Sumário Executivo
A transição energética global atingiu um ponto de inflexão crítico em meados da década de 2020. O paradigma anterior, focado quase exclusivamente na redução do Custo Nivelado de Energia (LCOE) através da maximização do fator de capacidade dos recursos naturais, colidiu frontalmente com os limites físicos e econômicos da infraestrutura de transmissão. Este relatório técnico, elaborado para subsidiar decisões de investimento de alta complexidade, utiliza os eventos observados no Reino Unido em 2025 como um estudo de caso precursor para o cenário brasileiro. A análise parte de dois fatos fundamentais reportados pelo The Times e pelo The Wall Street Journal: o custo recorde de £1,5 bilhão em compensações por curtailment no Reino Unido e a saturação das filas de conexão que transformou a geografia de projetos em um exercício de engenharia de rede.
No Brasil, a situação espelha-se com gravidade amplificada. O país encerrou o ano de 2025 com taxas de corte de geração (curtailment) atingindo 20,6% da produção renovável e prejuízos diretos superiores a R$ 6 bilhões. A resposta regulatória brasileira, consubstanciada no Decreto nº 12.772 e na judicialização da Resolução Normativa 1.030, altera irrevogavelmente a matriz de risco para novos empreendimentos. O acesso à rede deixou de ser um direito administrativo sequencial para tornar-se um ativo escasso, alocado via mecanismos competitivos de preço.
Para os grandes consumidores, notadamente o setor de data centers impulsionado pela expansão da Inteligência Artificial (IA), o relatório identifica um risco existencial: a desconexão física entre a geração contratada (PPA Verde) e o consumo real da rede em momentos de restrição. A promessa de “energia 100% renovável” torna-se tecnicamente inverificável em zonas de alto curtailment sem o suporte de armazenamento (BESS) ou transmissão robusta, criando passivos reputacionais e inviabilizando metas de descarbonização de Escopo 2 auditáveis.
1. O Espelho Britânico: A Anatomia Econômica e Técnica de uma Crise de £1,5 Bilhão
1.1. A Dinâmica do Desperdício e os Custos de Restrição
O ano de 2025 marcou um momento histórico e oneroso para o sistema elétrico do Reino Unido. Segundo dados compilados e reportados pela imprensa britânica, o custo de gerenciar as restrições da rede — tecnicamente denominado curtailment — atingiu entre £1,5 bilhão e £1,8 bilhão. Este valor não representa investimento em infraestrutura, mas sim uma despesa operacional pura destinada a manter o equilíbrio físico do sistema, paga diretamente pelos consumidores nas tarifas de energia.
A mecânica deste custo é perversa em sua duplicidade. O Operador do Sistema Energético Nacional (NESO) britânico vê-se obrigado a realizar duas operações financeiras simultâneas e opostas para resolver um único problema físico:
- Pagamentos de Compensação (Constraint Payments): O operador paga aos parques eólicos, majoritariamente localizados na Escócia, para que interrompam a geração. Em muitos casos, isso ocorre através de lances negativos no mercado de balanceamento, onde o gerador é remunerado para não produzir, compensando a perda dos subsídios (como os Contracts for Difference – CfD) e a venda de energia frustrada.
- Redispacho de Substituição: Simultaneamente, o operador precisa pagar a usinas localizadas ao sul do gargalo de transmissão (geralmente térmicas a gás natural) para aumentarem a geração e atenderem à demanda de Londres e do Sudeste da Inglaterra. Como o gás possui um custo marginal de operação mais elevado e está sujeito a taxas de carbono, o custo dessa energia de substituição é significativamente maior do que a energia eólica descartada.
Este fenômeno revela uma falha estrutural no planejamento: a velocidade de implantação da geração renovável superou em muito a capacidade de expansão da rede de transmissão. Em 2025, os consumidores britânicos efetivamente pagaram £810 milhões apenas para que fazendas eólicas escocesas permanecessem ociosas, um paradoxo onde o sucesso na instalação de capacidade verde resulta em custos mais altos e emissões evitáveis não realizadas.
1.2. A Física do Gargalo: A Fronteira B6
Para compreender a relevância deste cenário para o Brasil, é necessário dissecar a geografia elétrica do Reino Unido. O ponto crítico é a fronteira de transmissão conhecida como “B6 Boundary”, que separa a Escócia da Inglaterra. A Escócia possui recursos eólicos excepcionais e grandes áreas disponíveis para desenvolvimento onshore, mas uma demanda local baixa. A Inglaterra concentra a carga, mas tem limitações de espaço e recurso eólico onshore.
Os dados indicam que, no primeiro semestre de 2025, os produtores escoceses sujeitos a restrições de rede tiveram que cortar impressionantes 37% de sua produção total. Isso equivale a 1,5 terawatt-hora (TWh) de energia limpa perdida, suficiente para abastecer 1,2 milhão de residências por um ano. A incapacidade da rede de transportar esses elétrons para o sul transformou a vantagem comparativa da Escócia (vento abundante) em um passivo operacional para o sistema como um todo.
A saturação é tamanha que a fila de conexão para novos projetos no Reino Unido estendeu-se para horizontes de 10 a 15 anos. Este cenário criou um mercado secundário de “projetos zumbis” — empreendimentos que possuem direitos de conexão antigos mas nenhuma viabilidade de construção imediata — que bloqueiam a entrada de projetos mais eficientes e prontos para operar.
1.3. Consequências Regulatórias: O Debate sobre Preços Zonais
A crise de 2025 acelerou o debate sobre a reforma do mercado elétrico britânico. O governo e o regulador (Ofgem) consideram abandonar o preço nacional único de energia em favor de um sistema de preços zonais (zonal pricing).
Sob este modelo, o preço da energia na Escócia cairia drasticamente (refletindo o excesso de oferta local), enquanto o preço em Londres subiria (refletindo a escassez e o custo de transporte). O objetivo é enviar um sinal locacional econômico para os investidores: parem de construir onde não há rede. Para o investidor que baseou seu modelo financeiro em um preço nacional único, a transição para preços zonais representa uma mudança abrupta nas premissas de receita, podendo inviabilizar projetos já construídos ou em desenvolvimento avançado.
2. A Realidade Brasileira: Saturação, Cortes e Perdas Bilionárias
A situação descrita no Reino Unido não é um futuro distópico para o Brasil; é a descrição precisa da realidade operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN) nos anos de 2024 e 2025. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e concentração de recursos renováveis longe dos centros de carga, replicou e amplificou a dinâmica britânica.
2.1. O “Meteoro” do Curtailment Brasileiro
O Brasil vivencia um descompasso estrutural agudo. A expansão das energias eólica e solar, impulsionada por incentivos governamentais e pela competitividade tecnológica, ocorreu em uma velocidade que a infraestrutura de transmissão não conseguiu acompanhar. Dados de consultorias especializadas revelam que o Brasil desperdiçou 20,6% de toda a energia renovável solar e eólica gerada em 2025 devido a restrições de escoamento.
A magnitude financeira deste desperdício é alarmante. As perdas econômicas diretas ultrapassaram a marca de R$ 6 bilhões no período. Diferente do Reino Unido, onde o custo é socializado via tarifas de forma mais transparente (embora dolorosa), no Brasil a alocação deste prejuízo tornou-se o centro de uma guerra regulatória e judicial.
Tabela 1: Comparativo de Impacto de Curtailment (Reino Unido vs. Brasil – 2025)
| Indicador | Reino Unido | Brasil |
| Custo Estimado (Anual) | £1,5 bilhão (~R$ 11 bilhões) | > R$ 6 bilhões |
| Volume de Corte | ~37% (Escócia – 1º semestre) | 20,6% (Média Solar/Eólica Nacional) |
| Ponto de Estrangulamento | Fronteira B6 (Escócia-Inglaterra) | Exportação Nordeste -> Sudeste/Norte |
| Natureza do Corte | Bid negativo e compensação contratual | Constrained-off por ordem do ONS |
| Mecanismo Financeiro | Socializado na tarifa (Balancing Costs) | Judicializado (Disputa REN 1.030) |
2.2. A Dinâmica dos Cortes no Nordeste
O Nordeste brasileiro consolidou-se como a “Escócia tropical” — uma região de recurso eólico e solar abundante e barato, mas com carga local insuficiente para absorver a geração total nos horários de pico. O problema foi agravado exponencialmente pela entrada massiva de Micro e Minigeração Distribuída (MMGD).
A MMGD solar, instalada nos telhados e pequenos terrenos, é majoritariamente “invisível” ao despacho centralizado do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e, tecnicamente, difícil de ser cortada remotamente. Nos momentos de alta irradiação solar, a MMGD abate a carga local das distribuidoras, reduzindo a “demanda líquida” do subsistema Nordeste. Isso deixa menos espaço físico nas linhas de transmissão para que as grandes usinas centralizadas (eólicas e solares) escoem sua energia para o Sudeste.
Relatórios técnicos apontam que, em setembro de 2024, os cortes médios chegaram a atingir 36,4% para a energia solar e 24,1% para a eólica em determinados momentos críticos. Para um projeto de geração estruturado sob a lógica de Project Finance, que depende de fluxos de caixa previsíveis e estáveis para o serviço da dívida, cortes dessa magnitude, se não ressarcidos, representam o rompimento dos covenants financeiros e um risco real de default e insolvência.
3. A Batalha Regulatória: Quem Paga a Conta da Falta de Fio?
A crise física de transmissão transmutou-se rapidamente em uma crise jurídica e regulatória no Brasil, centrada na interpretação e aplicação da Resolução Normativa ANEEL nº 1.030/2022. Esta disputa define a viabilidade econômica do estoque de investimentos atuais e futuros.
3.1. O Conflito da REN 1.030 e o Constrained-Off
A Resolução Normativa 1.030/2022 (que consolidou regras anteriores) estabelece, em tese, que os cortes de geração determinados pelo ONS por “restrição de operação” (constrained-off) devem ser ressarcidos aos geradores. A lógica regulatória é que a limitação da rede externa à usina é uma responsabilidade do planejamento setorial (Governo/EPE) e não um risco do investidor privado.
No entanto, diante do volume massivo de cortes, surgiu um conflito interpretativo sobre a classificação dos eventos:
- A Visão do ONS/ANEEL: Muitos cortes têm sido classificados como “Razão Energética” (excesso de oferta global no sistema) ou “Confiabilidade Local”, categorias que, pelas regras atuais ou interpretações restritivas, podem isentar ou limitar o pagamento de compensação. A ANEEL argumenta que o ressarcimento integral transferiria um custo insustentável para o consumidor (estimado em R$ 1 bilhão ao mês), criando um “risco à ordem e à economia públicas”.
- A Visão dos Geradores (Associações): Entidades como a ABSOLAR e a ABEEólica argumentam que a infraestrutura inadequada é falha do Estado e que a mudança na classificação dos cortes ou a recusa de pagamento viola a segurança jurídica e os contratos estabelecidos. As associações obtiveram liminares no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) garantindo o ressarcimento integral, sem a dedução de franquias.
3.2. A Judicialização e o “Haircut” Financeiro
A ANEEL recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para suspender as liminares, criando um ambiente de incerteza absoluta. Diretores da agência já sinalizaram publicamente a necessidade de revisar a norma para impor um “teto” de ressarcimento, argumentando que o risco de curtailment deve ser parcialmente compartilhado pelo gerador em um ambiente de transmissão saturada.
Para novos investimentos, a implicação é direta: modelos financeiros não podem mais assumir o ressarcimento de 100% das perdas por restrição de rede. A “engenharia financeira” do projeto deve agora incorporar cenários de estresse onde o corte de geração se traduz em perda efetiva de receita, exigindo taxas de retorno (TIR) mais altas para compensar o risco regulatório elevado.
4. A Revolução do Acesso: O Decreto 12.772 e a Monetização da Margem
Em resposta à incapacidade de expandir a rede na mesma velocidade da demanda por conexão, o governo brasileiro instituiu uma mudança paradigmática nas regras do jogo através do Decreto nº 12.772, de 5 de dezembro de 2025. Este marco legal institui a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), enterrando a lógica histórica de “ordem de chegada”.
4.1. O Fim da Fila Administrativa
Historicamente, o acesso à rede no Brasil seguia uma lógica administrativa sequencial: o agente que protocolasse primeiro o pedido de Parecer de Acesso tinha prioridade. Isso gerou uma corrida especulativa, onde agentes solicitavam acesso para “projetos de papel” apenas para garantir a margem e vender o projeto posteriormente (flip), bloqueando a capacidade para investidores com projetos reais e capital garantido.
O Decreto 12.772 elimina esse modelo. A partir de sua implementação, o acesso à rede deixa de ser contínuo e passa a ocorrer em janelas temporais organizadas, denominadas Temporadas de Acesso.
4.2. O Mecanismo de Leilão de Margem
A inovação central do decreto é a introdução da competição pelo uso do fio. O funcionamento previsto é o seguinte:
- Janelas de Solicitação: O ONS abrirá períodos específicos (pelo menos duas vezes ao ano) para receber solicitações de acesso.
- Análise de Escassez: O operador analisará o conjunto de pedidos para cada ponto nodal da rede. Se a soma das solicitações em uma determinada subestação ou seccionamento for menor que a capacidade técnica disponível, todos podem ser atendidos.
- Gatilho Competitivo: Se a demanda por conexão for maior que a capacidade técnica disponível — o que é a realidade atual em praticamente todo o Nordeste e norte de Minas Gerais — torna-se obrigatória a realização de um processo competitivo (leilão de acesso).
- Critério de Alocação: A margem será alocada aos agentes que oferecerem o maior benefício reverso para a modicidade tarifária. Na prática, isso significa pagar um prêmio ou abrir mão de descontos para garantir o direito de conectar-se à rede. As receitas obtidas nesses leilões serão usadas para abater os encargos dos consumidores.
4.3. Implicações para o Capex e Opex
Esta mudança transforma o acesso à rede de um “direito administrativo” em um “ativo de mercado”. O custo de conexão deixa de ser apenas o investimento nas instalações físicas (bay de conexão, linha de transmissão restrita) e passa a incluir o prêmio de leilão.
Isso altera fundamentalmente a curva de custo marginal dos projetos. Um projeto eólico no interior do Rio Grande do Norte, com ventos excepcionais mas em uma zona de rede exaurida, terá que pagar um prêmio alto para vencer o leilão de margem. Esse custo adicional pode anular a vantagem do recurso eólico superior, tornando mais competitivo um projeto em Minas Gerais ou Goiás com recurso solar mediano, mas onde a margem de rede é menos disputada ou o prêmio de conexão é menor.
5. Site Selection: A Nova Engenharia de Rede e Decisão de Investimento
Diante do cenário de curtailment físico e da precificação da margem de conexão, o processo de seleção de locais para novos projetos (site selection) sofreu uma mutação completa. A análise puramente meteorológica (mapas de irradiação e ventos) tornou-se secundária em relação à análise nodal de capacidade de rede.
5.1. O Algoritmo de Decisão Nodal
Para o ciclo de investimentos 2025-2030, a viabilidade de um projeto renovável depende da intersecção de três variáveis críticas, onde a rede tem peso preponderante:
- Capacidade Remanescente Nodal: O investidor deve analisar as Notas Técnicas conjuntas ONS/EPE (como as publicadas para os leilões LEN A-5) que detalham a capacidade de escoamento ponto a ponto. Locais com margem zero ou negativa exigirão participação em leilões competitivos incertos ou a espera por expansões de transmissão de longo prazo (5 a 7 anos).
- Probabilidade de Curtailment: É necessário modelar não apenas a geração bruta, mas a geração líquida após cortes. A análise deve considerar a penetração de MMGD na região. Áreas com alta densidade de geração distribuída tendem a sofrer mais cortes por “razão energética” durante os horários de pico solar, pois a carga líquida despenca, forçando o ONS a cortar a geração centralizada para manter a estabilidade.
- Custo de Oportunidade da Conexão: Com a PNAST, o investidor deve estimar o “bid” necessário para vencer o leilão de margem. Esse custo deve ser inserido no CAPEX inicial.
5.2. O Retorno da Transmissão como Investimento
O gargalo de transmissão também sinaliza onde o capital inteligente deve fluir. O governo brasileiro realizou leilões de transmissão vultosos, como o de outubro de 2025 que contratou R$ 5,53 bilhões em investimentos. Para grandes conglomerados de energia, investir na construção das linhas (Transmissão) tornou-se um hedge natural ou até mais atrativo que investir na geração, dado o baixo risco de volume e a receita fixa garantida (RAP) dos contratos de transmissão, imunes ao risco de curtailment.
6. O Dilema da Demanda: Data Centers, IA e o Risco de Greenwashing
O relatório do The Times alerta especificamente para o risco reputacional que a falta de rede impõe a grandes cargas, citando data centers. No Brasil, a explosão da Inteligência Artificial (IA) criou uma corrida por infraestrutura digital que colide frontalmente com a realidade da rede elétrica.
6.1. A Necessidade dos Hiperscalers: Energia Firme e Limpa
A expansão de data centers de hiperscala (Hyperscalers) exige volumes massivos de energia. Projetos recentes exemplificam essa escala:
- Petrobras/Elea Data Centers: Contrato de R$ 2,3 bilhões para um data center de 30 MVA em São Bernardo do Campo (SP), focado em supercomputação e IA.
- TikTok/Omnia: Projeto no Ceará, prometendo operar com 100% de energia renovável eólica.
Esses projetos buscam o “Santo Graal” da infraestrutura: confiabilidade extrema (Tier III/IV, Uptime 99,98%+), baixo custo de energia e sustentabilidade auditável (Net Zero).
6.2. O Conflito Físico: Curtailment vs. 24/7 Carbon Free Energy
O problema reside na física do sistema interligado saturado. Se um data center se instala no Nordeste para aproveitar a energia eólica barata (via PPA), mas a rede de transmissão local está congestionada, ocorre um fenômeno de desconexão física e contratual:
- Cenário de Corte: O parque eólico contratado pelo data center sofre curtailment pelo ONS devido à falta de escoamento.
- Consumo Real: O data center, que não pode parar, continua consumindo energia da rede local. Fisicamente, essa energia está vindo do “pool” do sistema, que naquele momento pode estar sendo suprido por térmicas locais despachadas para garantia de tensão ou por fluxos de outras regiões.
- O Risco Reputacional: Contratualmente, o data center comprou energia verde. Fisicamente, ele consumiu energia suja ou de mix incerto durante o corte. Metodologias rigorosas de contabilidade de carbono, como o padrão 24/7 Carbon Free Energy (adotado por Google, Microsoft), penalizam essa discrepância. O “selo verde” fica comprometido, expondo a marca a acusações de greenwashing.
Além do risco de imagem, existe o risco operacional. Redes fracas com alta penetração de renováveis (baseadas em inversores) e pouca inércia girante (geradores síncronos) são mais suscetíveis a instabilidades de tensão e frequência, o que é anátema para equipamentos sensíveis de TI.
6.3. A Migração para o Sudeste e a “Colocalização Real”
Diante desses riscos, observa-se um movimento estratégico de “fuga para a qualidade”. Apesar da energia mais barata no Nordeste, grandes projetos de missão crítica, como o da Petrobras/Elea, optam pelo Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro).
A Elea Data Centers destaca explicitamente a localização de seus sites em SP e RJ pela conectividade e, crucialmente, pela infraestrutura de energia robusta, mitigando riscos de transmissão. A escolha por São Bernardo do Campo foi pautada pelo acesso à transmissão de alta capacidade, capaz de suportar cargas de 30 MVA com refrigeração líquida.
Para viabilizar projetos no Nordeste, a solução passa a ser a colocalização real (behind-the-meter). O data center precisa estar fisicamente conectado à usina geradora, sem passar pela rede básica congestionada, ou possuir sistemas de armazenamento robustos que garantam a qualidade da energia e a “veracidade” do elétron verde consumido durante gargalos de rede.
7. A Solução Tecnológica: O Armazenamento (BESS) como Chave Mestra
A crise de curtailment e a saturação da rede criaram, paradoxalmente, as condições econômicas ideais para a decolagem do mercado de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) no Brasil.
7.1. Baterias como Ferramenta de Arbitragem e Mitigação
No Reino Unido, o uso de baterias e armazenamento bombeado é a principal estratégia para absorver o excesso de geração eólica. No Brasil, a lógica é idêntica e urgente. Baterias funcionam como “esponjas” elétricas: carregam durante os momentos de excesso de geração (quando o preço é zero ou negativo e o risco de corte é alto) e descarregam na ponta de consumo.
A viabilidade econômica dos BESS no Brasil está sendo impulsionada por três vetores:
- Mitigação de Curtailment: Para um gerador, instalar uma bateria para armazenar a energia que seria cortada (e valeria zero) transforma uma perda total em receita diferida.
- Arbitragem de PLD: A volatilidade intradiária do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), com preços baixos durante o dia (solar) e altos à noite, cria o spread necessário para remunerar o investimento.
- Serviços Ancilares: Baterias podem prestar serviços de controle de frequência e tensão, essenciais para estabilizar as redes saturadas do Nordeste.
7.2. O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026
O governo brasileiro prepara o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) dedicado a baterias para 2026. A expectativa é contratar cerca de 2 GW de potência. Este leilão introduzirá uma receita fixa (pagamento por disponibilidade de potência), que se somará às receitas de arbitragem, tornando os projetos bancáveis.
O mercado já reage a essa perspectiva. Consultorias projetam que o mercado de armazenamento no Brasil movimentará bilhões de reais em 2025. Empresas já implementam modelos de “BESS as a Service”, focados em peak shaving e backup para consumidores industriais, antecipando-se à regulação macro.
Para o investidor em renováveis, a hibridização (Usina Eólica/Solar + Baterias) deixa de ser um luxo tecnológico e passa a ser a estratégia de hedge definitiva contra o risco de curtailment e a volatilidade de preços.
8. Soluções e Parcerias Estratégicas: O Papel da Tech & Energy e da nMentors Engenharia
Diante de um cenário onde o risco migrou da geração para a transmissão e a operação, a simples compra de equipamentos não garante mais a viabilidade do projeto. É necessária uma abordagem integrada que combine inteligência de mercado, análise regulatória profunda e engenharia de alta complexidade. Neste ecossistema, atores especializados como o think-tank Tech & Energy e a empresa de engenharia nMentors desempenham papéis complementares e críticos.
8.1. Tech & Energy: Inteligência Estratégica e Site Selection
O Tech & Energy Think Tank atua na camada de inteligência estratégica, fornecendo a base analítica necessária para a tomada de decisão em ambientes de incerteza regulatória e física.
- Site Selection Multidimensional: A Tech & Energy redefine o conceito de seleção de local. Em vez de olhar apenas para o recurso solar/eólico, o think-tank analisa a “resiliência territorial”. Isso envolve mapear a capacidade nodal de rede, o risco futuro de curtailment naquela subestação específica e a estabilidade regulatória regional.
- Playbooks de Suprimento para Data Centers: Para cargas críticas como data centers e IA, a Tech & Energy desenvolve “playbooks” táticos que equilibram CAPEX e OPEX. A análise determina o mix ideal entre conexão à rede (grid), autoprodução (behind-the-meter) e sistemas de backup prolongado, criando uma estratégia de suprimento à prova de falhas sistêmicas.
- Análise de Tendências Globais: Monitorando mercados precursores como o Reino Unido, o think-tank antecipa cenários (como a introdução de preços zonais ou leilões de margem) e prepara seus parceiros para reagir proativamente, transformando riscos regulatórios em vantagens competitivas.
8.2. nMentors Engenharia: Execução, Digital Twins e Resiliência Operacional
Enquanto o think-tank desenha a estratégia, a nMentors Engenharia operacionaliza a resiliência através de tecnologia avançada e uma nova filosofia de prestação de serviços.
- Engenharia como Redução de Incerteza: A nMentors abandonou o modelo tradicional de venda de “horas de engenharia” para focar na venda de “redução de incerteza”. Em um mercado onde uma falha pode significar meses de downtime ou perdas bilionárias em curtailment, a engenharia torna-se um seguro de continuidade.
- Digital Twins e Simulação de Estresse: Utilizando Inteligência Artificial e IoT (AIoT), a nMentors cria Gêmeos Digitais (Digital Twins) das plantas energéticas. Isso permite simular milhares de cenários de estresse da rede em poucas horas — algo humanamente impossível — antecipando como a usina ou o data center reagirá a cortes abruptos ou oscilações de tensão, garantindo que os sistemas de proteção atuem corretamente.
- Automação, SCADA e Cibersegurança (OT): A empresa implementa sistemas de automação robustos e SCADA que integram a geração renovável com sistemas de armazenamento (BESS). Além disso, com a digitalização do setor elétrico, a nMentors blinda os ativos contra ameaças cibernéticas (segurança OT), seguindo normas internacionais rigorosas (IEC 62443), garantindo que a infraestrutura crítica não seja vulnerável a ataques digitais que poderiam causar apagões físicos.
- Projetos de Eficiência e BESS: A nMentors desenha e comissiona projetos de eficiência energética e armazenamento que permitem a arbitragem de preços e o peak shaving, materializando as estratégias de mitigação econômica definidas na fase de planejamento.
A colaboração entre a visão macroestratégica da Tech & Energy e a capacidade de execução tecnológica da nMentors oferece aos investidores uma solução ponta a ponta: do site selection inteligente à operação resiliente e blindada.
9. Conclusão e Recomendações Estratégicas
A análise cruzada dos eventos no Reino Unido e da realidade operativa no Brasil em 2025 aponta para uma conclusão inelutável: a era da expansão de renováveis baseada puramente na qualidade do recurso natural encerrou-se. O fator determinante de sucesso para a próxima década é a capacidade de acesso e integração à rede.
O alerta britânico de £1,5 bilhão em custos de restrição materializou-se no Brasil como um prejuízo de R$ 6 bilhões e uma reforma regulatória profunda (Decreto 12.772). O risco transferiu-se da execução da obra para a obtenção e manutenção do acesso à transmissão.
Recomendações para Investidores e Desenvolvedores:
- Due Diligence de Rede Nodal: Abandonar a análise macro regional. A viabilidade de um projeto deve ser avaliada no nível da subestação. Utilize as Notas Técnicas do ONS/EPE para identificar a capacidade remanescente real. Evite áreas com margem zero, a menos que haja disposição para pagar prêmios elevados em leilões de acesso.
- Modelagem de Risco Regulatório: Estressar os modelos financeiros assumindo cenários de ressarcimento parcial ou nulo para cortes de geração por “razão energética”. A judicialização da REN 1.030 é um risco binário que não deve ser ignorado.
- Estratégia de Hibridização Nativa: Novos projetos greenfield devem prever, desde a concepção, a integração com sistemas de armazenamento (BESS). A capacidade de deslocar a curva de injeção será o diferencial competitivo para evitar cortes e capturar preços melhores.
- Foco em Projetos “Behind-the-Meter”: Para atender à demanda de data centers e grandes indústrias, priorizar projetos que não dependam da rede básica para entregar a energia, eliminando encargos de transmissão e riscos de curtailment físico.
O Brasil possui um potencial renovável inigualável, mas a “mina de ouro” dos ventos e do sol agora tem um porteiro cobrando entrada: a infraestrutura de transmissão. Navegar por essa nova dinâmica exigirá sofisticação técnica, agilidade regulatória e capital paciente para investir nas soluções de flexibilidade que o sistema desesperadamente necessita.
Bibliografia
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