Tempo de mudanças nos modelos de negócios das empresas de energia e telecomunicações

Qualquer modelo de negócio tem seu tempo de validade. Agora chegou o fim do ciclo dos modelos de negócios das empresas de telecomunicações e energia. As empresas de telecomunicações já sofrem o ataque dos novos serviços de Internet desde o surgimento do Skype, que simplesmente destruiu o negócio das caras chamadas telefônicas de longa distância, nacionais e internacionais. A reação das telcos foi criar novos negócios, tais como serviços de Data Centers, segurança da informação, Call Centers e outros serviços agregados na Internet. Agora chegou a vez das empresas de energia buscarem novos serviços agregados para manter a rentabilidade e garantir o retorno dos investimentos e custos operacionais. O crescimento da geração distribuída, novos equipamentos com baixo consumo de energia, projetos de eficiência energética, baixo crescimento da economia global e aumento da consciência ambiental estão reduzindo a demanda por energia, reduzindo as margens de lucro das empresas. O reflexo inicial é nas distribuidoras de energia que sofre a redução do consumo, porém precisam manter a infraestrutura operando.

No setor de telecomunicações existem várias métricas de eficiência dos serviços e desempenho financeiro das empresas. Uma destas métricas é a receita média por cliente (ou usuário) – Average Revenue Per User (ARPU). Na telefonia móvel, o ARPU inclui não apenas as receitas cobradas para o cliente de cada mês por uso, mas também a receita gerada a partir de chamadas recebidas, pagas dentro do regime de regulação de interconexão. Entretanto, exclui-se a receita oriunda de venda de dispositivos (telefones celulares, modems, tablets, etc), pois estes não fazem parte do negócio principal (core business) da empresa.

As chamadas de celulares para fixos, de fixos para celulares e para celulares de outras operadoras garantir elevados ARPU. Entretanto, o WhatsApp mudou o jogo, permitindo chamadas entre celulares, mesmo de operadoras diferentes, via Internet, reduzindo, dramaticamente, o ARPU.

A solução à primeira vista seria oferecer novas aplicações via Internet (OTT – over the top), como streaming de música e vídeo, noticias, serviços avançados de caixa postal, jogos, entre outros. Entretanto, a forte concorrência no setor faz com que estes serviços sirvam apenas para reter os clientes.

Um desafio adicional para muitas empresas de telecomunicações é que são concessionárias dos serviços, tendo se comprometido com os governos a atingir metas de eficiência e cobertura dos serviços. Alguns serviços, anos atrás faziam sentindo como, por exemplo, ampliar o número de telefones públicos no pais. Atualmente, o número de celulares no Brasil supera o número de habitantes. Em abril de 2017, a Anatel informou a existência de 242,3 milhões de celulares e uma densidade de 116,91 celulares/100 habitantes. Entretanto, a Anatel insiste no cumprimento da meta de implantação dos telefones públicos.

Uma oportunidade para as empresas de telecomunicações é oferecer serviços de IoT para os usuários finais, e não apenas os serviços de transmissão de dados. Aplicações de Internet of Things são as que mais crescem no mundo em, praticamente, todas os setores de negócios.

No setor de energia, os desafios não são menores. A energia é dos principais custos de operação das empresas, perdendo em muitos casos apenas para os altos custos de pessoal no Brasil. Obviamente, as empresas trabalham arduamente para reduzir o consumo de energia ou adotar soluções de geração distribuída de energia, como painéis solares e aquisição de energia no Mercado Livre (compra de energia diretamente das geradoras). O consumo de energia na indústria caiu 2,9% em 2016, enquanto o setor comercial caiu 3,3% e o setor residência registrou um aumento de 2,6%.

Seguindo uma tendência e acordos internacionais, o Brasil proibiu a fabricação de lâmpadas incandescente, que possuíam baixíssimo rendimento de iluminação, e ampliou os limites máximos de geração distribuída até 5MW e flexibilizou a instalação das plantas em locais diferentes do consumo, desde que na mesma área de concessão da empresa de distribuição local. A resolução normativa nº 687 da Aneel obriga as concessionárias de distribuição a acoplarem as unidades geradoras dos consumidores (agora chamado de prosumidor, aquele que gera e consume energia), mudando completamente os procedimentos de medição de consumo, uma vez que deverá ser computado o consumo e geração de cada prosumidor.

O mercado de distribuição está em movimento, a Neoenergia adquiriu a Elektro, a Cemig colocou à venda a Light e a AES Eletropaulo anunciou planos para migrar para o Novo Mercado, convertendo as ações preferenciais em ordinárias, com isto abre uma opção de saída da AES Corp da Eletropaulo, assim como vez vendendo a AES Sul para a CPFL. A CPFL, por sua vez, agora tem como controladora a State Grid, maior empresa do setor elétrico do mundo.

O mercado de energia é regulado e as concessionárias tem metas a cumprir, conforme contrato com a Aneel. Da mesma forma que o setor de telecomunicações, a redução do consumo dos prosumidores afeta a receita média por unidade consumidora. Adicionalmente, para as concessionárias se adaptarem ao novo cenário de geração distribuída exigirá altos investimentos em equipamentos e sistemas de automação e controle. O modelo de reajuste tarifário é obscuro e correm o risco de não terem todo o investimento repassados para as tarifas.

Por todos estes fatos, é mandatório a mudança dos modelos de negócios das empresas e da atual regulamentação dos setores de telecomunicações e energia. Acredito que todas as empresas estejam qualificadas para promoverem transformações nos seus negócios, talvez o maior obstáculo seja a rigidez do modelo regulatório.

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