Angra 3 e SMRs: a decisão que define a energia firme para a economia digital brasileira

Entre o passivo de um megaprojeto e a corrida geopolítica por modularidade, evidência e credibilidade institucional

O debate sobre Angra 3 não é mais apenas sobre concluir uma usina. O ponto é decidir como o Brasil governa infraestrutura crítica quando o custo de não decidir é recorrente e visível. Com 1.405 MW projetados, Angra 3 concentra um dilema clássico: capital já imobilizado, cronograma pressionado e um passivo que cresce enquanto a obra não entrega energia (ELETRONUCLEAR, 2026a). Mas há um segundo movimento, externo ao Brasil, que reorienta a conversa: Estados Unidos, Hungria e Eslováquia vêm formalizando cooperação nuclear civil e reposicionando cadeias de suprimento e alianças energéticas na Europa Central, com SMRs no radar (UNITED STATES, 2025; ANS, 2026; WASHINGTON POST, 2026). O que está em jogo agora é a credibilidade do planejamento energético em um mundo onde energia firme volta a ser ativo estratégico, pressionado por infraestrutura digital e por disputas de influência. O risco, portanto, não é só de custo e prazo; é de coerência institucional, bancabilidade e reputação.

1) Infraestrutura crítica: Angra 3 como teste de Estado, não como obra

Quando um projeto de geração firme permanece paralisado por longos períodos, ele deixa de ser um problema de engenharia e vira um problema de governança. Angra 3 é um caso emblemático: potência instalada projetada de 1.405 MW e papel relevante na estabilidade do Sistema Interligado Nacional quando entrar em operação (ELETRONUCLEAR, 2026a). O noticiário de 16 de fevereiro de 2026 registrou a pressão por decisão e o efeito do “custo do parado”, associado a serviço da dívida e preservação de equipamentos, além do risco de cláusulas financeiras como “cross-acceleration” ampliarem a fragilidade de caixa em cenários de estresse (O ESTADO DE S. PAULO, 2026a). A questão é que infraestrutura crítica exige previsibilidade. Sem um pacote decisório rastreável, a postergação produz um ciclo de custo crescente, contencioso potencial e desgaste institucional. A consequência executiva é simples: o país troca energia firme futura por incerteza presente, e incerteza presente é prêmio de risco embutido em qualquer investimento de longo prazo. Por isso, o debate correto é “como decidir com evidência e marcos verificáveis”, e não “quem tem a melhor narrativa”.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Tratar Angra 3 como ativo sistêmico de geração firme no SIN, com 1.405 MW projetados (ELETRONUCLEAR, 2026a).Segurança energética versus necessidade de disciplina de execução e transparência de premissas.Reduz risco de suprimento no longo prazo; sem disciplina, eleva risco reputacional por revisões de custo.
Transformar o custo do empreendimento parado em indicador de risco de portfólio (O ESTADO DE S. PAULO, 2026a).Expor passivo aumenta escrutínio, mas reduz ruído e melhora governança.Melhora bancabilidade; postergação amplia custo total e fragiliza confiança do mercado.
Vincular a decisão a marcos verificáveis de contrato e financiamento.Condições rígidas reduzem flexibilidade política de curto prazo.Menos risco de re-trabalho, judicialização e escalada de CAPEX por mudança de escopo.
Organizar a deliberação como pacote único, com trilha de auditoria.Mais formalidade pode alongar o rito no curto prazo.Reduz risco de reversões e contestações, melhorando previsibilidade para fornecedores e financiadores.
Priorizar governança como ativo reputacional de infraestrutura crítica.Comunicação transparente pode ser desconfortável.Protege credibilidade institucional; evita que o tema vire sinônimo de inexecução.

2) O dilema econômico: concluir versus abandonar e o aprisionamento de capital

O que torna Angra 3 especialmente sensível é que o custo de abandonar se aproxima do custo de concluir. A Eletronuclear divulgou que estudo do BNDES estimou que abandonar poderia custar entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, enquanto concluir exigiria aproximadamente R$ 24 bilhões, reforçando a lógica de que o projeto “puxa” a decisão para a continuidade por racionalidade fiscal (ELETRONUCLEAR, 2026b). Cobertura jornalística baseada em atualização do estudo menciona valores na mesma ordem: CAPEX remanescente de R$ 23,9 bilhões e abandono entre R$ 21,9 bilhões e R$ 25,97 bilhões (TERRA, 2025). O mecanismo por trás disso é conhecido: financiamentos, multas, rescisões e custos de desmobilização fazem o encerramento custar quase tanto quanto a conclusão, mas sem retorno energético. A questão é que essa lógica não resolve o risco de execução. Ela apenas define o terreno: se a conclusão é fiscalmente defensável, o pacote decisório precisa ser construído para reduzir o risco de repetir atrasos e revisões. Sem isso, o país cai no pior cenário: paga para manter o projeto vivo, mas não colhe energia firme.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Comparar CAPEX remanescente e custo de abandono com base em estudos divulgados (ELETRONUCLEAR, 2026b; TERRA, 2025).Abandonar encerra a agenda, mas pode consolidar perdas em nível similar ao da conclusão.Se abandono ≈ conclusão, a postergação tende a ser a pior escolha por elevar custo total e incerteza.
Tratar o custo do atraso como componente explícito do custo final.Pressão por cronograma pode aumentar risco de execução se contratos forem frágeis.Cronograma crível reduz custo de capital; cronograma instável aumenta risco de escalada.
Amarrar premissas financeiras a uma trilha de evidências auditável.Transparência eleva cobrança, mas reduz contestação posterior.Diminui risco de judicialização e re-trabalho; melhora previsibilidade de desembolsos.
Reforçar governança contratual com marcos e gatilhos de continuidade.Aumento de custo transacional no curto prazo.Menos risco de “cheque em branco” e de revisões por escopo difuso.
Separar decisão fiscal de decisão de execução, sem confundir racionalidade com garantia.Concluir pode ser racional, mas não é automático que será bem executado.Evita decisão “por inércia”; cria base para responsabilização por resultados verificáveis.

3) CNPE, arranjos societários e o custo institucional da indecisão

A paralisia decisória raramente é uma variável única. Em Angra 3, o debate atravessa instâncias de política energética, estrutura societária e condições de financiamento. O CNPE aparece como eixo de decisão, justamente por tratar de diretrizes estratégicas de energia e por ser o fórum esperado para resolver impasses de grande porte (O ESTADO DE S. PAULO, 2026a). O noticiário também registrou, em 16 de fevereiro de 2026, que a homologação judicial do acordo entre União e Axia Energia teria exigido novos estudos e reorganizado responsabilidades, ampliando o conselho e removendo obrigações atribuídas à Axia sobre Angra 3 (O ESTADO DE S. PAULO, 2026b). Esse tipo de rearranjo tem efeito prático: ele reconfigura incentivos, rediscute participação privada e, ao mesmo tempo, cria justificativa institucional para postergação. A consequência é um custo invisível, mas real: cada ciclo de “revisão” aumenta incerteza e fragiliza a confiança na capacidade do Estado de executar infraestrutura crítica dentro de premissas controladas. Em projetos de capital intensivo, confiança é parte do preço.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Deliberação no CNPE como caminho de definição de diretriz estratégica (O ESTADO DE S. PAULO, 2026a).Legitimidade colegiada versus risco de alongamento por reavaliações sucessivas.Atraso recorrente aumenta custo total e amplia risco de fragilidade financeira.
Reorganização societária e responsabilidades após homologações e acordos (O ESTADO DE S. PAULO, 2026b).Redefinir responsabilidades pode destravar, mas exige diligência e tempo.Melhora bancabilidade se concluir; se prolongar, aumenta custo reputacional e risco de contencioso.
Sinalização ao mercado de que há pacote decisório com premissas fechadas.Premissas fechadas reduzem margem política para ajustes oportunistas.Reduz prêmio de risco percebido e melhora condições de financiamento.
Tratamento do risco de cláusulas financeiras e garantias em cenários de estresse.Transparência pode revelar fragilidades, mas evita surpresas.Menor probabilidade de crise de caixa e de ruptura de contratos com fornecedores.
Trilha de auditoria para órgãos de controle e stakeholders.Mais rastreabilidade exige governança de dados e gestão de mudanças.Reduz risco de contestação posterior e protege reputação institucional.

4) SMRs como alternativa: modularidade, mas com risco de primeira unidade

A proposta de usar Pequenos Reatores Modulares para equivaler a capacidade de Angra 3 parte de uma ideia operacional simples: em vez de um bloco único de 1.405 MW, implantar cerca de cinco unidades na classe de 300 MW, com entrada em operação sequencial. O valor estratégico é o faseamento de capital e a possibilidade de aproximar geração firme da carga. O risco é econômico: SMRs ainda carregam incerteza de custos, especialmente quando se trata da primeira unidade de um desenho, conhecida como FOAK. A literatura recente usada como âncora na discussão aponta custo médio da ordem de 7.031 €/kW e registra que o custo por kW pode ser superior ao de grandes reatores, refletindo perda de economias de escala e barreiras econômicas (ALEXANDER et al., 2024). Casos de mercado reforçam a necessidade de cautela com narrativas: projetos FOAK podem sofrer escalada e até cancelamento, com impactos reputacionais e financeiros (UTILITY DIVE, 2023). O ponto, portanto, não é vender SMR como “atalho barato”. É tratá-lo como programa industrial e regulatório de médio prazo, em que a repetição padronizada reduz risco ao longo do tempo.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Substituição de 1.405 MW por frota de ~5 unidades na classe de 300 MW.Flexibilidade e redundância versus complexidade de múltiplos sítios e licenças.Faseia desembolsos, mas eleva exigência de PMO e coordenação regulatória.
Redução do risco de retorno tardio por entrada sequencial em operação.Sequenciamento reduz “tudo ou nada”, mas pode elevar custo transacional.Melhora perfil de caixa; risco de prazo migra para licenciamento e cadeia de suprimentos.
FOAK como principal fonte de incerteza de CAPEX (ALEXANDER et al., 2024).A primeira unidade concentra risco; sem repetição, a promessa de barateamento não se materializa.Maior risco de custo e prazo no início; melhora depende de padronização e governança.
Uso de lições de casos de escalada e cancelamento em projetos FOAK (UTILITY DIVE, 2023).Casos negativos podem distorcer o debate se usados como argumento absoluto.Aumenta qualidade de diligência e contingência, reduzindo risco de frustração de expectativa.
Aproximação da carga como racional de sistema, não como propaganda de custo.Pode reduzir pressão em transmissão em certos contextos, mas não elimina necessidade de rede.Evita promessas excessivas; protege credibilidade do business case perante conselhos e financiadores.

5) Energia firme e infraestrutura digital: por que a demanda mudou o tabuleiro

A demanda por energia firme ganha tração quando se considera o crescimento de infraestrutura digital e de inteligência artificial. A IEA publicou análise sobre “Energy and AI”, destacando que data centers têm consumo relevante e trajetória de crescimento acelerada, com implicações para redes e para a necessidade de fontes despacháveis e previsíveis (IEA, 2025). O efeito executivo é pragmático: cargas críticas compram disponibilidade e previsibilidade, não apenas kWh barato. Isso eleva o valor estratégico de geração firme e também eleva o custo reputacional de projetos que ficam presos em impasses. Nesse contexto, tanto Angra 3 quanto SMRs entram como respostas possíveis, mas com naturezas diferentes. Angra 3 é o caminho de capital já imobilizado e necessidade de encerrar o passivo. SMRs são o caminho de arquitetura e de programa, com potencial de co-localização com carga e redução de dependência de longos reforços de rede em casos específicos, desde que haja governança e licenciamento compatíveis. A questão é alinhar decisão energética com sinal de demanda, evitando uma agenda que oscila entre urgência e paralisia.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Crescimento de demanda digital pressiona planejamento de energia firme (IEA, 2025).Demanda global não garante demanda local; depende de política industrial e ambiente de investimento.Sem energia firme previsível, projetos digitais exigem mitigação cara e elevam risco de competitividade.
Geração firme como ativo de disponibilidade, não apenas energia.Custo por MWh pode ser maior, mas o valor está na previsibilidade.Reduz risco operacional de cargas críticas; melhora atratividade de investimentos intensivos em disponibilidade.
Co-localização como hipótese defensável em alguns contextos.Reduz pressão sobre reforços em casos específicos, mas eleva exigência de segurança e licenciamento local.Reduz risco de gargalo de conexão em determinados polos; risco de prazo migra para governança e aceitação.
Pacote decisório com trilha de evidências para conselhos e controle externo.Mais evidência exige governança de dados e disciplina de mudanças.Menor risco reputacional e maior previsibilidade para financiamento e execução.
Convergência entre planejamento energético e estratégia de infraestrutura crítica.Integração intersetorial é complexa e lenta.Reduz decisões incoerentes e melhora alocação de capital no horizonte 2026–2035.

6) A nova camada geopolítica: EUA, Hungria e Eslováquia e a disputa por cadeia nuclear

O debate brasileiro ocorre em paralelo a um movimento internacional que influencia mercado, fornecedores e narrativas de segurança energética. No entorno de 16 de fevereiro de 2026, a cobertura internacional registrou visita do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a Budapeste, com sinais políticos explícitos de apoio ao primeiro-ministro húngaro e a assinatura de instrumentos de cooperação nuclear civil, em um contexto de reposicionamento energético e tensões na Europa (DW NOTICIAS, 2026; WASHINGTON POST, 2026; THE GUARDIAN, 2026). O Departamento de Estado dos EUA já havia divulgado, em novembro de 2025, um Memorandum of Understanding on Nuclear Energy com a Hungria, com referência direta a SMRs e a cooperação na indústria nuclear civil (UNITED STATES, 2025). No caso da Eslováquia, houve formalização de acordo intergovernamental com os EUA para cooperação nuclear civil, incluindo plano relacionado ao desenvolvimento de reator comercial de grande porte e fortalecimento do programa nuclear nacional, conforme registro setorial (ANS, 2026). Esse conjunto de ações sinaliza algo maior: nuclear e SMRs estão sendo tratados como instrumentos de segurança energética, política industrial e influência geopolítica. Para o Brasil, a implicação não é copiar o modelo, e sim entender o efeito em cadeias de suprimento, acesso a tecnologia, condições de financiamento e competição por capacidade industrial. O risco é o país entrar no debate com linguagem de décadas passadas enquanto o mundo reposiciona nuclear como política de Estado e de alianças.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Cooperação nuclear civil EUA–Hungria com SMRs no escopo (UNITED STATES, 2025).Segurança energética e indústria versus risco de politização e reação de stakeholders regionais.Reposiciona cadeia e padrões; aumenta competição por fornecedores e atenção regulatória.
Acordos e marcos EUA–Eslováquia para programa nuclear civil (ANS, 2026).Fortalecimento de programa nacional versus dependência de fornecedores e ritmos de licenciamento.Pode acelerar projetos, mas exige governança; afeta disponibilidade de equipamentos e know-how no mercado.
Uso de nuclear como instrumento de política externa e sinal político (DW NOTICIAS, 2026; WASHINGTON POST, 2026).Sinalizações políticas podem aumentar volatilidade de percepção.Amplia risco reputacional se decisões forem lidas como alinhamento geopolítico, não como racional técnico.
Foco em SMRs como “mercado emergente” na Europa Central (UNITED STATES, 2025).Promessa de modularidade versus incerteza FOAK e custo de capital.Pode atrair capital e indústria, elevando competição; Brasil precisa planejar com realismo e evidência.
Pressão por energia e segurança em contexto europeu.Prioridades de curto prazo podem colidir com processos longos de infraestrutura.Aumenta urgência global; para o Brasil, reforça valor de previsibilidade institucional e de cadeia.

7) ESG e risco reputacional: disciplina de evidência como ativo estratégico

Em infraestrutura crítica, ESG se traduz em risco, controles e rastreabilidade. O risco reputacional em Angra 3 nasce quando a sociedade e o mercado percebem que um empreendimento de décadas segue sem decisão estável, acumulando custos e incerteza. Do lado dos SMRs, o risco reputacional nasce de promessas de modularidade sem lastro econômico e regulatório. Em ambos, o antídoto é o mesmo: evidência, governança de dados, marcos verificáveis e comunicação transparente. A camada institucional também importa: projetos nucleares operam sob requisitos de segurança e regulação que exigem separação clara entre fomento e fiscalização, além de consistência na política pública. A consequência executiva é objetiva: sem disciplina de evidência, a decisão tende a oscilar e o custo de capital sobe; com disciplina, mesmo decisões difíceis tornam-se defensáveis em conselhos, órgãos de controle e mercado. Em um cenário global onde nuclear volta a ser instrumento de segurança energética, o Brasil precisa proteger a própria credibilidade, evitando tanto o imobilismo quanto a adoção apressada de narrativas externas.

Tabela: Quadro de decisão

Como funciona (mecanismo)Tensões e escolhas (trade-offs)Efeito executivo (custo, prazo, risco)
Rastreabilidade de premissas e marcos verificáveis em decisões de infraestrutura crítica.Transparência aumenta cobrança e escrutínio.Reduz risco de contestação posterior e melhora previsibilidade de execução.
Governança de dados do projeto para auditoria e controle.Exige investimento em processos e ferramentas.Protege reputação e reduz risco de re-trabalho e de divergência de números.
Separar narrativa tecnológica de realidade econômica em SMRs (ALEXANDER et al., 2024).Realismo pode reduzir apelo político de curto prazo.Evita frustração de expectativa e cancelamentos que deterioram confiança.
Integrar planejamento energético com sinais de demanda digital (IEA, 2025).Integração intersetorial é complexa.Melhora alocação de capital e reduz risco de investimentos desconectados da demanda real.
Posicionar decisões como políticas de Estado com evidência, não como sinalizações voláteis.Requer coordenação institucional persistente.Reduz risco reputacional e melhora bancabilidade em horizontes longos.

O que muda até o horizonte de tempo conhecido (2026–2035)

Tabela: Cenários

PremissasSinais precocesImpacto em custo/prazo/riscoResposta recomendada
Base: deliberação sobre Angra 3 avança com premissas fechadas; SMR segue como programa em maturação, com foco em diligência e padronização (ELETRONUCLEAR, 2026b; ALEXANDER et al., 2024).Publicação de marcos, contratos e trilha de decisão; redução de reavaliações sucessivas.Custo mais controlado, prazo ainda pressionado; risco reputacional cai com transparência.Concluir Angra 3 com governança robusta e iniciar desenho programático de SMRs com critérios e evidências.
Otimista: demanda digital materializa investimentos e acelera valor de energia firme; cooperação internacional melhora acesso a cadeia e padrões (IEA, 2025; UNITED STATES, 2025).Aumento de anúncios de cargas críticas e de acordos tecnológicos; melhora de condições de financiamento.Reduz risco de demanda; risco migra para execução e licenciamento.Planejar polos de energia firme próximos à carga como hipótese, com governança e rito regulatório consistentes.
Estressado: Angra 3 permanece travada por disputas e reavaliações; SMRs enfrentam escalada FOAK e politização geopolítica (UTILITY DIVE, 2023; WASHINGTON POST, 2026).Repetição de pedidos de estudo; notícias de escalada e cancelamento FOAK; ruído político elevado.Custo total sobe por atraso; prazo se alonga; risco reputacional cresce.Adotar gatilhos de decisão e auditoria independente; reforçar critérios de “continua ou interrompe” por evidência.

Recomendações práticas (90 dias / 180 dias / 12 meses)

  • Consolidar (90 dias) um dossiê único de premissas e evidências de Angra 3, com rastreabilidade de CAPEX remanescente e cenário de abandono; critério de aceite por evidência: documento versionado com referências a fontes institucionais e consistência de números (ELETRONUCLEAR, 2026b; TERRA, 2025).
  • Formalizar (90 dias) uma linha de marcos decisórios e contratuais sob CNPE, com responsáveis e dependências; critério de aceite por evidência: matriz de marcos com evidência documental de cada entrega e gatilhos de continuidade (O ESTADO DE S. PAULO, 2026a).
  • Estruturar (180 dias) governança contratual de execução com marcos verificáveis, gestão de mudanças e trilha de auditoria; critério de aceite por evidência: minuta contratual com indicadores de avanço e penalidades por desvios.
  • Preparar (180 dias) diligência programática para SMRs com distinção FOAK e padronização, sem promessas de redução automática de CAPEX; critério de aceite por evidência: relatório com premissas explícitas e referências técnicas e acadêmicas (ALEXANDER et al., 2024; ANS, 2026; UNITED STATES, 2025).
  • Mapear (12 meses) polos potenciais de carga crítica e hipóteses de co-localização, incluindo impactos em rede e licenciamento; critério de aceite por evidência: mapa de oportunidades com critérios de demanda e restrições, alinhado a tendências de consumo (IEA, 2025).
  • Institucionalizar (12 meses) uma governança de evidências e comunicação para reduzir risco reputacional em infraestrutura crítica; critério de aceite por evidência: painel de rastreabilidade com auditoria independente e trilha de decisão.

Conclusão

Angra 3 resolve um passivo do passado, mas só se o país decidir com governança e executar com disciplina. A proximidade entre custo de abandono e custo de conclusão, conforme estimativas divulgadas, desloca o debate para o “como” e não para o “se” (ELETRONUCLEAR, 2026b; TERRA, 2025). SMRs, por sua vez, não são um atalho barato; são uma alternativa de arquitetura que exige programa, padronização e um desenho regulatório que reduza incerteza FOAK (ALEXANDER et al., 2024). O cenário externo reforça o tema: EUA, Hungria e Eslováquia vêm formalizando cooperação nuclear civil com SMRs no radar, indicando que nuclear voltou a ser instrumento de segurança energética e política industrial (UNITED STATES, 2025; ANS, 2026; WASHINGTON POST, 2026). O Brasil ganha quando transforma o debate em decisão rastreável, com marcos verificáveis e responsabilidade por evidência. O risco de não fazer isso é simples: pagar pelo impasse, perder competitividade na energia firme e deteriorar credibilidade institucional em um momento em que o mundo acelera.

Como podemos ajudar

  • Diagnosticar riscos fiscal, regulatório e reputacional com matriz de evidências e critérios de aceite.
  • Estruturar governança de decisão e trilha de auditoria para premissas, marcos e gestão de mudanças.
  • Modelar cenários Angra 3 versus programa SMR com faixas de sensibilidade e distinção FOAK.
  • Definir arquitetura de dados do projeto para rastreabilidade, auditoria e controle externo.
  • Preparar cláusulas contratuais com marcos verificáveis, gatilhos de continuidade e disciplina de escopo.
  • Construir plano de comunicação institucional baseado em evidência para reduzir ruído e proteger credibilidade.
  • Mapear oportunidades de energia firme próxima à carga com critérios de demanda e restrições de licenciamento e rede.

Referências

ALEXANDER, A. et al. Economic potential and barriers of small modular reactors in Europe. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 199, 2024. Disponível em: ScienceDirect. Acesso em: 17 fev. 2026. 

AMERICAN NUCLEAR SOCIETY (ANS). The U.S. and Slovakia sign a new nuclear deal. [S. l.]: ANS, 2026. Disponível em: ans.org. Acesso em: 17 fev. 2026. 

DEUTSCHE WELLE (DW NOTICIAS). Marco Rubio respalda reelección del primer ministro de Hungría. [S. l.]: DW Español, 16 fev. 2026. Disponível em: YouTube. Acesso em: 17 fev. 2026. 

ELETRONUCLEAR. Angra 3. Rio de Janeiro: Eletronuclear, 2026a. Disponível em: eletronuclear.gov.br. Acesso em: 17 fev. 2026. 

ELETRONUCLEAR. Estudo do BNDES aumenta expectativa sobre decisão favorável à Angra 3. Rio de Janeiro: Eletronuclear, 2026b. Disponível em: eletronuclear.gov.br. Acesso em: 17 fev. 2026. 

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O ESTADO DE S. PAULO. Eletronuclear pode parar em março por indefinição sobre Angra 3. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 16 fev. 2026a. Recorte fornecido no chat.

O ESTADO DE S. PAULO. Homologação de acordo da União com Axia atrasa decisão sobre Angra 3. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 16 fev. 2026b. Recorte fornecido no chat.

TERRA. Estudo do BNDES sobre Angra 3 aponta custo maior da energia e mais R$ 23,9 bi para conclusão. [S. l.]: Terra, 2025. Disponível em: terra.com.br. Acesso em: 17 fev. 2026. 

THE GUARDIAN. Trump is “deeply committed to your success”, Rubio tells Orbán during Hungary visit. Londres: The Guardian, 16 fev. 2026. Disponível em: theguardian.com. Acesso em: 17 fev. 2026. 

UNITED STATES. U.S.-Hungary relations reach new heights. Washington, DC: U.S. Department of State, 2025. Disponível em: state.gov. Acesso em: 17 fev. 2026. 

UTILITY DIVE. The collapse of NuScale’s project should spell the end for small modular reactors. [S. l.]: Utility Dive, 2023. Disponível em: utilitydive.com. Acesso em: 17 fev. 2026. 

WASHINGTON POST. Rubio lends hand to Hungary’s Orbán as he faces tough election. Washington, DC: The Washington Post, 16 fev. 2026. Disponível em: washingtonpost.com. Acesso em: 17 fev. 2026.