Data centers, gás natural e renováveis: o dilema da energia firme na era da IA

Quando a carga digital cresce em blocos, a decisão deixa de ser “fonte” e vira arquitetura de risco, prazo e evidência até 2030

A expansão de data centers, acelerada por cargas de inteligência artificial (IA), recolocou uma pergunta antiga em um contexto novo: como garantir energia firme, previsível e competitiva sem abrir um flanco de reputação, regulação e custo total de longo prazo. O ponto é que data center não cresce como consumo difuso; ele aparece como carga concentrada, com operação contínua e exigência de disponibilidade. Por isso, o gargalo tende a surgir primeiro na rede — conexão, subestações, reforços, cronogramas — e só depois na energia anual. Projeções recentes indicam que o consumo elétrico global de data centers pode subir de 448 TWh em 2025 para 980 TWh em 2030, com crescimento de 16% em 2025, e servidores otimizados para IA respondendo por 44% do consumo em 2030 (GARTNER, 2025). 

No Brasil, o tema entrou no radar institucional em 2025, com discussão explícita sobre impactos, desafios e expansão da rede para atender novas cargas digitais (ANEEL, 2025).  O que está em jogo agora é desenhar uma arquitetura que entregue confiabilidade e custo, mas também rastreabilidade e governança, porque a polêmica pública tende a acompanhar qualquer percepção de travamento fóssil ou de pressão sobre tarifas e recursos locais.


1) A nova carga “em blocos” e a crise do planejamento por linha reta

A questão é que a demanda de IA não costuma crescer como uma curva suave; ela chega por anúncios, clusters e decisões de conexão que podem acelerar ou desacelerar rapidamente. É como planejar um aeroporto olhando apenas o total anual, sem enxergar os picos por horário.

  • Projeções globais com base recente A pressão estrutural vem de números que já apontam mudança de patamar: 448 TWh (2025) para 980 TWh (2030), com alta de 16% em 2025, e 44% do consumo em 2030 associado a servidores otimizados para IA (GARTNER, 2025). 
  • Impacto local maior que o impacto agregado Mesmo quando o peso global é “menor que o barulho”, o efeito pode ser muito maior em mercados onde os novos data centers se concentram, elevando risco de congestionamento e necessidade de reforços (INTERNATIONAL ENERGY AGENCY, 2025). 
  • Planejamento por cenários e faixas O enquadramento proposto pela E3, consultoria Energy and Environmental Economics, recomenda que o objetivo não seja “acertar um número”, mas delimitar uma faixa crível de futuros e conectar isso a decisões flexíveis, para evitar tanto sobreinvestimento (ativos ociosos) quanto subinvestimento (risco de confiabilidade) (E3, 2025). 
  • Convergência de evidência operacional A percepção do setor é consistente: custos sobem, restrição de potência piora e a demanda por IA pressiona decisões de modernização (UPTIME INSTITUTE, 2025). 

2) Brasil: o centro do risco é “acesso e prazo”, não “energia total”

No Brasil, energia disponível no sistema e energia acessível no prazo do projeto são coisas diferentes. A metáfora é simples: não basta ter água no reservatório; é preciso tubulação, licença e vazão na ponta.

  • Sinal institucional e coordenação A ANEEL já tratou o tema como agenda pública, abordando impactos, desafios e perspectivas do setor elétrico diante do avanço de demandas de data centers e a expansão da rede para atender novas cargas digitais (ANEEL, 2025). 
  • Base técnica nacional para cenários O estudo do GESEL/UFRJ formula cenários para 2030, 2035 e 2040 de demanda elétrica anual de novos data centers e explicita premissas e fatores de utilização, reconhecendo incerteza além de 2040 (GESEL/UFRJ, 2025). 
  • Cronograma regulatório como variável crítica Materiais da EPE em 2025 discutem procedimento de acesso à rede básica e referências normativas, incluindo a Resolução Normativa nº 1.122/2025, o que impacta diretamente o “tempo de energização” (EPE, 2025). 
  • Dispersão do fenômeno na distribuição A EPE também registrou coleta com distribuidoras e destacou que as que reportaram data centers representam parcela relevante do mercado, indicando que o tema não é restrito a poucos atores (EPE, 2025). 

3) Gás natural como energia firme: firmeza, cogeração e risco de mercado

O gás natural aparece como solução por oferecer previsibilidade e capacidade de despacho. Mas o risco é transformar uma solução de cronograma em um passivo de carbono, reputação e exposição a volatilidade. É como atravessar uma ponte rápida sabendo que o pedágio pode mudar no meio do caminho.

  • Energia firme e previsibilidade operacional Em ambientes com restrição de rede ou prazos agressivos, térmicas a gás podem reduzir risco de atraso, mas adicionam licenciamento, cadeia de suprimento e governança de combustível, além de CAPEX e custos de operação.
  • Cogeração e trigeração como ganho sistêmico Cogeração (produção combinada de eletricidade e calor útil) e trigeração (eletricidade, calor e frio) podem elevar eficiência global ao reaproveitar energia térmica, mas exigem desenho de cargas térmicas e integração operacional para evitar “benefício no papel” (U.S. DEPARTMENT OF ENERGY, 2009). 
  • Risco climático e travamento de emissões Reportagens recentes apontam expansão relevante de projetos a gás associados à demanda de data centers, com preocupação de travamento de emissões de longo prazo caso a infraestrutura seja dimensionada para décadas (THE GUARDIAN, 2026). 
  • Risco de preço e geopolítica como contexto adicional Em 31/01/2026, artigo no O Estado de S. Paulo argumenta que o mercado global de gás natural entra em fase estruturalmente instável, com geopolítica influenciando resultados e possibilidade de sobreoferta e volatilidade; para data centers, isso reforça a necessidade de governança contratual e de “opcionalidade” (O ESTADO DE S. PAULO, 2026).
  • Implicação executiva: “gás como ponte” Quando o gás é considerado, o desenho tende a ser mais robusto se ele tiver papel explícito (base vs contingência), metas e limites, além de plano de mitigação e evidência, para reduzir risco de travamento e questionamentos.

4) Renováveis, contratos e rastreabilidade: o que “limpo” significa na prática

O problema é que energia renovável resolve parte do desafio, mas não garante automaticamente aderência horária à carga 24/7. É como comprar um seguro anual que não cobre o horário de maior risco.

  • Rastreabilidade e disciplina de emissões (Escopo 2) A orientação do GHG Protocol para emissões de eletricidade (Escopo 2) estrutura como empresas reportam emissões por eletricidade comprada, com abordagens “baseada na localização” e “baseada no mercado”, o que afeta como atributos e contratos sustentam alegações corporativas (GHG PROTOCOL, 2015). 
  • Contratos de compra de energia de longo prazo Contratos de longo prazo para renováveis podem reduzir volatilidade e apoiar metas, mas exigem governança de entrega, atributos e riscos de conexão; o custo total depende de prazo, perfil e garantia de lastro.
  • Risco reputacional por evidência frágil A controvérsia pública cresce quando há distância entre o discurso e a prova. Claims sem trilha auditável viram risco comercial e de compliance, especialmente em cadeias globais.
  • Integração com o “mundo real” da rede No Brasil, o valor dos contratos precisa dialogar com acesso e cronograma. Sem isso, o projeto pode estar “contratado”, mas não “energizado”.

5) Flexibilidade: armazenamento e resposta da demanda como terceira via

O objetivo é transformar variabilidade em gerenciabilidade. Armazenamento em baterias e resposta da demanda (redução ou deslocamento de carga em momentos críticos) reduzem picos e protegem cronogramas. É como colocar amortecedores em uma estrada irregular: não muda o caminho, mas muda a capacidade de atravessar sem quebrar.

  • Sistemas de armazenamento em baterias Baterias podem atuar em redução de pico, suavização do perfil e contingência de curta duração, reduzindo estresse na rede e risco de custo horário, desde que integradas a sistemas de gestão e medição de desempenho.
  • Resposta da demanda para proteger a rede e o caixa Programas de resposta da demanda reduzem necessidade de potência em momentos críticos e podem evitar reforços emergenciais; a viabilidade depende de automação e governança de operação.
  • O enquadramento por cenários como justificativa de investimento A E3 propõe tratar flexibilidade como “proteção” contra erro de projeção: ela reduz o custo de errar, porque permite acomodar crescimento acima do esperado sem comprometer confiabilidade e evita sobreinvestimento irreversível quando o crescimento não se materializa (E3, 2025). 
  • Trade-off: CAPEX e integração O risco não é tecnológico; é de execução. Sem integração, medição e manutenção, o ativo não entrega valor sistêmico.

6) Eficiência, PUE e gestão térmica: o “primeiro combustível” do data center

A questão é que a decisão de fonte fica mais simples quando a demanda é menor. Eficiência reduz potência necessária, encurta o caminho de conexão e diminui exposição a custo. É como reduzir o peso do avião antes de pedir uma pista maior.

  • PUE como métrica de eficiência de infraestrutura A métrica PUE (eficácia do uso de energia) relaciona energia total da instalação com energia dos equipamentos de tecnologia, e exige consistência de método para comparações justas (THE GREEN GRID; ASHRAE TC 9.9, 2014). 
  • Gestão térmica com diretrizes reconhecidas Diretrizes da ASHRAE TC 9.9 consolidam recomendações para compatibilidade térmica e melhores práticas para equipamentos de potência em ambientes de data center (ASHRAE, 2016). 
  • Pressão de densidade com cargas de IA A evolução de IA aumenta densidade de potência por rack e intensifica a relevância do projeto térmico, elevando a importância de revisitar arquitetura de refrigeração, fluxo de ar e estratégia de operação.
  • Evidência setorial de restrição de potência A pesquisa global do Uptime Institute em 2025 aponta restrições crescentes de energia e custos como preocupações estruturais do setor, reforçando que eficiência não é “bônus”; é ferramenta de viabilidade (UPTIME INSTITUTE, 2025). 

7) Regulação, reputação e “licença para operar”: quando o tema vira política pública

O risco é achar que a discussão é apenas técnica. Quando energia e água viram pauta local, o debate muda de tom e acelera. É como operar infraestrutura crítica: transparência vira parte do ativo.

  • Risco regulatório por reação local A discussão sobre moratórias e restrições a data centers nos EUA, motivada por preocupações de consumo de energia e água, sinaliza que a expansão pode ativar respostas regulatórias com impacto econômico (THE GUARDIAN, 2026). 
  • Governança de evidências como mitigação Planos com rastreabilidade (Escopo 2), eficiência e flexibilidade tendem a reduzir vulnerabilidade a questionamentos porque sustentam narrativa com dados verificáveis.
  • Incentivos e equidade tarifária Quando grandes cargas entram sem mecanismos de compartilhamento de risco, cresce o debate sobre custo repassado. Isso aumenta a exigência por desenho de contratos, garantias e transparência.
  • Integração institucional no Brasil O movimento de ANEEL e EPE em 2025 indica que a coordenação setorial tende a avançar, com exigência de planejamento e dados mais estruturados (ANEEL, 2025; EPE, 2025). 

O que muda até 2030

Até 2030, o debate tende a migrar de “qual fonte escolher” para “qual arquitetura entrega confiabilidade auditável com custo controlado”. O tabuleiro é móvel: quem planeja por faixa e executa por etapas preserva opcionalidade.

  • Cenário base (execução com atrito controlado) A demanda global segue a trajetória de alta projetada (GARTNER, 2025), enquanto restrições de potência e modernização seguem pressionando decisões de CAPEX e conexão (UPTIME INSTITUTE, 2025). 
  • Cenário otimista (flexibilidade e eficiência viram padrão) Planejamento por cenários se consolida e investimentos flexíveis (armazenamento e resposta da demanda) reduzem custo do erro; eficiência e gestão térmica ganham disciplina de medição (E3, 2025; ASHRAE, 2016; THE GREEN GRID, 2014). 
  • Cenário estressado (polarização e travamentos) A expansão acelera sem coordenação e ativa respostas regulatórias, pressões por tarifa e controvérsia pública; ao mesmo tempo, a expansão de térmicas pode travar emissões e elevar riscos de longo prazo (THE GUARDIAN, 2026). 

Recomendações práticas

Próximos 90 dias

  • Diagnóstico de requisitos e governança de evidência Consolidar exigências de clientes (energia renovável, rastreabilidade, metas por período) e transformar em requisitos verificáveis, alinhados ao Escopo 2 (GHG PROTOCOL, 2015). 
  • Plano de conexão e cronograma realista Construir cronograma integrado com marcos de acesso e reforços, usando referências públicas de procedimento e contexto setorial (ANEEL, 2025; EPE, 2025). 
  • Plano de eficiência e térmica com métricas Definir metas e método de medição de PUE e aderência a diretrizes térmicas (THE GREEN GRID, 2014; ASHRAE, 2016). 

Próximos 180 dias

  • Estratégia de contratação por portfólio Estruturar contratos de renováveis e mecanismos de flexibilidade, com governança de atributos e risco de conexão, evitando depender de uma única solução.
  • Flexibilidade como mitigação de risco de expansão Dimensionar armazenamento em baterias e resposta da demanda, priorizando casos de uso que reduzam pico e protejam confiabilidade, alinhados ao planejamento por cenários (E3, 2025). 
  • Avaliação estruturada de gás com papel explícito Se o gás entrar, enquadrar como ponte, comparar com alternativas, e avaliar cogeração/trigeração com engenharia e cargas térmicas reais (U.S. DEPARTMENT OF ENERGY, 2009). 

Próximos 12 meses

  • Implementação por etapas e auditoria contínua Executar em camadas: eficiência → contratação → flexibilidade → resiliência, com relatórios e trilha de evidências para reduzir risco reputacional.
  • Gestão institucional e licença para operar Publicar indicadores de energia e governança de claims, e manter diálogo com órgãos e stakeholders, antecipando pontos de fricção já observados em outros mercados (THE GUARDIAN, 2026). 
  • Revisão anual de cenários e investimentos reversíveis Atualizar premissas e gatilhos, reforçando transparência e adaptabilidade para não encalhar capital nem expor confiabilidade (E3, 2025). 

Conclusão

O dilema entre gás natural e renováveis, na expansão de data centers de IA, é menos uma disputa ideológica e mais uma decisão de arquitetura: risco, cronograma e evidência. A demanda cresce em ritmo suficiente para pressionar rede e planejamento, com projeções recentes indicando duplicação do consumo global de data centers até 2030 e uma participação crescente de servidores otimizados para IA (GARTNER, 2025).  No Brasil, a agenda já é institucional e técnica, com ANEEL e EPE pautando impactos e caminhos para suportar novas cargas digitais (ANEEL, 2025; EPE, 2025).  O caminho mais robusto para a alta gestão é tratar energia como competência central: rastreabilidade (Escopo 2), eficiência (PUE e diretrizes térmicas), contratação por portfólio e flexibilidade (armazenamento e resposta da demanda). Se o gás for necessário, ele entra melhor como ponte governada — com limites, metas e prova — e não como destino. Quem desenhar essa pilha com disciplina reduz controvérsia, preserva competitividade comercial e sustenta crescimento com credibilidade até 2030.


Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). ANEEL promove workshop para debater impactos dos data centers no setor elétrico brasileiro. 2025. Disponível em: portal Gov.br. Acesso em: 31 jan. 2026. 

ASHRAE. Data Center Power Equipment Thermal Guidelines and Best Practices (TC 9.9). 2016. Disponível em: ASHRAE. Acesso em: 31 jan. 2026. 

E3 (Energy and Environmental Economics). Forecasting Large Loads in the Age of AI and Data Centers. 2025. Disponível em: E3. Acesso em: 31 jan. 2026. 

EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Datacenter – III COPAM (Workshop). 2025. Disponível em: EPE. Acesso em: 31 jan. 2026. 

EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Coleta Data Center na Distribuição 2025 – IV COPAM. 2025. Disponível em: EPE. Acesso em: 31 jan. 2026. 

GARTNER. Gartner says electricity demand for data centers to grow 16% in 2025 and double by 2030. 17 nov. 2025. Disponível em: Gartner Newsroom. Acesso em: 31 jan. 2026. 

GESEL/UFRJ. O planejamento da demanda elétrica de novos data centers no Brasil. 2025. Disponível em: GESEL/UFRJ. Acesso em: 31 jan. 2026. 

GHG PROTOCOL. Scope 2 Guidance. 2015. Disponível em: GHG Protocol. Acesso em: 31 jan. 2026. 

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). World Energy Outlook 2025. 2025. Disponível em: IEA. Acesso em: 31 jan. 2026. 

O ESTADO DE S. PAULO. PIRES, Adriano. Para onde vai o preço do gás natural. Economia & Negócios, B5. 31 jan. 2026.

THE GREEN GRID; ASHRAE TC 9.9. PUE: A Comprehensive Examination of the Metric. 2014. Disponível em: Lawrence Berkeley National Laboratory (cópia técnica). Acesso em: 31 jan. 2026. 

THE GUARDIAN. US leads record global surge in gas-fired power driven by AI demands, with big costs for the climate. 29 jan. 2026. Acesso em: 31 jan. 2026. 

THE GUARDIAN. Georgia leads push to ban datacenters used to power America’s AI boom. 26 jan. 2026. Acesso em: 31 jan. 2026. 

UPTIME INSTITUTE. Uptime Institute Global Data Center Survey Results 2025. 2025. Disponível em: Uptime Institute. Acesso em: 31 jan. 2026. 

U.S. DEPARTMENT OF ENERGY. Opportunities for Combined Heat and Power in Data Centers. 2009. Disponível em: U.S. DOE. Acesso em: 31 jan. 2026.