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  • A Bolha Verde: Por que o Brasil precisa proteger a energia limpa de seus próprios excessos

    A Bolha Verde: Por que o Brasil precisa proteger a energia limpa de seus próprios excessos

    Este artigo não questiona o avanço das energias renováveis. Ele defende sua consolidação com base em racionalidade técnica, estabilidade econômica e transparência regulatória — para que a transição energética brasileira continue sólida e sustentável.


    1. Introdução — O excesso de virtude também exige disciplina

    Toda grande transformação nasce de boas intenções — e de riscos mal percebidos.

    Nos anos 2000, vivemos a bolha das dotcoms: empresas sem lucro valendo bilhões.

    Em 2008, a euforia dos subprimes prometia casas para todos, até o colapso financeiro.

    Em ambos os casos, a lição é clara: o entusiasmo sem racionalidade destrói valor.

    Hoje, o Brasil vive um dilema semelhante no setor elétrico.

    A transição energética é inevitável, mas vem sendo conduzida com euforia e pouca disciplina econômica.

    O propósito deste artigo não é contestar a energia limpa, e sim defendê-la de seus próprios excessos, evitando que o otimismo vire instabilidade.


    2. O paradoxo da abundância

    O Brasil se orgulha — com razão — de ter uma matriz majoritariamente renovável.

    Mas quando há excesso de oferta e falta de planejamento, até a virtude se torna problema.

    Segundo o Instituto Acende Brasil, o país perdeu R$ 3,85 bilhões em agosto de 2025 com energia gerada e não aproveitada.

    Estadão, em editorial de 8 de outubro de 2025, resumiu bem:

    “O governo perdeu o controle do setor elétrico, permitindo a manutenção de subsídios e a expansão sem planejamento da capacidade instalada.”

    Geramos energia limpa, mas sem rede, sem armazenamento e sem mercado para escoar.

    É o paradoxo da abundância: muito megawatt, pouco valor.


    3. O risco moral e o desequilíbrio do incentivo público

    Em uma economia madura, o investidor assume o risco e o governo garante as regras.

    Mas o modelo brasileiro inverte essa lógica: o risco é público e o retorno é privado.

    Contratos de disponibilidade, isenções fiscais e compensações tarifárias criam o que os economistas chamam de risco moral — a sensação de que o Estado sempre vai socorrer o investidor.

    Esse tipo de distorção foi o gatilho das bolhas de 2000 e 2008.

    No setor elétrico, ela se manifesta em investimentos apressados, estímulos sem contrapartida e subsídios permanentes, que enfraquecem a eficiência do mercado.


    4. Data centers: promessa digital, retorno incerto

    MP 1318, que prevê R$ 7,5 bilhões em incentivos fiscais para atrair data centers movidos a energia “verde”, é o exemplo mais recente desse modelo disfuncional.

    O argumento é sedutor: associar tecnologia à sustentabilidade.

    Mas na prática, data centers são indústrias de custo, não de impacto social.

    Eles se instalam onde a energia é barata e estável — e saem quando os incentivos acabam.

    Um workload pode ser transferido de país em minutos.

    Sem condições estruturais — transmissão confiável, energia firme e regulação estável —, o Brasil subsidia operações temporárias com recursos permanentes.


    5. Intermitência: a realidade física que a retórica ignora

    A geração eólica e solar é vital, mas intermitente.

    Nem o sol brilha 24 horas, nem o vento sopra todos os dias.

    Por isso, o sistema precisa de fontes firmes e despacháveis, capazes de garantir energia quando as renováveis não entregam.

    No Brasil, essa função recai sobre as hidrelétricas e térmicas.

    As hidrelétricas são o pulmão do sistema, mas dependem de chuvas, que estão cada vez mais irregulares.

    Quando há estiagem — e elas são mais frequentes —, são as térmicas que sustentam o sistema.

    Demonizá-las é um erro técnico e político.

    Elas não são o oposto da energia limpa, e sim parte da solução de equilíbrio.

    Em tom de ironia, costuma-se dizer que quem rejeita as térmicas está “fazendo lobby para a indústria de velas”.


    6. O papel estratégico do gás natural e o futuro híbrido com o hidrogênio verde

    Se há uma fonte capaz de unir estabilidade, eficiência e transição, é o gás natural.

    Ele é abundante, flexível e compatível com o avanço das renováveis.

    O Brasil possui reservas significativas de gás, tanto em terra quanto no pré-sal, e tem acesso logístico privilegiado às rotas de importação da Bolívia, Argentina e Guiana.

    Com o gás natural liquefeito (GNL) se tornando mais acessível e os gasodutos regionais retomando viabilidade, o país pode ampliar sua base térmica sem comprometer metas ambientais.

    Mais do que uma solução de curto prazo, o gás é o elo de transição.

    As térmicas modernas já operam com misturas progressivas de hidrogênio verde, reduzindo emissões e preparando o sistema para um futuro neutro em carbono.

    Essa hibridização — Gás + H₂V — representa o caminho mais inteligente entre o pragmatismo e a sustentabilidade.

    Permite manter o sistema estável enquanto se investe em novas tecnologias de geração e armazenamento.

    Em resumo: o gás natural não é o inimigo da transição; é seu alicerce técnico e econômico.


    7. O custo invisível dos subsídios

    A expansão desordenada também tem um preço silencioso.

    Isenções e incentivos tarifários criam distorções que acabam transferindo o custo para o consumidor comum.

    A isenção para quem consome até 80 kWh/mês, por exemplo, tem forte apelo político, mas redistribui custos de forma desigual.

    O mesmo vale para benefícios de autoprodução e descontos em TUST/TUSD.

    Essas medidas desbalanceiam o sistema: uns pagam menos, outros pagam por todos.

    O resultado é uma energia aparentemente barata, mas sustentada por encargos crescentes e ineficiência sistêmica.


    8. A ilusão da “energia verde barata”

    Em “O custo real da energia para os data centers” (22/09/2025), o economista Luiz Maurer detalha o equívoco da energia 100% renovável sem backup firme.

    Quando há curtailment de 30%, o custo de um PPA solar de US$ 30/MWh sobe para US$ 43/MWh.

    E quando é preciso comprar energia térmica em períodos críticos, o preço pode chegar a US$ 500/MWh.

    A energia continua limpa, mas deixa de ser barata.

    Sem considerar o custo marginal da segurança elétrica, o discurso da energia verde se transforma em uma ficção econômica.


    9. Populismo energético e o risco institucional

    Ao transformar energia em plataforma de popularidade, o governo corre o risco de politizar a transição energética.

    Subsídios permanentes e incentivos sem métrica criam incerteza e afastam o investimento produtivo.

    O capital não teme o risco — teme a imprevisibilidade.

    E o setor elétrico, cada vez mais, se move num ambiente em que as regras mudam ao sabor do ciclo político.

    Essa erosão institucional é mais perigosa que o déficit energético: sem confiança, não há investimento de longo prazo.


    10. O ciclo de uma bolha energética

    O comportamento do setor repete o padrão clássico de uma bolha econômica:

    EtapaSinais visíveis
    EuforiaExpansão acelerada, retórica de autossuficiência, excesso de subsídios.
    DescolamentoGeração maior que transmissão e custos mascarados.
    CorreçãoRevisão regulatória, aumento de tarifas e retração de investimentos.

    Ainda há tempo de agir — mas a janela é curta.

    Toda bolha nasce de um excesso de virtude sem disciplina técnica e fiscal.


    11. Caminhos para uma transição racional

    A transição verde deve ser sustentável — tecnicamente, economicamente e institucionalmente.

    Isso exige três compromissos centrais:

    1. Planejamento sistêmico: geração, transmissão e demanda integradas.
    2. Eficiência e prazo: incentivos devem ter metas e data de validade.
    3. Fontes firmes e flexíveis: gás natural, térmicas híbridas e armazenamento estratégico.

    Esses pilares reduzem custos, aumentam confiabilidade e preservam o valor da energia limpa.

    O gás natural, integrado ao hidrogênio verde, é a ponte entre o presente e o futuro.


    Conclusão — Realismo é o novo nome da sustentabilidade

    Defender o realismo energético não é ser contra o verde; é garantir que ele dure.

    Sem planejamento, o Brasil pode transformar uma vantagem competitiva em vulnerabilidade.

    O gás natural e as térmicas híbridas não são retrocesso, mas parte da arquitetura de estabilidade da matriz.

    Elas sustentam o sistema, equilibram a intermitência e pavimentam o caminho para o hidrogênio verde e o armazenamento avançado.

    O futuro da energia limpa dependerá menos de slogans e mais de engenharia, economia e governança.

    A sustentabilidade não se decreta — constrói-se, com disciplina e racionalidade.

  • Modernização do Sistema Elétrico Brasileiro: entre a transição energética e a governança técnica

    Modernização do Sistema Elétrico Brasileiro: entre a transição energética e a governança técnica

    Introdução – O nó da geração solar na dinâmica energética brasileira

    Estadão publicou em 6 de outubro de 2025 uma reportagem sobre a crescente complexidade da operação do sistema elétrico brasileiro, causada pelo avanço acelerado da geração distribuída, especialmente da energia solar.

    O texto trouxe análises do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e de especialistas que alertam para fluxos reversos, sobrecarga nas redes e desequilíbrios entre oferta e demanda.

    Hoje, o Brasil ultrapassa 42 GW de potência instalada em geração solar distribuída, somando micro e minigeração conectadas à rede. Esse avanço coloca o país entre os líderes mundiais, mas também expõe desafios: quanto mais descentralizada se torna a matriz, mais difícil é coordenar fluxos, garantir estabilidade e manter previsibilidade regulatória.

    Entre as soluções em debate está a criação dos Operadores de Sistema de Distribuição (DSO – Distribution System Operators), que teriam a função de coordenar fluxos regionais e integrar novas fontes renováveis de forma técnica e neutra.

    Por trás desse debate técnico, há uma questão mais profunda: a necessidade de modernizar a governança do setor elétrico brasileiro, tornando-a mais técnica, digital e orientada por dados.


    1. O paradoxo da transição energética

    A transição energética brasileira é motivo de orgulho.

    Com mais de 80% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, o país está à frente de nações desenvolvidas na descarbonização da energia.

    Mas o sucesso tem um custo.

    A expansão da geração distribuída — especialmente solar — aconteceu mais rápido do que a capacidade do sistema de absorver essa energia de forma eficiente e previsível.

    O modelo de compensação atual, que incentiva o investimento individual em painéis solares, não precifica adequadamente os custos sistêmicos de reforço das redes, reserva de capacidade e serviços de estabilidade.

    Na prática, isso cria uma distorção: os benefícios da energia solar são amplos, mas parte do custo de integração é socializado entre todos os consumidores.

    Esse é o paradoxo da transição: quanto mais limpa e descentralizada a matriz, maior a complexidade técnica e econômica para manter o sistema em equilíbrio.

    O desafio é garantir que o avanço da inovação não comprometa a confiabilidade da rede — o verdadeiro ativo do setor elétrico brasileiro.


    2. O papel das instituições e a importância da previsibilidade

    Um sistema elétrico não se sustenta apenas em usinas, linhas e cabos.

    Sua solidez depende de instituições técnicas fortes, com autonomia e previsibilidade.

    O Brasil construiu uma base respeitável nesse campo. O ONS e a ANEEL são reconhecidos pela competência técnica e pela solidez dos processos regulatórios.

    Mas o cenário atual — mais digital, distribuído e dinâmico — exige um novo modelo institucional.

    A transição energética em curso pede instituições mais ágeis, interconectadas e orientadas por dados.

    A previsibilidade das decisões regulatórias é o que garante confiança de longo prazo a investidores e operadores.

    Sem ela, o risco aumenta, o capital encarece e o ritmo de inovação diminui.

    modernização do sistema elétrico brasileiro deve, portanto, colocar a governança institucional no centro da estratégia.

    O país precisa de regras estáveis, transparentes e tecnicamente embasadas — e de agências que atuem com independência e mérito técnico, livres de pressões conjunturais.


    3. O ponto cego: coordenação e inteligência sistêmica

    O verdadeiro gargalo do sistema elétrico brasileiro não está na geração, mas na coordenação entre geração, transmissão, armazenamento e consumo.

    O modelo atual foi concebido para fluxos unidirecionais — da usina para o consumidor.

    Agora, o fluxo é bidirecional: cada casa, empresa ou fazenda pode ser também um ponto de geração.

    Isso transforma a rede elétrica em um sistema vivo, que precisa ser monitorado e ajustado em tempo real.

    A solução está na digitalização e automação da operação.

    O uso de dados, inteligência artificial e sistemas preditivos pode evitar sobrecargas, antecipar falhas e otimizar o uso da infraestrutura existente.

    Nesse contexto, a proposta de criação de Operadores de Sistema de Distribuição (DSO) faz sentido técnico.

    Esses operadores regionais atuariam como “mini-ONS”, coordenando a inserção das novas fontes e garantindo a estabilidade local.

    Mas, para que isso funcione, é fundamental que a estrutura seja neutra, tecnicamente qualificada e baseada em interoperabilidade digital.

    Modernizar o sistema elétrico brasileiro significa integrar inteligência, dados e governança técnica — não apenas adicionar megawatts à matriz.


    4. Quatro pilares para a próxima década

    A transformação do setor elétrico brasileiro deve se apoiar em quatro pilares estratégicos que combinem tecnologia, governança e formação técnica.

    1️⃣ Planejamento energético baseado em dados

    O planejamento deve se tornar cada vez mais analítico.

    Modelagens preditivas, simulações de fluxo e integração de dados em tempo real precisam ser parte do processo decisório.

    Planejar com base em dados é o primeiro passo para equilibrar inovação e confiabilidade.

    2️⃣ Revisão regulatória adaptativa e transparente

    A regulação precisa acompanhar o ritmo da tecnologia.

    Revisões periódicas, consultas públicas efetivas e regras adaptativas são essenciais para que o sistema evolua sem rupturas.

    A transparência é o que transforma ajustes regulatórios em confiança institucional.

    3️⃣ Autonomia técnica e meritocracia institucional

    As decisões do setor elétrico devem continuar sendo técnicas, não políticas.

    A autonomia das agências e operadores é a base da estabilidade do sistema.

    Instituições que decidem com base em mérito e dados são as que atraem investimentos e garantem equilíbrio de longo prazo.

    4️⃣ Formação executiva e tecnológica contínua

    O novo sistema elétrico exige profissionais preparados para lidar com automação, armazenamento, inteligência artificial e redes inteligentes.

    Investir na formação técnica e executiva é investir na sustentabilidade institucional do setor.

    Esses quatro pilares formam a espinha dorsal da modernização do sistema elétrico brasileiro, equilibrando eficiência econômica, inovação e segurança operacional.


    5. Inovação com equilíbrio: o desafio da maturidade

    O sistema elétrico brasileiro é reconhecido pela sua diversidade e robustez.

    Mas, na era digital, manter a confiabilidade exigirá maturidade institucional e inteligência regulatória.

    O país precisa avançar de um modelo de controle centralizado para uma governança distribuída e baseada em dados.

    A inovação tecnológica é importante, mas a verdadeira transformação ocorrerá quando dados, instituições e decisões técnicas estiverem plenamente integrados.

    O Brasil reúne todas as condições para liderar a transição energética global:

    recursos naturais abundantes, uma base técnica sólida e um histórico de excelência em engenharia e regulação.

    O próximo passo é garantir que esses ativos estejam alinhados sob uma visão estratégica única, com foco em eficiência, neutralidade e transparência.

    A governança energética deve ser tratada como infraestrutura nacional.

    Sem decisões previsíveis e baseadas em evidências, o país corre o risco de comprometer a segurança e a modicidade tarifária — dois pilares históricos do setor.


    Conclusão – Governar a energia com dados e confiança

    O Brasil vive um momento decisivo.

    modernização do sistema elétrico é mais do que uma pauta técnica: é uma questão de competitividade e segurança nacional.

    Cada decisão regulatória e cada inovação tecnológica impactam diretamente milhões de consumidores e bilhões em investimentos.

    A nova era da energia será digital, descentralizada e inteligente.

    Mas para que também seja sustentável, precisa ser governada por instituições fortes, decisões previsíveis e regulação baseada em evidências.

    O desafio não é apenas modernizar o setor elétrico — é reformular a governança para um mundo movido a dados.

    Mais do que subsídios, o setor precisa de inteligência, integridade e visão de longo prazo.

    O futuro do sistema elétrico brasileiro será definido não apenas pela energia que produz, mas pela qualidade técnica e ética de suas decisões.


    Jornal O Estado de São Paulo, 6 de outubro de 2025

  • Quarto Dia da X Semana de la Energía: Demandas Inteligentes, Integração Regional, Cadenas de Valor e Capital Humano

    Quarto Dia da X Semana de la Energía: Demandas Inteligentes, Integração Regional, Cadenas de Valor e Capital Humano

    Introdução: O último dia da X Semana de la Energía

    O quarto e último dia da X Semana de la Energía, realizada em Santiago do Chile em 3 de outubro de 2025, foi marcado por debates de alto nível que conectaram três eixos fundamentais da transição energética na América Latina e no Caribe: consumo inteligente e flexível, integração energética regional e desenvolvimento de cadeias de valor e capital humano.

    Ao longo dos painéis, líderes de governos, organismos internacionais, academia, setor privado e sindicatos compartilharam visões sobre como transformar desafios em oportunidades. Estar presente neste evento me permitiu não apenas acompanhar discursos técnicos, mas interpretar tendências que moldarão o futuro energético regional .


    Painel 1 – Consumo inteligente: o futuro da demanda elétrica

    A primeira sessão abordou como a gestão flexível da demanda se tornou um pilar estratégico para a resiliência dos sistemas elétricos da região. Alessandra Amaral (ADELAT) abriu o painel destacando o papel de tarifas dinâmicas, resposta da demanda e políticas de eficiência energética.

    Entre os destaques:

    • Félix Sosa (ANDE, Paraguai) mostrou como tarifas flexíveis já beneficiam setores como irrigação, permitindo ajustes de carga com aviso prévio de 10 minutos. O resultado: uso mais eficiente da infraestrutura e reduções de custos.
    • Joisa Dutra (FGV CERI, Brasil) reforçou que a sinalização de preços é central. No Brasil, a expansão dos smart meters é condição necessária para que consumidores participem ativamente da transição.
    • Juan Meriches (Empresas Eléctricas AG, Chile) alertou que a eletrificação da demanda amplia responsabilidades das distribuidoras, exigindo novos investimentos e relacionamento próximo com consumidores.
    • Juan Carlos Olmedo (Coordinador Eléctrico Nacional, Chile) destacou os veículos elétricos como baterias móveis (V2G/V2H), ressaltando a importância de telecomunicações robustas e mercados que reconheçam a demanda como recurso sistêmico.

    Minha leitura é que a América Latina precisa acelerar a digitalização e a automação, garantindo que consumidores se tornem protagonistas da flexibilidade, sem abrir mão da equidade social .


    Painel 2 – El tablero energético regional: integração para sistemas resilientes

    A segunda sessão, em formato magistral, trouxe experiências comparativas e reflexões sobre a planificação energética regional.

    • Cristina Lobillo (Comissão Europeia) relatou a trajetória de mais de 50 anos da UE, lembrando que a crise do gás russo mostrou o valor da integração. Dois pontos-chave: objetivo comum e transparência entre países.
    • Guido Maiulini (OLADE) apresentou estudos que estimam 10 a 20 bilhões de dólares em benefícios anuais até 2045 com a integração elétrica, via arbitragem de preços, reservas compartilhadas e complementariedade de recursos.
    • Heloisa Borges (EPE, Brasil) enfatizou que o Brasil oferece um exemplo de mercado maduro e diversificado, mas que planos só têm valor quando viram políticas concretas para consumidores.
    • María Helena Lee (Ministério de Energia do Chile) lembrou que resiliência climática precisa estar no centro da planificação energética.
    • Marina Gil Sevilla (CEPAL) alertou que a integração exige governança regional, com roadmaps adaptativos.
    • Ricardo Gorini (IRENA) reforçou que investidores não precisam de precisão absoluta, mas de tendências claras e compromissos consistentes.
    • Rodrigo Moreno (Universidad de Chile) concluiu que os obstáculos reais não são técnicos, mas regulatórios e institucionais.

    O que vejo neste debate é que a integração regional é inevitável: não se trata apenas de linhas de transmissão, mas de mercados, regras, confiança e legitimidade social .


    Painel 3 – Cadenas de valor estratégicas para la transición en LAC

    O terceiro painel explorou o desenvolvimento de cadeias de valor industriais e tecnológicas vinculadas à transição energética.

    • Alexandra Planas (BID) deixou claro: exportar minerais não basta. É preciso investir em processamento local, manufatura e políticas de formação técnica.
    • Arturo Loayza Ordóñez (GIZ) trouxe a experiência do ProTransición, mostrando que cadeias fragmentadas geram ineficiências, enquanto estruturas integradas trazem escala e competitividade.
    • Mauricio Rebolledo (ISA Energía Chile) destacou que empresas devem ser habitantes do território, fortalecendo fornecedores locais e integrando comunidades.
    • Ramón Fiestas (GWEC) lembrou que a expansão renovável deve ser acompanhada de industrialização local. Incentivos para produzir componentes estratégicos na região são indispensáveis.
    • Fernando Javier Lavalli (Energías Renovables de Argentina) resgatou a experiência histórica argentina e defendeu o “triângulo do desenvolvimento”: Estado, ciência/tecnologia e indústria em colaboração.

    Minha visão é que a América Latina precisa aproveitar o fenômeno do powershoring, atraindo indústrias energointensivas para seus territórios, mas com foco em valor agregado local e empregos qualificados .


    Painel 4 – El recurso humano como catalizador del recurso energético

    O último painel do dia trouxe para o centro do debate aquilo que muitas vezes é esquecido: gente é infraestrutura crítica.

    • Patricia Roa (OIT) mostrou que a transição pode gerar milhões de empregos na região até 2030, mas só se houver formação, certificação e estratégias de mobilidade laboral.
    • Jessica Miranda (AgenciaSE) apresentou resultados concretos no Chile: mais de 1.100 pessoas capacitadas e 631 certificadas em um ciclo recente, com avanços importantes na inclusão de mulheres em perfis técnicos.
    • Marco (executivo de empresa de renováveis) destacou a urgência de reduzir burocracias na capacitação, padronizar perfis ocupacionais e alinhar currículos à realidade da transição energética.
    • Roberto Mendoza León (FOSRM, México) reforçou que a reconversão deve ser feita sem precarização, garantindo negociação coletiva e condições justas.
    • Pía Suárez (Associação de Mulheres em Energia de Chile) defendeu mentorias, redes de apoio e dados transparentes sobre diversidade.

    O consenso é que sem talento humano formado, certificado e protegido, não há como entregar metas de renováveis, hidrogênio ou mobilidade.

    Minha interpretação é que o capital humano é o verdadeiro catalisador da transição energética. Precisamos de políticas públicas consistentes, investimentos empresariais escaláveis e liderança feminina para assegurar uma transição justa .


    Conclusão: O legado do quarto dia

    O quarto dia da X Semana de la Energía demonstrou que a transição energética da América Latina e Caribe não depende apenas de tecnologia ou investimentos, mas de três fatores interligados:

    1. Flexibilidade da demanda para integrar renováveis;
    2. Integração regional para compartilhar recursos e custos;
    3. Cadeias de valor e capital humano para transformar abundância de recursos em desenvolvimento sustentável.

    Se a região conseguir avançar nesses três eixos, poderá não só atingir suas metas climáticas, mas também se posicionar como líder global de uma transição justa, inclusiva e competitiva.

  • Construindo resiliência e inovação: o terceiro dia da X Semana de la Energía no Chile

    Construindo resiliência e inovação: o terceiro dia da X Semana de la Energía no Chile


    Introdução: um dia que mostrou o futuro energético da região

    No terceiro dia da X Semana de la Energía, em Santiago do Chile, teve uma das jornadas mais densas e inspiradoras do evento. Foi um dia marcado pela diversidade de temas, desde a visão institucional internacional até os caminhos concretos para escalar eficiência energética, construir redes elétricas mais resilientes e integrar agricultura e energia solar por meio do AgroPV.

    Este relato não é apenas uma descrição do que vi e ouvi, mas uma interpretação das mensagens e sinais que emergiram ao longo do dia. Compartilho aqui como percebi as discussões e de que maneira elas refletem os desafios e oportunidades que a América Latina enfrenta em sua transição energética .


    Sessão aberta da reunião de ministros: compromissos além da retórica

    A manhã começou com a sessão aberta da reunião de ministros de energia da América Latina. As intervenções, na parte pública que participei, foram feitas por representantes de organismos internacionais, que trouxeram uma perspectiva institucional.

    O recado principal foi claro: não basta anunciar metas, é preciso manter compromissos constantes. A cada mudança de rumo ou atraso em cronogramas, a governança energética se fragiliza, e a região perde tempo precioso na corrida global pela descarbonização .

    Outro ponto forte foi a ênfase na inclusão social. Estima-se que ainda existam cerca de 3 milhões de sistemas precários de acesso à energia em funcionamento na América Latina. Esse número foi apresentado como símbolo da urgência em conciliar expansão renovável com acesso universal.

    CEPAL reforçou a mensagem de que sem instituições sólidas e marcos regulatórios estáveis, não haverá estabilidade para sustentar a transição.

    A sessão concluiu destacando três dimensões que devem guiar a região:

    • Ambiental: acelerar a transição para fontes limpas;
    • Social: garantir acesso a quem está excluído;
    • Política: consolidar governança e continuidade .

    O que incentiva o setor privado a investir em eficiência energética?

    O segundo painel que acompanhei trouxe uma questão estratégica: como incentivar o setor privado a investir em eficiência energética na América Latina e no Caribe.

    Diversidade de setores e instrumentos

    Logo na abertura, ficou claro que eficiência energética não pode ser tratada como tema restrito a grandes indústrias. Ela se aplica a residências, comércio, pequenas e médias empresas, transporte e, claro, às grandes plantas industriais .

    A especialista Stéphanie Nour, da Econoler, chamou atenção para o papel das tarifas reais, que reflitam os custos de produção e distribuição. Quando a tarifa é artificialmente baixa, a eficiência perde atratividade. Mas ela foi além: tarifa sozinha não basta. É preciso uma arquitetura em três pilares: regulação, capacitação/informação e incentivos .

    Incentivos monetários e reputacionais

    Andrea Heins, do UNEP Copenhagen Climate Center, lembrou que subsídios e linhas especiais existem, mas têm custo fiscal. Não há dinheiro mágico, e muitas vezes é preciso passar por aprovação parlamentar. Por isso, sugeriu também incentivos não monetários, como reconhecimento público e acordos voluntários — medidas de baixo custo e alto impacto reputacional .

    Financiamento climático e inclusão

    Gemma Bedia Bueno, da Alinnea, trouxe a dimensão social: o financiamento climático pode ser uma oportunidade, mas só se for bem direcionado. É necessário chegar até PMEs, cooperativas e atores locais. Microcréditos e garantias podem transformar acesso em realidade. O risco, segundo ela, é que eficiência energética seja vista como “negócio inseguro” por bancos, justamente pela falta de informação técnica .

    Do piloto à escala

    Rosa Riquelme, da Agência de Sustentabilidade Energética do Chile, destacou que pilotos provam viabilidade, mas não escalam sozinhos. É preciso dados robustos, continuidade regulatória e um mercado de serviços confiável. Falta ainda um registro regional de provedores qualificados e certificações reconhecidas .

    Mensagem final

    A conclusão coletiva: a eficiência energética deve ser sempre a primeira opção. Antes de pensar em novas usinas, devemos otimizar o consumo. É mais barato, competitivo e sustentável .


    Construindo resiliência energética em ALC

    O terceiro painel do dia foi um dos mais instigantes: Construyendo resiliencia energética en ALC.

    presidente da Enel Chile, Gianluca Palumbo, abriu lembrando que a frequência e a intensidade de eventos extremos vêm aumentando. Enchentes, ondas de calor e tempestades são hoje fatores que pressionam diretamente os sistemas elétricos .

    O modelo das 4R

    Palumbo apresentou o modelo das 4R:

    • Risk prevention: fortalecimento da rede, manutenção e práticas operativas;
    • Readiness: sistemas de alerta, simulações e convenios com instituições;
    • Response: telecontrole, automação e comunicação constante;
    • Recovery: intervenções rápidas, reparações e melhoria contínua .

    Sua mensagem foi clara: resiliência não é apenas tecnológica, mas também institucional e regulatória.

    Um novo marco regulatório

    A resiliência exige métrica, coordenação e estabilidade regulatória. Sem isso, a resposta é fragmentada. Com isso, a resposta é sistêmica, envolvendo distribuidoras, transmissoras, governos locais e até defesa civil .

    O painel, que reuniu também Alessandra Amaral (ADELAT), Arturo Alarcón (BID), Maria Medard (CARILEC) e Marina Dockweiler (FONPLATA), reforçou a necessidade de tratar a resiliência como investimento econômico. Não se trata apenas de proteger redes, mas de garantir continuidade de serviços essenciais para toda a economia .


    AgroPV: unindo agricultura e energia solar

    Encerrando o dia, participei do painel sobre AgroPV: energía solar y agricultura resiliente para la transición energética y climática. Esse foi, sem dúvida, um dos mais inspiradores.

    Uso compartilhado do solo

    Logo na abertura, ouvi que o AgroPV representa um uso inteligente e compartilhado do solo. Não se trata de escolher entre agricultura e energia solar: é possível fazer os dois juntos. A prova são os sistemas já instalados no sul do Chile, que mostram que é viável produzir energia e, ao mesmo tempo, proteger cultivos contra estresses climáticos .

    O guia prático do Fraunhofer

    Frederik Schönberger, do Fraunhofer Chile, apresentou um manual para projetos AgroPV. Ele propõe um processo em cinco etapas:

    1. Identificar requisitos do cultivo (luz, água, fenologia).
    2. Checar compatibilidade com operações agrícolas.
    3. Dimensionar requisitos elétricos.
    4. Planejar aspectos estruturais e normativos.
    5. Usar uma matriz de parâmetros para tomar decisões equilibradas .

    Esse guia busca traduzir ciência em prática, simplificando dados técnicos para agricultores e desenvolvedores.

    O papel da ISA

    Hugo Morales, da International Solar Alliance, trouxe a visão global. A ISA atua em quatro pilares: políticas, participação privada, capacitação e mobilização de capital. O programa “Farm first” foi desenhado para colocar o agricultor no centro, garantindo que AgroPV seja uma resposta às necessidades locais .

    Ele defendeu também a criação de uma facility regional de financiamento, capaz de escalar pilotos em uma carteira de projetos maior, com garantias e seguros que atraiam bancos locais.

    O que falta

    O painel apontou três pontos críticos para avançar:

    • Normativas claras para uso dual do solo;
    • Modelos de negócio adaptados (PPAs agrícolas, cooperativas, GD com armazenamento);
    • Dados comparáveis sobre produtividade agrícola e geração solar .

    Conclusão: o fio condutor do dia

    Ao final do terceiro dia da X Semana de la Energía, saí com a sensação de que há um fio condutor entre eficiência energética, resiliência e AgroPV. O que une todos esses temas é a necessidade de transformar potencial em realidade, com:

    • Instituições fortes;
    • Dados confiáveis;
    • Modelos de negócio inovadores;
    • Compromissos sustentados no tempo.

    A América Latina tem recursos, conhecimento e vontade. O desafio é alinhar tudo isso para que a transição energética seja, ao mesmo tempo, limpa, resiliente e inclusiva.