Regulação Energética para ZPEs: Novas Diretrizes e Implicações Setoriais (MP nº 1.307/2025)

A Medida Provisória nº 1.307, publicada em 18 de julho de 2025, estabelece um novo regime regulatório para o fornecimento e uso de energia elétrica nas Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs). Com vigência imediata e validade inicial de 60 dias, a MP será submetida à apreciação do Congresso Nacional e poderá ser convertida em lei, alterada ou rejeitada.

A iniciativa busca reforçar a competitividade das ZPEs no mercado internacional ao permitir condições especiais de contratação de energia e limitar o impacto fiscal dos subsídios hoje arcados pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Trata-se de um movimento articulado entre política energética, estratégia industrial e ajuste fiscal, com impactos potenciais tanto para os consumidores quanto para o setor elétrico nacional.

Análise da MP 1.307/2025

Objetivos centrais:

  • Reforçar a competitividade das ZPEs por meio de redução dos custos energéticos.
  • Estimular a geração própria de energia no ambiente industrial exportador.
  • Estabelecer um teto anual para os subsídios pagos pela CDE, promovendo previsibilidade orçamentária.

Principais diretrizes da medida:

  • Empresas localizadas em ZPEs poderão firmar contratos com condições tarifárias especiais, inclusive com isenção parcial de encargos.
  • Fomento à geração distribuída e autoprodução por fontes renováveis nas ZPEs.
  • Limitação do uso de recursos da CDE a partir de 2026, com regras claras para evitar expansão descontrolada de subsídios.
  • As condições específicas serão definidas por regulamentação da ANEEL e do Ministério de Minas e Energia.

Implicações regulatórias e setoriais:

  • Reorganiza a lógica de subsídios energéticos, buscando maior eficiência no uso de recursos públicos.
  • Introduz uma diferenciação tarifária com potencial impacto sobre a competitividade de empresas fora das ZPEs.
  • Reforça a tendência de descentralização e desverticalização da cadeia energética.
  • Exige regulação técnica clara e mecanismos robustos de monitoramento e controle.

Riscos e limitações identificados:

  • A MP depende de aprovação no Congresso em até 120 dias para não perder eficácia.
  • Pode haver questionamentos sobre distorções competitivas entre consumidores dentro e fora das ZPEs.
  • Exige regulamentação técnica detalhada para evitar abusos ou uso oportunista dos incentivos.
  • Ainda não define parâmetros de elegibilidade para acesso às condições diferenciadas, o que pode gerar insegurança jurídica no curto prazo.

Oportunidades Estratégicas: Microgrids Sustentáveis e Inteligentes nas ZPEs

Embora a MP tenha caráter regulatório e fiscal, ela abre uma janela importante para inovação tecnológica e novos modelos operacionais dentro das ZPEs. Ao estimular a geração própria e reduzir encargos, cria-se um ambiente propício para a implantação de microgrids sustentáveis, com autonomia, eficiência e inteligência embarcada.

1. Solução técnica alinhada à política pública:

  • As ZPEs passam a contar com incentivo explícito para gerar sua própria energia.
  • Microgrids integrando solar, eólica, BESS e hidrogênio verde (H2V) tornam-se soluções viáveis para operação industrial resiliente e de baixo custo.
  • A operação local da geração elimina parte dos encargos e das perdas, reforçando o atrativo econômico.

2. Digitalização e inteligência como diferencial operacional:

  • Sistemas SCADA avançados permitem controle em tempo real e integração entre múltiplas fontes.
  • O uso de inteligência artificial viabiliza previsão de demanda, otimização de despacho e tomada de decisão automatizada.
  • As ZPEs podem funcionar como ambientes-piloto para a transição energética digital, com alto potencial de replicação no setor industrial como um todo.

3. Modelos de negócio e inovação regulatória:

  • Empresas podem desenvolver modelos as-a-service para fornecer energia, manutenção e inteligência embarcada a operadores das ZPEs.
  • Consórcios entre integradores de energia, empresas de automação e fundos de investimento podem estruturar projetos com alto retorno e risco regulado.
  • A regulamentação da MP poderá incorporar salvaguardas e estímulos à adoção desses sistemas, especialmente em zonas ainda em desenvolvimento.

4. Sinergia com compromissos ESG e competitividade internacional:

  • A implantação de microgrids sustentáveis nas ZPEs reforça a agenda ESG das empresas exportadoras.
  • Produtos fabricados com energia limpa e rastreável podem acessar mercados internacionais com exigências ambientais mais rigorosas.
  • O Brasil ganha um instrumento para alinhar política industrial e transição energética, sem depender exclusivamente de grandes projetos centralizados.

Considerações Finais

A Medida Provisória nº 1.307/2025 representa um movimento relevante no redesenho da política energética industrial brasileira. Embora seu foco imediato esteja em organizar o uso dos subsídios e criar um ambiente mais atrativo para exportadores, suas consequências vão além da regulação.

Para os setores de energia, tecnologia e infraestrutura, a MP sinaliza oportunidades concretas de implantar soluções inovadoras baseadas em microgrids, digitalização e inteligência artificial. Com articulação adequada entre iniciativa privada, entes reguladores e operadoras das ZPEs, o Brasil poderá transformar zonas especiais de exportação em verdadeiros laboratórios da nova matriz energética global.