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Não matem os consumidores

Está difícil entender o cenário social, político e econômico mundial. Existem muitas previsões, mas uma decisão de um governante ou a mobilização de milhares de pessoas pode alterar um cenário prospectivo linear. Impossível analisar apenas o cenário local, pois ele está fortemente interligado com os movimentos internacionais. Por outro lado, temos que assumir o controle da situação. Isso começa com a transformação do nosso negócio para adequá-lo à nova realidade econômica e comportamento dos consumidores.  Sugiro nesse artigo duas propostas: alugar ao invés de vender e promover o empreendedorismo.

A queda do crescimento da China, que hoje representa quase 20% do PIB mundial, afeta significativamente as exportações de muitos países. A redução do preço do barril do petróleo para US$32 e a decisão de governo saudita de manter a produção, coloca em colapso as economias dos produtores, incluindo Rússia, Irã, Angola e a moribunda Venezuela. Torna o programa brasileiro do Pré-Sal inviável e afetando as economias municipais e estadual pela redução dos royalties, aprofundando a crise do governo. A forte tensão nos países europeus com a chegada dos refugiados. As investidas sangrentas do Estado Islâmico. A recessão no Japão. A redução dos preços internacionais da commodities, o aumento dos juros no Brasil para frear a inflação e o aumento da taxa de desemprego, neutralizam a retomada do crescimento brasileiro. Bom, vamos parar por aqui. A lista de eventos é longa.

O cenário nacional e internacional não é favorável. A primeira reação das pessoas é reduzir o consumo e guardar dinheiro por precaução. Entretanto, a inflação corrói o poder aquisição e não sobra para poupar. Situação pior para quem perde o emprego e não tem um perfil de empreendedor para buscar novas formas de ganhar dinheiro. Nesse cenário entramos em uma espiral negativa.

Infelizmente, o Brasil perdeu o bonde do crescimento por não saber aproveitar o período de ouro de alta de preços da commodities (2004-2008). Ao invés de criarmos uma infraestrutura robusta e estabelecer acordos comerciais fortes com outros países, optamos por incentivar o consumo interno e permitimos que políticos e empresários corruptos esfoliassem nossas reservas (a operação Lava a Jato que o diga). O fato é que o Brasil se tornou irrelevante no cenário internacional, exceção de algumas iniciativas de preservação do meio ambiente.

Fora dos grandes acordos internacionais, como o Trans-Pacific que reúne países do oceano Pacífico representando cerca de 40% do comércio internacional, o Brasil ficou sem muitas opções de exportação. O Mercosul acabou. Nossa moeda foi a que mais desvalorizou no mercado internacional, tornando os produtos importados mais caros. Mesmo com o aumento das exportações do nosso supereficiente agronegócio, o valor nominal da balança comercial deve reduzir.

O lado bom ou ruim, dependente de como se enxerga, é que o Brasil ficou barato para os estrangeiros. Abriu-se grandes oportunidades para a compra de empresas brasileiras e participação em Parcerias Público-Privadas. O atual governo, outrora contra privatizações, está acelerando o processo de venda de ativos sob seu controle para fazer caixa e que, provavelmente, serão consumidos para cobrir despesas.

As empresas que pretendem sobreviver irão transformar seus negócios e aumentar sua eficiência operacional. Isso, invariavelmente, passa por redução do quadro de funcionários e redução dos salários. Mesmo porque o brasileiro tem baixa produtividade (temos 25% da produtividade dos americanos). Nesse cenário, quem não tem qualificação está fora do mercado.

Em um pensamento linear, se não temos qualificação vamos treinar. Entretanto, qualificação sem oportunidades não resolve. Em cenários de recessão de econômica existe um grande contingente de trabalhadores altamente qualificados que não encontram trabalho.

Mantendo esse cenário, em breve mataremos os consumidores. Obviamente, que não no sentindo literal, mas estarão em níveis de consumo de subsistência. Os mais qualificados buscarão oportunidades no exterior ou empreenderão.

O relatório do banco Credit Suisse de 2015 sobre a riqueza global, mostra que a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Em vários países a limitada recuperação da economia após a crise de 2008 fez com que a riqueza fluísse para os bolsos dos privilegiados, enquanto as classes médias e popular ficaram ainda mais pobres pela estagnação dos salários reais, o aumento do desemprego e o maior endividamento. Comparando em termos mundiais, a “classe média” brasileira é composta pelas camadas A2 (3,6%) e a metade superior da B1 (9,6%). A camada A1 conta com 0,5% da população.

E agora, o que fazer? Tenho duas sugestões: a primeira, é alugar ou invés de vender; a segunda, é as empresas investirem em programas sociais de empreendedorismo.

O fato de não ter dinheiro não significa que as pessoas não precisem de algo para atender suas necessidades. Muitas vezes, o uso de um produto comprado é limitado. Veja o exemplo de um carro. Quanto tempo efetivamente você usufrui do investimento de um carro? Provavelmente, fazendo as contas você concluirá que é mais barato e confortável usar o Uber e alugar um carro nos finais de semana do que gastar seu dinheiro comprando um.

Quase tudo pode ser alugado. A Microsoft agora aluga o Office. A Google aluga espaço em disco para armazenar fotos e documentos. O Uber aluga mobilidade e conforto. Resumindo, alugue o que as pessoas precisam para quem não pode comprar e para quem tem bom senso.

Na outra ponta, as empresas devem fomentar o aumento de renda dos consumidores. A Igreja Universal do Bispo Edir Macedo descobriu isso há muito tempo. Quanto mais ele motiva as pessoas a melhorarem de vida e aumentar a renda, maior é o dizimo para a Igreja e maior a adesão e manutenção dos fiéis.

Minha segunda sugestão é o apoio das empresas em programas de empreendedorismo nas comunidades em que ela está presente, incluindo seus funcionários. Isso funciona como ações de Responsabilidade Social que podem ser capitalizadas em seus relatórios de Balanço Social, aumenta a fidelização dos clientes e pode criar novas oportunidades de negócio para a própria empresa.

A saída da recessão econômica e continuidade dos nossos negócios está nas nossas mãos. A única coisa que precisamos do governo é que ele não atrapalhe.