. Em termos práticos, isso significa que:

  • um mesmo investimento pode ter impactos diferentes sobre confiabilidade e risco, dependendo de onde é aplicado na rede;
  • a “melhor” decisão não é necessariamente a de maior confiabilidade absoluta, mas a de melhor relação entre risco mitigado, custo e impacto regulatório.

Quando se olham redes reais, essa abordagem mais madura tende a se traduzir em carteiras de projeto que combinam reforços de rede, automação, monitoramento de condição e ações de O&M com base em criticidade, e não apenas em idade ou histórico de falha.

2.2 Gestão de ativos e horizonte de longo prazo

Bjerkebæk et al. (2025) mostram, com simulações quantitativas, como diferentes políticas de gestão de ativos – por exemplo, substituir ativos apenas após falha versus substituir com base em modelos de degradação e risco – produzem perfis de confiabilidade radicalmente distintos em 10–20 anos. Em vez de tratar cada intervenção como evento isolado, o artigo aborda o problema como portfólio de decisões interligadas.

A Risktec, ao discutir smart asset management (IMPROVING EQUIPMENT RELIABILITY THROUGH SMART ASSET MANAGEMENT, [s.d.]), reforça essa intuição de engenharia aplicada:

  • quando se investe tempo em entender criticidade real dos ativos,
  • e se combina isso com dados de condição e regras de negócio,

a organização consegue reordenar prioridades e evitar “apagões de CAPEX”, em que vários componentes críticos chegam ao fim de vida útil ao mesmo tempo.

Em paralelo, a introdução da AIChE/CCPS sobre integridade e confiabilidade de ativos (INTRODUCTION TO ASSET INTEGRITY AND RELIABILITY, [s.d.]) posiciona integridade como compromisso permanente com a capacidade de ativos de desempenhar suas funções com segurança. A partir dessa lente, o ciclo de vida deixa de ser uma linha reta e passa a ser um ciclo de ajustes, monitoramento e reconfiguração de estratégias.

Do projeto executivo ao comissionamento: onde a confiabilidade começa (ou se perde)

Na prática de engenharia, dois momentos são particularmente determinantes para a confiabilidade futura: o projeto executivo e o comissionamento. Os estudos de BBa Consultants sobre comissionamento e manutenção de equipamentos de distribuição (COMMISSIONING AND MAINTENANCE OF ELECTRICAL DISTRIBUTION EQUIPMENT, [s.d.]) e as diretrizes da Solutions.ie (COMMISSIONING AND MAINTENANCE, [s.d.]) deixam claro um diagnóstico incômodo, mas conhecido: muitos problemas de operação são, na verdade, “defeitos de projeto” que passaram sem ser identificados no comissionamento.

Do ponto de vista de arquitetura de confiabilidade, o projeto executivo deveria garantir, pelo menos:

  • filosofia de proteção clara e coerente, com coordenação entre relés, IEDs e dispositivos de manobra;
  • redundância pensada em termos de caminhos de energia e não apenas de equipamentos “de reserva”;
  • pontos de medição, sensores e infraestrutura de comunicação já previstos em função da estratégia futura de telemetria e análise de dados (AUTOMATIC DATA & TELEMETRY MONITORING FOR INFRASTRUCTURE, [s.d.]);
  • alinhamento de padrões de comunicação (por exemplo, IEC 61850, DNP3, Modbus) com uma visão de interoperabilidade e convergência OT/TI (WHAT IS AN IED – INTELLIGENT ELECTRONIC DEVICE?, [s.d.]; MANAGING INTELLIGENT ELECTRONIC DEVICES, [s.d.]).

O relatório do Congresso dos Estados Unidos sobre redundância em transmissão (CONGRESS OF THE UNITED STATES, 2023) reforça, numa linguagem orientada a política pública, o que engenheiros de planejamento já percebem: redundância útil é aquela que permite reconfigurar fluxos durante manutenções, contingências ou ataques, sem violar limites operativos.

Do lado do comissionamento, a disciplina proposta no material da Penn State University (LESSON 11: COMMISSIONING…, [s.d.]) é bastante próxima das boas práticas observadas em projetos bem-sucedidos:

  • testes integrados de proteção, automação e comunicação;
  • validação de alarmes, intertravamentos e registros;
  • verificação de cenários de falha e restabelecimento, não apenas testes estáticos.

Em síntese aplicada: se o projeto executivo não carrega parâmetros de confiabilidade, e se o comissionamento não valida o comportamento dinâmico do sistema, a operação herdará um conjunto de restrições que nenhuma solução de software será capaz de “corrigir” depois.

Arquitetura de confiabilidade em camadas

Uma forma pragmática de organizar a discussão – útil tanto em debates técnicos quanto em fóruns executivos – é pensar a arquitetura de confiabilidade em quatro camadas:

  • ativos físicos
  • automação e proteção
  • supervisão, dados e analytics
  • cibersegurança e resiliência

4.1 Ativos físicos: base silenciosa da confiabilidade

Bjerkebæk et al. (2025) quantificam o que operadores de redes já vivenciam empiricamente: envelhecimento concentrado de ativos críticos e políticas de substituição reativas costumam gerar picos de falhas e custos elevados em janelas específicas. Em contraste, estratégias de substituição baseadas em risco e condição suavizam a curva de indisponibilidades e de CAPEX.

Essa visão converge com a perspectiva de integridade de ativos da AIChE/CCPS (INTRODUCTION TO ASSET INTEGRITY AND RELIABILITY, [s.d.]) e com as boas práticas de asset management da Risktec ([s.d.]):

  • conhecer o inventário de ativos, seus modos de falha e criticidade;
  • decidir substituição e reforço com base em risco, não apenas em idade;
  • combinar inspeções, monitoramento de condição e histórico de ocorrência para calibrar o plano de O&M.

Sem esse “chão” de engenharia de ativos, as camadas superiores – automação, dados, cibersegurança – operam sobre uma base estruturalmente frágil.

4.2 Automação e proteção: IEDs, SCADA e subestações digitais

O guia da iGrid T&D (WHAT IS AN IED – INTELLIGENT ELECTRONIC DEVICE?, [s.d.]) e a nota sobre IEDs (INTELLIGENT ELECTRONIC DEVICE, 2025) descrevem os dispositivos eletrônicos inteligentes como a espinha dorsal das subestações digitais: eles protegem, medem, automatizam e registram o comportamento dos equipamentos em tempo quase real.

Na prática, quando IEDs são bem especificados, parametrizados e integrados:

  • reduzem tempos de atuação em faltas;
  • aumentam a seletividade e diminuem desligamentos indevidos;
  • alimentam o SCADA com dados de alta granularidade, melhorando a qualidade da supervisão (SCADA SYSTEMS…, 2018).

NURRUZZAMAN e RANA (2025) mostram como essa integração, combinada com IoT e analytics, transforma a distribuição em um sistema mais observável e automatizável. A Eaton, ao tratar de gestão de IEDs (MANAGING INTELLIGENT ELECTRONIC DEVICES, [s.d.]), chama atenção para um ponto que costuma ser negligenciado: a administração do ciclo de vida de configuração desses dispositivos é, por si só, um fator de confiabilidade e de segurança.

Subestações digitais, bem desenhadas, tornam o sistema mais flexível. Subestações digitais mal desenhadas – sem governança de configuração, sem padronização de lógicas, sem integração consistente com o SCADA – podem, ao contrário, introduzir novos modos de falha.

4.3 Supervisão, dados e analytics: da visibilidade à decisão

KIRZINGER (2025) e IBM (2025a; 2025b) convergem na ideia de que modernização de rede e resiliência dependem, cada vez mais, da capacidade de integrar dados de diversas fontes: medições em campo, registros de falhas, dados comerciais e modelos de rede.

A ABS Group ([s.d.]) e o Sustainability Directory (DIRECTORY, [s.d.]a) exploram como modelos de confiabilidade e analytics preditivo podem, quando bem ancorados, mudar a dinâmica de decisão:

  • priorizando intervenções antes que falhas críticas ocorram;
  • recalibrando políticas de O&M com base em evidências;
  • ajustando investimentos em linha com o comportamento real dos ativos.

O estudo da Retain Athena (FROM REACTIVE TO PREDICTIVE, [s.d.]) traduz isso em uma trajetória prática: organizações migram de manutenção reativa para preventiva, baseada em condição e, finalmente, para preditiva, à medida que consolidam dados, implantam telemetria e desenvolvem modelos de análise.

A experiência mostra que o gargalo nem sempre é tecnológico: muitas vezes, os dados já existem, mas estão dispersos e não são incorporados a um processo estruturado de tomada de decisão. A camada de supervisão e analytics não é apenas um software; é um arranjo organizacional em torno dos dados.

4.4 Cibersegurança e resiliência: o elo que falta na maioria dos desenhos

Sinenko e Dondossola ([s.d.]) e Kolosok e Gurina (2022) colocam a cibersegurança no centro da discussão de resiliência de sistemas de potência. Em um cenário de subestações digitais, redes OT e convergência com TI, ataques cibernéticos deixam de ser um “risco de TI” e passam a ser risco direto de continuidade de serviço.

O projeto da TU Delft (INFORMATION ABOUT THE CYBER RESILIENCE…, [s.d.]) reforça isso ao modelar interações entre camada física e camada cibernética. Bonita Reck (2021), ao tratar de OT cybersecurity como chave para resiliência operacional, resume um conjunto de práticas que, em campo, fazem diferença:

  • segmentação de redes, com separação clara entre domínios OT e TI;
  • políticas rígidas de acesso e configuração;
  • monitoramento de anomalias em tempo quase real;
  • processos de resposta a incidentes testados e revisados.

Cyber Defense Magazine (OPERATIONAL RESILIENCE, 2025) e MF Cyber (CYBER & OPERATIONAL RESILIENCE (CORe), [s.d.]) ampliam o conceito de resiliência para além da proteção: trata-se de garantir que a organização consiga continuar operando, ainda que de forma degradada, durante e após incidentes. Do ponto de vista de confiabilidade, isso significa que “tempo de indisponibilidade decorrente de incidente cibernético” precisa ser tratado com a mesma seriedade que falhas físicas.

Telemetria, monitoramento de condição e redes de sensores

Na última década, telemetria avançada e monitoramento de condição deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos em projetos de maior criticidade. A Ovarro, ao tratar de resposta a desastres com sistemas remotos (ENHANCING DISASTER RESPONSE, [s.d.]), e a Encardio-Rite, ao abordar monitoramento automático de infraestrutura (AUTOMATIC DATA & TELEMETRY MONITORING FOR INFRASTRUCTURE, [s.d.]), mostram que a lógica é a mesma, seja em redes elétricas, barragens ou túneis:

  • sensores distribuídos geram dados em tempo quase real;
  • telemetria confiável leva esses dados a centros de decisão;
  • a combinação de alarmes e dashboards permite agir antes que pequenos desvios se tornem crises.

Aplicado a sistemas de potência, NURRUZZAMAN e RANA (2025) detalham como monitoramento de condição habilitado por IoT transforma a forma de gerenciar transformadores, linhas e dispositivos de manobra. A AMEU, ao discutir monitoramento e controle avançado de rede (ADVANCED GRID MONITORING & CONTROL SYSTEM, [s.d.]), reforça a importância de integrar esses dados com modelos de rede e automação.

Na prática, isso se traduz em:

  • menos inspeções cegas e mais inspeções orientadas por dados;
  • planos de manutenção e substituição ajustados de acordo com sinais reais de degradação;
  • maior previsibilidade de desempenho, especialmente sob condições severas de operação.

A pesquisa de Vaasa sobre condition monitoring proativo (PROACTIVE CONDITION MONITORING FOR POWER GRID, 2022) demonstra que, quando essa abordagem é implantada de forma estruturada, o efeito acumulado sobre confiabilidade e custos é expressivo.

Estratégias de manutenção orientadas a dados

O Sustainability Directory (DIRECTORY, [s.d.]a), a ABS Group ([s.d.]) e a Retain Athena (FROM REACTIVE TO PREDICTIVE, [s.d.]) convergem em uma narrativa de evolução:

  • manutenção corretiva: inevitável, mas cara e imprevisível quando predominante;
  • manutenção preventiva calendarizada: melhora a situação, mas pode levar a intervenções desnecessárias;
  • manutenção baseada em condição: ajusta intervenções ao estado real;
  • manutenção preditiva: usa modelos para antecipar falhas antes que sinais críticos sejam facilmente observáveis.

NURRUZZAMAN e RANA (2025) detalham, na prática de distribuição, como a combinação de SCADA, IoT e analytics preditivo permite migrar para esse último estágio. A Life Cycle Engineering (ENERGY & UTILITY, [s.d.]) complementa com a perspectiva econômico-financeira: quando bem implantada, essa combinação reduz OPEX, racionaliza CAPEX e melhora a previsibilidade do negócio.

Em termos operacionais, há alguns pontos que se repetem em implementações bem-sucedidas:

  • iniciar com classes específicas de ativos (por exemplo, transformadores de potência ou religadores críticos);
  • garantir a qualidade dos dados antes de sofisticar modelos;
  • integrar a saída dos modelos ao processo de planejamento de manutenção, com responsáveis claros e metas mensuráveis.

Sem essas amarras de governança, existe o risco de acumular dashboards e relatórios sem impacto real na rotina de campo.

Confiabilidade, resiliência e modernização de redes

A ASME (ENGINEERING WAYS TO IMPROVE ELECTRICAL GRID RESILIENCE, [s.d.]) e a IBM (2025a; 2025b) colocam a modernização da rede dentro de um contexto mais amplo: lidar com eventos climáticos extremos, integrar recursos distribuídos, acomodar novas cargas (como data centers) e, ao mesmo tempo, manter ou melhorar indicadores de confiabilidade.

TRC Companies (WHAT IS GRID RESILIENCE AND HOW CAN IT BE IMPROVED?, [s.d.]) definem resiliência como a capacidade do sistema de:

  • absorver choques;
  • limitar a propagação de falhas;
  • restaurar serviço de maneira eficiente.

Do ponto de vista prático, a literatura e a experiência convergem em alguns vetores:

  • redes mais observáveis (mais sensores, mais telemetria, melhor modelagem);
  • redes mais automatizadas (manobras e restabelecimento mais rápidos);
  • redes mais flexíveis (capazes de integrar geração distribuída, armazenamento e resposta da demanda);
  • redes mais seguras (com proteção física e cibernética adequadas).

Bjerkebæk et al. (2025) e KIRZINGER (2025) reforçam a necessidade de usar modelos de confiabilidade e avaliação econômica para priorizar investimentos; IBM (2025a; 2025b) propõe uma abordagem de “estratégias e táticas” para modernização, integrando tecnologia, regulação e finanças.

Na prática, isso se traduz em uma carteira de iniciativas que mistura reforço físico de rede, automação, monitoramento, cibersegurança e mudanças de processo.

Arquitetura integrada e modelo de governança

Se conectarmos todos esses pontos – engenharia de confiabilidade, gestão de ativos, automação, telemetria, analytics, cibersegurança e resiliência – o resultado é um framework de arquitetura integrada que pode ser usado tanto para desenhar novos projetos quanto para reconfigurar redes existentes.

A essência desse framework pode ser resumida em três eixos de decisão:

  • eixo técnico: como desenhar e operar ativos, automação e dados para entregar confiabilidade e resiliência;
  • eixo econômico-regulatório: como alinhar essas decisões a metas de custo, retorno e conformidade;
  • eixo organizacional: como estruturar papéis, responsabilidades e processos para sustentar essa arquitetura ao longo do tempo.

Os trabalhos de Bjerkebæk et al. (2025), KIRZINGER (2025), IBM (2025a; 2025b), ABS Group ([s.d.]) e Retain Athena ([s.d.]) mostram que, quando esse framework é internalizado, utilities tendem a sair de um ciclo reativo de “apagar incêndios” e entrar em um ciclo mais previsível, com decisões sustentadas por dados e por uma visão clara de risco e valor.

Do ponto de vista de governança, isso normalmente implica:

  • fóruns regulares de decisão que unam operação, planejamento, manutenção, TI e segurança;
  • processos de priorização de investimentos baseados em risco e valor;
  • indicadores que conectem confiabilidade técnica a metas de negócio.

Como podemos ajudar: consultoria em arquiteturas de confiabilidade e resiliência

A experiência mostra que, mesmo quando a organização conhece essas referências e tendências, o desafio está em transformar conceitos em decisões e rotinas concretas. É exatamente nesse espaço que uma consultoria especializada pode agregar valor, atuando como “ponte” entre as boas práticas e o contexto específico da utility.

Tomando como guia as abordagens discutidas por Bjerkebæk et al. (2025), KIRZINGER (2025), IBM (2025a; 2025b), ABS Group ([s.d.]) e outros autores citados, uma atuação consultiva efetiva costuma se estruturar em algumas frentes complementares:

a) Diagnóstico de maturidade em confiabilidade e resiliência

  • leitura integrada da situação atual: ativos, automação, supervisão, dados, cibersegurança e governança;
  • análise dos indicadores históricos de continuidade, falhas críticas, incidentes de segurança e performance regulatória;
  • comparação com práticas de referência em resiliência e modernização.

b) Desenho de blueprint de arquitetura

  • construção conjunta de uma arquitetura alvo, em camadas, que explicite o papel de ativos, IEDs, SCADA, telemetria, analytics e cibersegurança;
  • definição de padrões tecnológicos, interfaces e requisitos de dados alinhados à estratégia da organização;
  • identificação de gaps entre o estado atual e o desejado.

c) Roadmap de modernização e priorização de investimentos

  • aplicação de metodologias de avaliação de risco e valor para priorizar projetos ;
  • desdobramento de iniciativas em fases, com quick wins e projetos estruturantes;
  • conexão clara entre cada projeto e seus impactos em confiabilidade, resiliência, custos e indicadores regulatórios.

d) Implantação de estratégias de O&M orientadas a dados

  • revisão dos processos de manutenção, incorporando monitoramento de condição e modelos preditivos em linha com o Sustainability Directory;
  • desenho de fluxos decisórios que levem insights de dados até o plano de manutenção e à rotina de campo;
  • definição de métricas de sucesso (por exemplo, redução de falhas não planejadas, ganhos em SAIDI/SAIFI, otimização de OPEX e CAPEX).

e) OT cybersecurity e resiliência operacional

  • diagnóstico de riscos cibernéticos em ambientes OT, apoiado nas abordagens de Sinenko e Dondossola;
  • desenho de segmentação de rede, políticas de acesso, monitoramento de anomalias e resposta a incidentes;
  • apoio na realização de exercícios de resiliência operacional que testem a capacidade de continuar operando sob cenários de falha ou ataque.

f) Capacitação e governança

  • desenvolvimento de trilhas de formação em engenharia de confiabilidade, automação, analytics e cibersegurança, alinhadas às referências técnicas utilizadas neste artigo;
  • apoio à criação ou revisão de fóruns e processos de governança para garantir continuidade da evolução arquitetural;
  • suporte na tradução de conceitos técnicos em narrativas executivas, facilitando o alinhamento com a alta gestão e com stakeholders externos.

Em síntese, a proposta é sair da lógica de projetos isolados (um projeto de automação, outro de telemetria, outro de cibersegurança) e passar a trabalhar com um “masterplan de confiabilidade e resiliência”, calibrado com a realidade da organização, mas sustentado por práticas e evidências consolidadas na literatura técnica. É essa combinação de visão arquitetural, rigor analítico e pragmatismo de implementação que, em última instância, diferencia iniciativas pontuais de uma trajetória consistente de transformação.

Referencias

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RECK, Bonita. The Key to Operational Resilience: OT Cybersecurity. Madison Technologies, 23 jan. 2021. Disponível em: http://uat.madison.tech/the-key-to-operational-resilience-ot-cybersecurity/. Acesso em: 14 nov. 2025.

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SINENKO, Olga; DONDOSSOLA, Giovanna. About the key role of cyber security in power system resilience. [S.d.].

What Is Grid Resilience and How Can It Be Improved? | TRC. TRC Companies, [S.d.]. Disponível em: https://www.trccompanies.com/insights/enhancing-grid-resilience/. Acesso em: 14 nov. 2025.

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