O dilema físico da Inteligência Artificial

Gêmeos digitais habilitados pela física como o elo entre a expansão de data centers e a estabilidade do Sistema Interligado Nacional

A expansão da Inteligência Artificial (IA) está mudando o perfil de risco da infraestrutura elétrica. O ponto não é apenas “mais carga”, mas uma carga mais densa, mais síncrona e menos previsível, enquanto a transmissão segue presa a ciclos longos de engenharia, licenciamento e obra. Em economias avançadas, novas linhas tipicamente levam de 4 a 8 anos entre planejamento e energização, o que cria um descompasso estrutural entre a velocidade do software e o tempo do cobre. Por isso, o capital começou a precificar uma camada intermediária: modelos digitais que tratam a rede como um sistema operacional de ativos físicos, não como um conjunto de planilhas. O aporte de AUD 90 milhões na Neara, liderado pela TCV, e o posicionamento explícito em “gêmeos digitais habilitados pela física” são sinais de que o setor está buscando escala industrial para esse tipo de simulação. (NEARA, 2026)

No Brasil, a pressão é imediata. A EPE mapeou 26,3 GW em pedidos de conexão de projetos de data centers à Rede Básica até 2038, em um contexto em que a fila de conexão virou tema de governança setorial. (MEGAWHAT, 2025) A questão é que o Sistema Interligado Nacional (SIN) precisa absorver essa expansão sem comprometer frequência, tensão, qualidade de energia e, sobretudo, confiança pública. A reputação de uma concessionária ou transmissora hoje pode ser reprecificada por um único evento, porque a disponibilidade elétrica virou um KPI de economia digital e um tópico de ESG.

1) A nova natureza da carga: densidade e sincronismo como estresse sistêmico

Data centers não são novidade, mas a IA altera o “ritmo” da carga. É como trocar um fluxo constante por rajadas coordenadas: a rede sente picos e quedas em conjunto, e isso muda o desenho de capacidade, proteção e qualidade de energia.

  • Densidade de potência por rack A migração para clusters de IA eleva a potência por rack e desloca o gargalo para subestações locais, transformadores e sistemas de refrigeração, com impacto direto em CAPEX e prazo de energização. O risco é a expansão ficar limitada não por geração, mas por infraestrutura de conexão e distribuição no entorno.
  • Oscilações rápidas de potência em clusters de IA Em treinamentos de IA, há flutuações frequentes de demanda associadas à interação entre arquitetura de modelos e hardware, com picos e vales ocorrendo em intervalos de segundos. Isso complica o planejamento de capacidade e aumenta o risco operacional de subdimensionamento ou superdimensionamento. (UPTIME INSTITUTE, 2025)
  • Perda agregada de carga como risco de sistema Em 10 de julho de 2024, uma perturbação em linha de 230 kV coincidiu com uma redução aproximada de 1.500 MW, identificada como carga do tipo data center, desligada do lado do cliente por proteções e controles. O caso ilustra como cargas grandes e sensíveis podem produzir efeitos sistêmicos, mesmo sem atuação direta de equipamentos da rede na desconexão. (NERC, 2024)
  • Harmônicos e qualidade de energia Retificadores e eletrônica de potência elevam a relevância de distorções harmônicas e aquecimento em equipamentos, exigindo atenção em transformadores, filtros e coordenação de proteção. O efeito é aumento de OPEX, risco de disparo indevido e degradação acelerada de ativos. (EATON, s.d.)

2) O gargalo não é só capacidade: é tempo de execução e governança de conexão

A fila de conexão virou uma disputa por prioridade, evidência e credibilidade. O ativo escasso não é apenas megawatt disponível; é a capacidade do sistema de “produzir decisão” com rastreabilidade e segurança jurídica.

  • Pedidos de conexão em escala inédita A EPE apontou 26,3 GW em pedidos de conexão de data centers à Rede Básica até 2038, dentro de um total de 54,2 GW quando somados projetos de hidrogênio e amônia. A magnitude supera metade do pico máximo histórico de consumo registrado no país (105 GW em fevereiro de 2025, conforme cobertura setorial). (MEGAWHAT, 2025)
  • Filtragem de projetos especulativos e priorização A pressão para separar “projetos de papel” de demandas reais exige critérios técnicos auditáveis, sob pena de alocação ineficiente de reforços, judicialização e perda de confiança no processo.
  • Risco de cronograma como risco de receita Para data centers, prazo de conexão é prazo de monetização. O custo do atraso vira custo de oportunidade e pode deslocar investimento para regiões com melhor previsibilidade, mesmo quando a energia é mais cara.
  • Reputação e ESG como camadas de risco A discussão de impactos locais, água, emissões e custo de energia se intensifica com a expansão acelerada. A sustentabilidade deixa de ser marketing e passa a ser critério de licenciamento social. (S&P GLOBAL, 2025; BELFER CENTER, 2026)

3) Gêmeos digitais habilitados pela física: operar mais perto do limite, com segurança

Se a rede é física, a capacidade escondida está nos detalhes físicos. A metáfora aqui é simples: a rede tem “folga” que só aparece quando se mede vento, temperatura, flecha dos cabos e restrições reais, e não apenas limites conservadores.

  • Modelagem habilitada pela física Plataformas como a Neara combinam modelos elétricos com fatores mecânicos e ambientais, criando uma réplica operacional que suporta cenários e decisões em velocidade de negócio. (NEARA, 2026)
  • Avaliação dinâmica de capacidade térmica de linhas Em vez de uma capacidade estática, o modelo pode estimar quanto a linha suporta em condições específicas de clima, ventilação e temperatura, reduzindo necessidade de reforço imediato quando a restrição é conservadora.
  • Transparência de premissas e trilha de evidências O ganho não é só técnico; é governança. Quando a decisão é embasada em premissas explícitas e dados rastreáveis, a conversa com regulador, investidores e auditoria muda de patamar.
  • Velocidade de engenharia como diferencial competitivo Fornecedores reportam ganhos relevantes de produtividade no desenho e planejamento de rede com modelos digitais; quando usado como claim, precisa ser atribuído ao fornecedor e validado em contexto local. (NEARA, 2026)

4) Resiliência operacional: da estabilidade elétrica à continuidade do negócio digital

A concentração de data centers cria risco de cascata e de “evento único com impacto sistêmico”. A rede deixa de ser suporte e passa a ser componente crítico do modelo de negócios de serviços digitais.

  • Simulação de cenários de baixa margem operacional A capacidade de simular contingências e respostas operativas melhora decisões sobre reforços, ajustes de proteção e estratégias de despacho, com foco em continuidade de serviço.
  • Coordenação com cargas grandes e sensíveis O evento de 2024 nos EUA mostrou que o comportamento do lado do cliente pode produzir perda agregada expressiva sem que a rede “desarme” a carga. Isso exige alinhamento de requisitos de proteção, ride-through e comunicação técnica com grandes consumidores. (NERC, 2024)
  • Planejamento de capacidade com incerteza de perfis de carga A variabilidade de picos em treinos de IA torna a estimativa de demanda de pico mais incerta do que em cargas tradicionais, elevando o risco de erro de dimensionamento. (UPTIME INSTITUTE, 2025)
  • Gestão de risco reputacional Uma interrupção em cluster crítico não afeta só o consumidor; pode afetar percepção pública sobre confiabilidade do sistema, com efeitos em regulação, mídia e relação com stakeholders.

5) Brasil em movimento: digitalização, subestações digitais e o novo padrão de evidência

O país já tem sinais concretos de transformação. A metáfora adequada é “trocar o mapa pelo painel”: sair do registro estático para uma operação baseada em dados e modelos.

  • Rebranding e governança corporativa em grandes players A Eletrobras foi privatizada em 2022 e anunciou rebranding para Axia Energia em outubro de 2025, com atualização de tickers a partir de 10 de novembro de 2025. A mudança simboliza reposicionamento, mas a exigência operacional permanece: evidência, eficiência e risco sob controle. (ESTADÃO E-INVESTIDOR, 2025)
  • Subestação 4.0 como referência de arquitetura A ISA CTEEP iniciou a operação da subestação 4.0 em Jaguariúna, com proteção, controle, automação, monitoramento, comunicação e gestão de ativos em base totalmente digital, apontando um caminho de padronização técnica. (ISA ENERGIA BRASIL, 2023)
  • Base tecnológica nacional em monitoramento e gestão de ativos O Cepel descreve portfólio em monitoramento e gestão de ativos, análise de redes e capacidade computacional, o que abre espaço para aceleração com parceiros e integrações industriais, desde que com governança e segurança. (CEPEL, 2025)
  • Sustentabilidade como condição de escala O crescimento de data centers pressiona emissões e água, e as respostas corporativas exigem métricas auditáveis, não apenas compromissos narrativos. (S&P GLOBAL, 2025)

6) Regulação e “evidência digital”: o novo contrato psicológico do setor

A modernização do processo regulatório muda o padrão de exigência. O recado é direto: o regulador quer processo contínuo, trilha digital e consistência documental.

  • RN 1.133/2025 e processo administrativo digital A Resolução Normativa nº 1.133, de 25 de agosto de 2025, aprova a Norma de Organização nº 1 e dá base a mecanismos de deliberação e publicidade de circuitos deliberativos. (ANEEL, 2025)
  • Circuito deliberativo e pipeline contínuo A ANEEL descreve o Circuito Deliberativo como modalidade instituída por atualização do regimento interno e detalhada na RN 1.133/2025, reduzindo dependência de sessões presenciais e criando cadência de análise e votação. (ANEEL, 2025)
  • Mudança de cultura: de planilha para evidência rastreável A interpretação setorial destaca o “rito decisório digital e contínuo” e a necessidade de reorganização interna para operar com dados estruturados e auditáveis. (EIXOS, 2026)
  • Implicação prática para projetos de reforço e conexão Quem não conseguir produzir evidência técnica em padrão digital tende a perder velocidade, previsibilidade e capacidade de defesa regulatória, aumentando risco de custo e atraso.

O que muda até 2030?

Três cenários ajudam a organizar decisões de investimento e governança. O ano-alvo é 2030 porque a pressão de demanda e a janela de competitividade por IA tendem a convergir antes do horizonte 2038 dos pedidos de conexão.

  1. Cenário base (provável) Adoção seletiva de gêmeos digitais em corredores críticos e subestações estratégicas, com melhorias graduais em produtividade de engenharia e priorização de conexão. A conexão de grandes projetos melhora, mas permanece sujeita a gargalos regionais e à variabilidade de carga. O risco é curtailment pontual ou exigência de mitigação do lado do cliente.
  2. Cenário otimista (acelerado) Integração entre transmissoras, ONS, distribuidoras e grandes consumidores, com modelos digitais como referência técnica para decisão e auditoria. A capacidade operacional é ampliada por melhor uso de ativos e gestão dinâmica baseada em dados, e o Brasil ganha tração como polo de computação com energia renovável. A condição é governança forte e padrões de dados consistentes.
  3. Cenário estressado (lento) Digitalização fragmentada, com resistência organizacional e baixa interoperabilidade. A expansão de clusters de IA aumenta volatilidade local e pressiona qualidade de energia, elevando risco de eventos com impacto reputacional e regulatório. Investimento migra para mercados com maior previsibilidade de conexão e reforço.

Recomendações práticas

  • Em 90 dias: auditoria de capacidade “escondida” e risco de conexão
    • Diagnóstico de corredores críticos com base em dados disponíveis e priorização de gargalos onde há demanda concreta.
    • Piloto de gêmeo digital habilitado pela física em um trecho com restrição conhecida, com premissas explícitas e trilha de evidência. (NEARA, 2026)
    • Mapa de risco reputacional e ESG associando confiabilidade, água e emissões a stakeholders e obrigações corporativas. (S&P GLOBAL, 2025)
  • Em 180 dias: integração de dados operacionais e alinhamento regulatório
    • Integração com dados operacionais e de condição de ativos para simulação e priorização de manutenção e reforços. (INFOSYS, 2025; CEPEL, 2025)
    • Protocolos de validação e auditoria para sustentar decisões perante o regulador no novo padrão de evidência digital. (ANEEL, 2025; EIXOS, 2026)
    • Acordos técnicos com grandes cargas sobre requisitos de proteção, ride-through e comunicação de eventos, reduzindo risco de desligamento agregado. (NERC, 2024)
  • Em 12 meses: plataforma de transparência, eficiência e confiança
    • Modelo operacional com indicadores executivos conectando confiabilidade, custo, prazo e risco em linguagem de diretoria.
    • Relatórios auditáveis para ESG com recorte por cliente, área e ativos críticos, sustentando governança e reputação. (S&P GLOBAL, 2025)
    • Arquitetura de segurança e governança de dados para garantir que a digitalização não vire superfície de ataque nem fonte de inconsistência.

Conclusão

A expansão da IA é uma corrida por capacidade, mas também por governança. O risco é tratar o tema como uma disputa de megawatts quando, na prática, ele é uma disputa de previsibilidade e confiança. O caso de 2024 nos EUA mostrou que cargas do tipo data center podem produzir perdas agregadas de grande escala por comportamento do lado do cliente, e isso muda a conversa sobre coordenação técnica e resiliência. (NERC, 2024) No Brasil, a evidência de 26,3 GW em pedidos de conexão à Rede Básica até 2038 reforça que o problema é real e já está na fila. (MEGAWHAT, 2025)

A boa notícia é que existe um caminho de execução: gêmeos digitais habilitados pela física, combinados com processos regulatórios mais digitais, podem transformar ativos legados em capacidade operacional adicional com rastreabilidade. O objetivo não é operar no limite por imprudência; é operar com inteligência, premissas explícitas e controle de risco. Quem conseguir alinhar engenharia, dados e regulação em uma única narrativa de evidência tende a reduzir tempo de conexão, proteger reputação e capturar a janela econômica da IA com estabilidade do SIN. O ponto é simples: a IA é digital, mas a sua âncora competitiva continua sendo, irremediavelmente, física.

Referências bibliográficas (ABNT)

ANEEL. ANEEL realiza o 1º Circuito Deliberativo Público Ordinário. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2025/aneel-realiza-o-1o-circuito-deliberativo-publico-ordinario. Acesso em: fev. 2026.

ANEEL. Resolução Normativa nº 1.133, de 25 de agosto de 2025. Aprova a Norma de Organização nº 1. 2025. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2025/09/RESOLUCAO-NORMATIVA-No-1.133-DE-25-DE-AGOSTO-DE-2025-RESOLUCAO-NORMATIVA-No-1.133-DE-25-DE-AGOSTO-DE-2025-DOU-Imprensa-Nacional.pdf. Acesso em: fev. 2026.

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