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2026: O Ano em que o Brasil Vai Reduzir o Ritmo — e as Empresas Preparadas Vão Liderar a Retomada

1. O Ponto de Virada: Crescimento Travado e Confiança em Risco

O Brasil entra em 2026 com o freio de mão puxado.

Os indicadores mostram uma economia em desaceleração clara, juros reais entre os mais altos do mundo e um Estado com limite fiscal atingido.

A derrubada da Medida Provisória do IOF foi apenas o sintoma visível de uma falha estrutural: a incapacidade política de manter uma trajetória de disciplina fiscal em um ambiente global cada vez mais volátil.

Com Selic real acima de 8%, inflação próxima de 5% e câmbio pressionado, o país deve operar sob um regime de estagnação fiscal e monetária — ou seja, crescimento baixo, custo de capital alto e pouca margem para erro.

No front externo, o cenário não oferece alívio: ouro e dólar continuam valorizados, o que reforça a fuga de capitais de mercados emergentes e aumenta a percepção de risco-país.

Em 2026, o capital será seletivo. Os projetos que não demonstrarem solidez técnica, governança regulatória e segurança de execução simplesmente não sairão do papel.


2. O Fator Político: Travamento Institucional a Partir de Maio

Poucos executivos estão conscientes de quão restritivo é o calendário eleitoral brasileiro.

A partir de maio de 2026, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a Lei Eleitoral (9.504/97) entram em campo, e o país literalmente desacelera.

Isso significa:

  • Proibição de novas despesas sem disponibilidade de caixa (art. 42 da LRF).
  • Vedação de transferências voluntárias e publicidade institucional (art. 73 da Lei Eleitoral).
  • Congelamento de convênios, emendas e novos contratos públicos até o fim do ano.

Na prática, o relógio da execução pública para em abril.

Projetos que não estiverem contratados, empenhados e tecnicamente instruídos até o primeiro quadrimestre ficarão para o próximo governo.

Essa realidade transformará 2026 em um ano de travamento administrativo, principalmente nos setores de energia, infraestrutura e inovação — justamente aqueles que dependem de políticas públicas ou financiamento estatal.


3. O Mapa de Pressões Estruturais

3.1. Energia Elétrica: Curtailment e Tarifas em Alta

O sistema elétrico vive um paradoxo: sobram megawatts, mas falta rede.

curtailment — corte compulsório da geração renovável por insuficiência de transmissão — tornou-se uma constante no Nordeste.

Mesmo com reforços em curso, o ONS projeta limitações de intercâmbio até 2027.

Enquanto isso, a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) continua expandindo.

Com mais de R$ 40 bilhões em subsídios cruzados, o custo é repassado diretamente ao consumidor e às indústrias eletrointensivas, corroendo margens e pressionando inflação.

IndicadorValor 2025Tendência 2026Comentário
CDE TotalR$ 40,6 biAlta moderadaPressão tarifária crescente
Curtailment (NE–SE)1,2 GW médioPersistenteGargalo de rede estrutural
PLD MédioR$ 145/MWhAltaVolatilidade por despacho térmico

O recado é claro: quem depender de energia renovável sem contrato firme e sem mitigação via armazenamento enfrentará volatilidade e perdas.


3.2. Gás Natural: O Vetor Travado da Reindustrialização

Apesar do novo marco legal (Lei 14.134/2021), o mercado de gás natural brasileiro continua restrito e caro.

Os programas PIPE e PIG da EPE mostram defasagem de dutos e gargalos logísticos — especialmente nas conexões Sudeste–Nordeste.

A ausência de concorrência na molécula mantém o preço doméstico entre US$ 14 e 16 por MMBTU, muito acima do patamar competitivo internacional.

Isso inviabiliza o uso intensivo do gás por indústrias e limita seu papel como energia de transição.

FatorSituação AtualTendência
Capilaridade de Dutos9 mil kmExpansão lenta até 2028
Preço do GásUS$ 14–16Estável em patamar alto
Abertura do Mercado<20% da demandaAvanço tímido

Sem resolver o acesso físico ao gás e à transmissão elétrica, o país continuará com energia cara e imprevisível, limitando investimentos industriais.


3.3. Indústria e Datacenters: Ilhas de Sobrevivência

Se o quadro macroeconômico é desafiador, há duas ilhas de atratividade:

os datacenters e a modernização industrial 4.0.

Regime Especial de Tributação para Datacenters (REDATA), em tramitação no Congresso, propõe isenção de PIS, Cofins, IPI e II para investimentos em infraestrutura de energia e tecnologia da informação, condicionados ao uso de energia renovável.

É um game changer para o setor, especialmente para players globais que buscam expansão no Brasil.

Paralelamente, o programa Nova Indústria Brasil (NIB) mobiliza R$ 300 bilhões até 2026 via BNDES e Finep, direcionando crédito e subvenções para automação, eficiência energética e P&D.

ProgramaBenefícioStatusOportunidade
REDATAIsenção tributária p/ DatacentersMP em tramitaçãoCAPEX em energia e cloud
NIBCrédito industrial (BNDES/Finep)Vigente 2024–26Projetos de automação e P&D
Embrapii / FNDCTFinanciamento não reembolsávelEditais contínuosDigitalização e IA industrial

Esses dois instrumentos — REDATA e NIB — são as poucas políticas ainda operacionais em 2026.

Mas o timing é crítico: a janela de acesso real se encerra no primeiro semestre, antes das restrições eleitorais.


4. Transição Energética: BESS, Hidrogênio e Oportunidade Regulada

Dois marcos recentes devem redefinir o setor energético entre 2025 e 2027:

Lei do Hidrogênio de Baixa Emissão (14.948/2024) e a regulação do Armazenamento de Energia (BESS), cuja consulta pública (CP 39/2023) está em fase final.

Ambos ainda exigem normas infralegais, mas já sinalizam um novo ciclo de investimentos híbridos — combinando geração renovável, baterias e hidrogênio verde.

Empresas que anteciparem projetos-piloto nesses campos poderão captar recursos junto à Finep, FNDCT Verde e programas internacionais de transição energética, posicionando-se na dianteira tecnológica do setor.

MarcoStatusImpacto Esperado
BESS (CP39/2023)Consolidação em 2025Viabiliza PPAs híbridos
Lei 14.948/2024 (H₂V)SancionadaDemanda por regulamentação técnica
FNDCT VerdeAtivoApoio a projetos sustentáveis

Oportunidade concreta: integrar energia, automação e digitalização em soluções escaláveis — de parques solares híbridos a datacenters autossuficientes.


5. O Risco de 2026: Quando o Estado Fica Imóvel

De todas as variáveis em jogo, nenhuma é tão determinante quanto o travamento institucional do ciclo eleitoral.

A paralisia prevista entre maio e dezembro de 2026 cria um vácuo decisório que afetará licitações, liberações orçamentárias e programas de incentivo.

A economia brasileira tende a operar no modo “espera”, com investimentos públicos congelados e decisões privadas adiadas.

TrimestreSituaçãoImpacto para Projetos
Q1/2026Última janela operacionalAssinar e empenhar contratos
Q2/2026Início das travas fiscaisRisco de suspensão de desembolsos
Q3–Q4/2026Eleições e transiçãoParalisação quase total

Em resumo: quem não agir até abril de 2026 estará fora do ciclo de execução.

Os meses seguintes serão de manutenção, não de expansão.


6. Estratégias de Sobrevivência e Crescimento

O contexto de 2026 não permite neutralidade.

As empresas terão de escolher entre duas posturas: defensiva inteligente ou ofensiva estratégica.

6.1. Estratégia Defensiva Inteligente

  • Tesouraria: alongar passivos, proteger rating e reforçar liquidez.
  • Energia: contratar PPAs com cláusulas de curtailment e flex dispatch via BESS.
  • Compliance: revisar cronogramas e contratos sob as restrições da LRF e Lei Eleitoral.
  • Governança: criar comitês de risco político e de execução regulatória.

6.2. Estratégia Ofensiva Estratégica

  • Aproveitar a janela 2025–Q1/2026 para submeter projetos aos programas NIB, Finep e Embrapii.
  • Desenhar contratos híbridos de energia (solar + storage + automação) para mitigar curtailment.
  • Investir em digitalização industrial e IA aplicada, capturando incentivos de produtividade.
  • Focar em eficiência energética como tese de retorno rápido e ativo ESG valorizado.

A vantagem competitiva em 2026 estará menos na inovação disruptiva e mais na execução disciplinada e no timing político-regulatório.


7. Os Três Eixos de Decisão para 2026

EixoDescriçãoAção Recomendada
FiscalAlta de juros e meta de déficit quase inalcançávelBlindar caixa e priorizar projetos de ROI rápido
RegulatórioMarco do BESS e H₂V em consolidaçãoAntecipar pilotos e garantir elegibilidade
EleitoralTravamento a partir de maioExecutar e empenhar até abril

Executivos e conselheiros que internalizarem essa matriz terão vantagem operacional e reputacional frente a concorrentes que aguardarem “melhores condições”.


8. Cenário Prospectivo: 2027 e o Novo Ciclo de Crescimento

O ano de 2027 tende a inaugurar um novo ciclo de reindustrialização verde, com o redesenho das políticas energéticas e o retorno gradual dos investimentos.

A maturação de programas como REDATA, BESS e NIB trará base para o relançamento de projetos paralisados em 2026.

Três tendências dominarão a agenda:

  1. Infraestrutura digital + energia renovável: datacenters como eixo da transição elétrica.
  2. Automação industrial com IA aplicada: produtividade como diferencial competitivo.
  3. Financiamento sustentável: fundos climáticos e instrumentos de transição verde substituindo subsídios cruzados.

O que em 2026 parecerá retração, em 2027 se revelará como realocação de capital — saindo da especulação para ativos produtivos e eficientes.


9. Conclusão: 2026, o Ano da Seleção Natural Econômica

2026 será o ano em que o Brasil reduzirá o ritmo — e os líderes estratégicos terão a chance de definir a próxima curva de crescimento.

O ambiente combina risco fiscal, incerteza política e paralisia institucional, mas também janelas de oportunidade únicas para quem compreender a lógica do ciclo.

Empresas que agirem entre Q4/2025 e Q1/2026 estarão um ano à frente de seus concorrentes quando o novo governo retomar a agenda de investimentos.

O Brasil de 2026 não premiará ousadia, e sim disciplina, previsibilidade e velocidade.

Os próximos meses serão decisivos para estruturar projetos, firmar contratos e consolidar posições antes do bloqueio institucional.

Quem entender o tempo — e agir agora — dominará o próximo ciclo.

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