efagundes.com

Tech & Energy Think Tank

Think tank independente com foco em energia, tecnologia e tendências globais. Análises para apoiar decisões estratégicas com visão de impacto.

Assine a Newsletter no Linkedin

Digital Twins na Modernização da Indústria Brasileira: Oportunidade Histórica para Competitividade e Sustentabilidade

O desafio da modernização industrial no Brasil

A indústria brasileira vive um momento decisivo. Nas últimas décadas, sua participação no PIB despencou de mais de 25% nos anos 1980 para pouco mais de 11% em 2024, reflexo de um processo contínuo de desindustrialização. Essa perda de relevância está diretamente associada ao envelhecimento do parque fabril, ao baixo nível de automação e à defasagem tecnológica em relação a economias que avançaram de forma acelerada na digitalização e na integração de suas cadeias produtivas globais.

Enquanto países da Ásia, da Europa e da América do Norte incorporaram de forma intensa inteligência artificial, automação avançada e manufatura digitalizada, o Brasil ainda opera com processos analógicos e equipamentos defasados. Essa realidade resulta em custos elevados, desperdícios energéticos e dificuldades crescentes para competir em mercados internacionais de maior valor agregado.

Neste cenário, a modernização industrial não é mais uma escolha estratégica. É uma condição de sobrevivência.

Políticas públicas e a resposta do governo

O Nova Indústria Brasil (NIB)

Para enfrentar esse desafio, o governo federal lançou em 2024 o Nova Indústria Brasil (NIB), programa que busca frear a desindustrialização, fomentar a autonomia tecnológica e alinhar o país às megatendências globais de inovação e sustentabilidade. A diretriz central é clara: estimular a digitalização, a eficiência energética e a inovação como pilares de uma nova competitividade.

O NIB também responde a pressões externas. As principais economias globais estruturam suas estratégias industriais em torno da inteligência artificial, da automação e da transição energética. O Brasil, ao reposicionar sua indústria, procura não apenas recuperar terreno, mas também garantir espaço nas cadeias globais de valor.

O papel da FINEP, do BNDES e do P&D da ANEEL

O ecossistema de fomento foi reforçado por três instrumentos principais:

  • FINEP – Programa Mais Inovação: oferece crédito reembolsável em condições diferenciadas e subvenção econômica para apoiar pesquisa, prototipagem e validação de novas tecnologias.
  • BNDES – Linha Indústria 4.0: lançada em 2025, disponibiliza R$ 12 bilhões para financiar aquisição de máquinas digitais, soluções de IoT e sistemas de automação avançada.
  • ANEEL – Programa de P&D do Setor Elétrico: obriga concessionárias a investirem parte de sua receita em projetos de inovação, garantindo fluxo contínuo de bilhões de reais aplicados em eficiência energética, digitalização de redes e novas tecnologias industriais.

Esses mecanismos convergem em torno de quatro objetivos: aumentar a produtividadereduzir a defasagem tecnológicainserir o Brasil em cadeias globais de maior sofisticação e atender às metas de sustentabilidade.

Digital Twins: o cérebro da nova indústria

Conceito e funcionamento

Os Digital Twins, ou gêmeos digitais, representam uma cópia virtual dinâmica de um ativo, processo ou sistema físico, alimentada por dados em tempo real. Diferem de simples modelos estáticos porque são organismos digitais vivos, capazes de simular comportamentos, prever falhas e recomendar ações.

O funcionamento envolve três camadas: a coleta contínua de dados por sensores e dispositivos inteligentes; a construção de modelos digitais que simulam o comportamento real; e o ciclo de retroalimentação, no qual o físico atualiza o digital e o digital orienta o físico. Esse processo cria um ambiente de aprendizado contínuo, transformando dados em inteligência acionável.

Benefícios estratégicos

Os benefícios para a indústria são expressivos:

  • Manutenção preditiva: redução de custos de paradas não planejadas.
  • Eficiência energética: identificação e correção de desperdícios em tempo real.
  • Prototipagem virtual: redução do custo de testes físicos, acelerando a inovação.
  • Decisão baseada em dados: dashboards e relatórios inteligentes para orientar gestores.

Com esses ganhos, os Digital Twins deixam de ser promessa e se consolidam como tecnologia estratégica para aumentar a produtividade e reduzir riscos operacionais.

O que a FIEE 2025 mostrou sobre o mercado

FIEE 2025, principal feira da indústria elétrica, eletrônica, energia e automação da América Latina, apresentou um portfólio de equipamentos que confirmam a maturidade da base tecnológica já disponível no Brasil.

Entre os destaques observados:

  • Medidores inteligentes: monitoramento de tensão, corrente, potência ativa e harmônicas.
  • Analisadores de qualidade de energia: conformidade com o PRODIST, registrando afundamentos, elevações de tensão, flicker e desequilíbrios.
  • Gateways IoT: interoperabilidade com protocolos como Modbus, MQTT e Ethernet/IP.
  • Dispositivos de edge computing: pré-processamento local de dados para reduzir latência.
  • Sistemas de gestão de energia: integração de hardware e software, consolidando dados em tempo real em dashboards acessíveis.

Essa infraestrutura compõe a espinha dorsal necessária para projetos de Digital Twins. O próximo passo é conectar os dados coletados a modelos digitais robustos que gerem valor.

Estrutura básica do projeto de Digital Twins

Estou desenvolvendo um projeto que busca exatamente esse alinhamento entre infraestrutura e inteligência. A proposta inclui:

  • Instalação de equipamentos de borda: sensores e dispositivos de edge computing em pontos críticos.
  • Coleta e padronização de dados: variáveis elétricas, ambientais e operacionais consolidadas segundo normas nacionais como o PRODIST.
  • Data Lake e banco de dados: arquitetura escalável para séries temporais, eventos e metadados.
  • Modelagem com IA: treinamento de algoritmos de Machine Learning para detecção de anomalias e otimização de processos.
  • Dashboards inteligentes: KPIs de eficiência, manutenção e produtividade.
  • Manutenção preditiva e simulação: algoritmos que antecipam falhas e testam cenários operacionais.
  • Chatbots de suporte: assistentes digitais baseados em IA generativa para apoiar engenharia, manutenção e produção em tempo real.

Esse modelo transforma sensores em inteligência e crédito em competitividade, alinhando o Brasil às melhores práticas globais.

Conclusão: oportunidade histórica

A modernização da indústria brasileira está sustentada por políticas públicas robustas, tecnologias já disponíveis e instrumentos de financiamento acessíveis. O verdadeiro desafio é integrar esses elementos em soluções que tragam retorno claro sobre o investimento.

Os Digital Twins representam o próximo salto. Eles unem dados, modelos digitais e inteligência artificial para criar ambientes produtivos mais resilientes, eficientes e sustentáveis. Projetos pioneiros nessa linha podem se tornar catalisadores da transformação, conectando incentivos públicos a soluções digitais que reposicionem a indústria brasileira no cenário global.

Em suma, a modernização não é apenas uma necessidade. É uma oportunidade histórica para transformar crédito e hardware em produtividade, competitividade e sustentabilidade real.


Leia o artigo expandido.

SERVIÇO PREMIUM

Serviço sob demanda para quem precisa de análises independentes para decisões de investimento, inovação e risco.

ARTIGOS TÉCNICOS

Conteúdos aprofundados para engenheiros, arquitetos de soluções e especialistas em TI que precisam traduzir tendências em decisões de arquitetura, segurança, dados e infraestrutura.


ARTIGOS RECENTES

E-BOOKS

Do insight à ação: e-books que estruturam pensamento e impulsionam inovação.

Como transformar cortes em alavancas de eficiência e inovação, usando inteligência artificial e o framework RE-FRAME para reduzir estruturas, preservar talentos e redesenhar a organização em 90 dias. 


GUIA

Projetos de Inteligência Artificial

Como Gerenciar Projetos de Inteligência Artificial: O Guia Completo