A Era da Inteligência Física: Uma Análise Estratégica do Roteiro Tecnológico da NVIDIA na CES 2026

1. Introdução: O Momento de Inflexão da Inteligência Artificial

A Consumer Electronics Show (CES) de 2026, realizada em Las Vegas, marcou um ponto de inflexão definitivo na trajetória histórica da inteligência artificial. Se a última meia década foi definida pela ascensão da IA Generativa — a capacidade de sintetizar texto, imagens e vídeos a partir de vastos corpora de dados digitais —, o keynote apresentado pelo CEO da NVIDIA, Jensen Huang, sinalizou o início de uma nova era: a era da “IA Física”.1 Este relatório oferece uma análise exaustiva e detalhada das tecnologias, arquiteturas e estratégias anunciadas, dissecando como a convergência entre computação acelerada, modelos de raciocínio e robótica está preparada para reestruturar a base industrial global de US$ 100 trilhões.2

A tese central apresentada pela NVIDIA é que os gargalos que historicamente limitaram a implantação de sistemas robóticos e autônomos não são mais mecânicos, mas sim cognitivos e computacionais. A “robotização” do mundo físico exige que as máquinas não apenas sigam instruções programadas, mas que compreendam, raciocinem e interajam com as leis imutáveis da física — gravidade, atrito, inércia e causalidade.2 Para viabilizar essa transformação, a NVIDIA revelou uma tríade tecnológica integrada: a plataforma de supercomputação Vera Rubin, a arquitetura de veículos autônomos baseada em raciocínio Alpamayo, e os modelos de fundação de mundo Cosmos.2

Ao contrário de eventos anteriores focados em hardware gráfico para consumidores, a CES 2026 da NVIDIA foi uma declaração de infraestrutura para a “AI Factory” (Fábrica de IA). A ausência de novas placas gráficas GeForce para o mercado de consumo reforçou a mensagem de que o foco estratégico da empresa deslocou-se decisivamente para o fornecimento da utilidade básica da próxima revolução industrial: o token de raciocínio físico.1 Este documento explora as nuances técnicas dessas inovações, suas interdependências arquitetônicas e as profundas implicações econômicas e geopolíticas de uma cadeia de suprimentos de inteligência verticalmente integrada.

2. A Filosofia da IA Física: Do Digital para o Tangível

2.1 Definindo a IA Física e o “Momento ChatGPT” da Robótica

Jensen Huang utilizou repetidamente a analogia do “Momento ChatGPT para a IA Física” para descrever o estágio atual da tecnologia robótica.3 Para compreender a magnitude desta afirmação, é necessário analisar a evolução dos paradigmas de IA. A primeira onda, focada em percepção (2012-2017), permitiu que computadores “vissem” e classificassem objetos. A segunda onda, a generativa (2018-2025), permitiu que manipulassem símbolos e pixels. A terceira onda, a IA Física, exige que modelos de Visão-Linguagem-Ação (VLA) prevejam a próxima ação necessária para atingir um objetivo em um ambiente dinâmico e não estruturado.7

A distinção fundamental reside na introdução do “raciocínio” (reasoning) no ciclo de controle. Robôs tradicionais operam em ambientes controlados com trajetórias pré-determinadas. A IA Física, habilitada pelos novos modelos anunciados, permite que agentes robóticos generalizem conhecimentos. Um robô equipado com esses modelos não precisa ser programado explicitamente para “pegar uma xícara”; ele entende o conceito de “xícara”, a física de “pegar” e a fragilidade do “vidro”, permitindo-lhe adaptar-se a objetos nunca vistos antes.2

2.2 Os Três Pilares da Estratégia da NVIDIA

A estratégia da NVIDIA para dominar este setor baseia-se em um fluxo de trabalho tripartite que resolve o problema da escassez de dados no mundo físico:

  1. Simulação de Alta Fidelidade (Cosmos): A utilização de modelos generativos de mundo para criar “gêmeos digitais” onde robôs podem treinar por milhões de anos simulados, aprendendo com falhas que seriam catastróficas no mundo real.2
  2. Computação de Raciocínio (Vera Rubin): O fornecimento de uma infraestrutura de hardware capaz de processar modelos de trilhões de parâmetros com a baixa latência necessária para interação em tempo real.10
  3. Modelos de Borda (Alpamayo/GR00T): A destilação da inteligência da nuvem para o dispositivo, permitindo inferência local em veículos e humanoides.3

Este ecossistema integrado visa transformar a robótica de um campo de hardware especializado em um problema de software e dados, onde a NVIDIA detém a plataforma dominante.

3. A Arquitetura Vera Rubin: O Motor da Fábrica de IA

O anúncio mais significativo em termos de infraestrutura computacional foi o lançamento oficial da plataforma Vera Rubin. Nomeada em homenagem à astrônoma Vera Cooper Rubin, cujas observações confirmaram a existência da matéria escura, esta arquitetura representa a terceira geração de sistemas de escala de rack da NVIDIA e um afastamento radical do design de servidores tradicionais.11

3.1 Co-Design Extremo: A Estratégia de Seis Chips

A plataforma Rubin é definida pelo que a NVIDIA denomina “co-design extremo”. Em vez de otimizar componentes isoladamente, a empresa projetou seis chips distintos para funcionarem como um único organismo computacional. Esta integração visa eliminar os gargalos de largura de banda e latência que restringem o desempenho dos modernos modelos de Mistura de Especialistas (MoE).10

A tabela abaixo resume as especificações e funções de cada componente do ecossistema Rubin, conforme detalhado nos materiais de pesquisa 10:

ComponenteFunção PrimáriaEspecificação Chave & Inovação
GPU RubinTreinamento e Inferência de IA50 PFLOPS (Inferência NVFP4), Memória HBM4, Transistores N3
CPU VeraProcessamento “Agentic” e Host88 Núcleos Arm “Olympus”, Multithreading Espacial, 1.5TB LPDDR5X
Switch NVLink 6Comunicação Inter-GPU3.6 TB/s por GPU, 260 TB/s de largura de banda por rack
ConnectX-9 SuperNICRede Scale-OutThroughput de 800 Gb/s a 1.6 Tb/s, otimizado para tráfego Leste-Oeste
BlueField-4 DPUGestão de InfraestruturaPlataforma de Armazenamento de Memória de Contexto de Inferência
Switch Spectrum-6Switching EthernetCapacidade de 51.2 Tb/s a 102.4 Tb/s, Fotônica Integrada

3.2 A GPU Rubin e a Revolução HBM4

A GPU Rubin representa um salto monumental sobre a sua antecessora, a Blackwell B200. Fabricada provavelmente em um processo de 3 nanômetros (N3) da TSMC e contendo aproximadamente 336 bilhões de transistores 14, a inovação crítica reside na sua arquitetura de memória. A Rubin integra oito pilhas de memória HBM4 (High Bandwidth Memory, 4ª geração), proporcionando uma largura de banda de memória de 22 TB/s e uma capacidade de 288 GB por GPU.10

Esta largura de banda é o fator determinante para a viabilidade econômica da IA Física. Modelos de raciocínio e MoEs são frequentemente limitados pela memória (“memory-bound”), o que significa que os núcleos de computação passam grande parte do tempo ociosos, aguardando dados. Ao quase triplicar a largura de banda em comparação com a HBM3e (que oferecia ~8 TB/s), a arquitetura Rubin garante que os 50 PFLOPS de poder computacional sejam efetivamente utilizados. Isso resulta em uma redução de 10x no custo por token de inferência e um aumento de 5x no desempenho em comparação com a geração Blackwell.10

3.3 A CPU Vera: O Processador da Era Agêntica

Enquanto as GPUs dominam o processamento paralelo massivo, a ascensão da “IA Agêntica” (Agentic AI) trouxe de volta a relevância da CPU. Agentes de IA que precisam planejar, usar ferramentas e executar sequências lógicas dependem de processamento serial de alto desempenho. A CPU Vera, baseada na arquitetura Arm v9.2 com núcleos customizados “Olympus”, foi projetada especificamente para esta carga de trabalho.14

Uma inovação central na CPU Vera é o “Multithreading Espacial” (Spatial Multithreading). Diferente do Simultaneous Multithreading (SMT) tradicional, que compartilha recursos no tempo (time-slicing) e pode introduzir latência imprevisível, o multithreading espacial particiona fisicamente os recursos do núcleo. Isso garante um desempenho determinístico, um requisito crítico para “Fábricas de IA” onde a sincronização entre milhares de processadores deve ser perfeita.15 Além disso, a CPU Vera oferece 1,5 TB de memória LPDDR5X com 1,2 TB/s de largura de banda, permitindo-lhe gerenciar o pré-processamento de dados e a orquestração de agentes sem se tornar um gargalo para as GPUs.14

3.4 Engenharia Térmica: A Revolução do Resfriamento Líquido a 45°C

Um dos aspectos mais transformadores da plataforma Rubin, com profundas implicações para a infraestrutura global de data centers, é a sua engenharia térmica. O rack Vera Rubin NVL72 foi projetado para operar eficientemente com temperaturas de entrada de líquido de até 45°C.16

A termodinâmica desta especificação altera fundamentalmente a economia operacional (OPEX) e de capital (CAPEX) das instalações de IA:

  1. Eliminação de Chillers: Data centers tradicionais resfriados a ar exigem chillers mecânicos (compressores) para manter o ar a 20-25°C, consumindo enormes quantidades de energia.
  2. Free Cooling: Ao operar com líquido a 45°C, a rejeição de calor pode ser realizada através de trocadores de calor passivos (dry coolers) ou torres adiabáticas, mesmo em climas quentes onde a temperatura ambiente chega a 35°C ou 40°C. O diferencial de temperatura ($\Delta T$) ainda permite a troca térmica eficiente.
  3. Sustentabilidade: Estima-se que isso possa eliminar a necessidade de compressores em quase todos os climas, reduzindo o consumo de energia de resfriamento em mais de 90% e permitindo um PUE (Power Usage Effectiveness) próximo de 1,05.16

O design do rack NVL72 também apresenta um sistema modular sem cabos (cable-free), onde o refrigerante e os dados fluem através de um manifold de acoplamento cego (blind-mate), facilitando a manutenção e reduzindo o tempo de montagem em 18 vezes.13

4. Alpamayo: O Cérebro da Autonomia Veicular

Se a plataforma Rubin representa o corpo da fábrica de IA, o Alpamayo é a mente projetada para navegar no mundo físico. Na CES 2026, a NVIDIA apresentou o Alpamayo não apenas como um produto, mas como um ecossistema aberto para a condução autônoma de Nível 4, desafiando diretamente as abordagens proprietárias de concorrentes como a Tesla.3

4.1 Além do Reconhecimento de Padrões: O Raciocínio na Condução

Os sistemas de veículos autônomos (AV) atuais, incluindo as iterações anteriores do FSD da Tesla, baseiam-se predominantemente no reconhecimento avançado de padrões e em redes neurais “end-to-end” que mapeiam pixels de entrada para comandos de controle. Embora eficazes na grande maioria dos cenários, esses sistemas frequentemente falham no chamado “long tail” (cauda longa) — eventos raros e complexos onde os dados históricos de treinamento são escassos.12

O Alpamayo introduz uma mudança arquitetônica fundamental ao incorporar o “Raciocínio em Cadeia de Pensamento” (Chain-of-Thought – CoT) na pilha de AV. Trata-se de um modelo de Visão-Linguagem-Ação (VLA) que não apenas reage, mas analisa. Diante de uma situação ambígua — como um policial de trânsito utilizando gestos manuais não padronizados ou uma zona de construção com sinalização contraditória — o Alpamayo gera um “traço de raciocínio”. O sistema verbaliza internamente o cenário (ex: “O semáforo está vermelho, mas um policial está gesticulando para avançar; portanto, devo ignorar o sinal e prosseguir lentamente”) antes de gerar a trajetória do veículo.7

4.2 A Arquitetura Professor-Aluno (Distillation Pipeline)

É crucial notar que o modelo Alpamayo 1, com seus 10 bilhões de parâmetros, não se destina a rodar nativamente no chip de inferência do carro para cada decisão, devido às restrições de energia e latência. A NVIDIA posiciona o Alpamayo como um “Modelo Professor” (Teacher Model).6

Neste paradigma:

  1. O Professor (Alpamayo 1): Reside no data center (na plataforma Rubin). Possui capacidades profundas de raciocínio e processa vastas quantidades de vídeo para gerar trajetórias de “verdade fundamental” (ground truth) e traços de raciocínio explicáveis.
  2. Destilação: O conhecimento e os padrões de raciocínio do Professor são “destilados” para modelos menores e mais rápidos.
  3. O Aluno: Um modelo otimizado que roda no computador de bordo do veículo (NVIDIA Drive Thor). Este modelo retém os comportamentos complexos aprendidos com o Professor, mas opera com a latência ultrabaixa (inferência em <100ms) necessária para a segurança em tempo real.21

Esta abordagem cria uma ponte entre o pensamento “Sistema 2” (lento e deliberativo) da nuvem e o pensamento “Sistema 1” (rápido e instintivo) do veículo.

4.3 Estratégia Open Source: O “Momento Android” para AVs

Talvez o aspecto mais disruptivo do anúncio do Alpamayo seja o seu modelo de licenciamento. A NVIDIA lançou os pesos do modelo Alpamayo 1, o framework de simulação AlpaSim e um conjunto de dados de 1.700 horas de condução como código aberto (disponíveis no Hugging Face).3

Esta é uma manobra estratégica clássica destinada a minar integradores verticais como Tesla e Waymo. Ao fornecer um “kit inicial” de alta qualidade para a autonomia de Nível 4, a NVIDIA reduz drasticamente a barreira de entrada para montadoras tradicionais (Mercedes-Benz, JLR, Hyundai). A mensagem implícita é: “Aqui está o cérebro de software gratuitamente; vocês só precisam comprar nossos chips (Rubin para treinamento, Thor para o carro) para executá-lo”. Isso espelha a estratégia do Android da Google: comoditizar o sistema operacional para garantir o monopólio da plataforma.23

4.4 Estudo de Caso: Mercedes-Benz CLA

A capacidade teórica do Alpamayo já está em transição para a produção. O Mercedes-Benz CLA 2026 foi anunciado como o primeiro veículo de produção a apresentar essa autonomia baseada em raciocínio.25 Classificado pela NVIDIA e Mercedes como possuindo capacidades de condução autônoma “Level 4-ready”, o sistema permite navegação ponto a ponto em ambientes urbanos. O CEO Jensen Huang descreveu-o como o “carro mais seguro do mundo” devido à sua capacidade de antecipar comportamentos irracionais de outros agentes através do raciocínio causal.1 Embora inicialmente implantado sob supervisão humana (Nível 2++), a arquitetura de software está preparada para autonomia total à medida que a validação regulatória permitir.

4.5 Comparativo: NVIDIA Alpamayo vs. Tesla FSD

A divergência filosófica e técnica entre a NVIDIA e a Tesla é profunda:

CaracterísticaTesla FSD (v12/v13)NVIDIA Alpamayo
ArquiteturaEnd-to-End Neural Net (Rede Neural Ponta-a-Ponta)Vision-Language-Action (VLA) com Raciocínio (CoT)
AprendizadoImitação (Imitation Learning) baseada em vídeo massivoRaciocínio Causal e Aprendizado por Reforço (RL)
Edge CasesResolve via ingestão de mais dados de vídeoResolve via raciocínio lógico e generalização
Explicabilidade“Caixa Preta” (Opaca)Gera traços de raciocínio explicáveis (Transparente)
EcossistemaFechado/Vertical (Hardware + Software Tesla)Aberto/Horizontal (Software Open Source + Hardware NVIDIA)

Enquanto a Tesla aposta que dados suficientes de vídeo podem ensinar um carro a dirigir “por instinto”, a NVIDIA aposta que o carro deve “entender” o mundo para navegar com segurança absoluta.28

5. Cosmos: Os Modelos de Fundação de Mundo

Para treinar agentes de IA Física como o Alpamayo e robôs humanoides, são necessárias quantidades de dados que superam o que é fisicamente possível coletar no mundo real. A solução da NVIDIA é o Cosmos, um conjunto de Modelos de Fundação de Mundo (WFMs) projetados para simular a realidade física com fidelidade indistinguível.2

5.1 Simulando a Física com IA Generativa

O Cosmos não é um motor de física tradicional (que calcula dinâmica de corpos rígidos baseada em fórmulas newtonianas). Em vez disso, é um modelo de IA generativa treinado para prever a física. Ele entende luz, massa, atrito e interação através da observação de milhões de horas de vídeo.

A suíte Cosmos consiste em três módulos principais 30:

  1. Cosmos Predict: Um modelo de geração de vídeo que prevê os estados futuros de um ambiente dinâmico. Ele pode gerar até 30 segundos de vídeo contínuo e fisicamente consistente a partir de uma única imagem ou prompt. Isso permite que robôs “sonhem” futuros potenciais e avaliem as consequências de suas ações antes de executá-las no mundo real.
  2. Cosmos Reason: Um modelo “Crítico”. Ele assiste às simulações ou vídeos do mundo real e avalia o desempenho usando raciocínio. Ele pode identificar por que um robô falhou (ex: “O robô escorregou porque o piso estava molhado e o atrito foi reduzido”) e gerar recompensas para retreinar a política de controle.9
  3. Cosmos Transfer: Um modelo de adaptação de domínio. Ele pega uma simulação crua (que pode parecer um videogame) e a “transfere” para vídeo fotorrealista, ou altera as condições ambientais (ex: transformar um dia ensolarado em uma noite com neve). Isso cria variações infinitas de dados de treinamento a partir de fontes limitadas.32

5.2 Fechando a Lacuna “Sim-to-Real”

A lacuna entre simulação e realidade (Sim-to-Real gap) tem sido o calcanhar de Aquiles da robótica; robôs treinados em simulações frequentemente falham no mundo real porque as simulações carecem do ruído e da complexidade da realidade. O Cosmos preenche essa lacuna usando IA Generativa para tornar as simulações visualmente e fisicamente precisas. A NVIDIA cria um “gêmeo digital” de uma fábrica ou cidade, treina o cérebro do robô dentro deste ambiente usando Cosmos, e então implanta o modelo treinado em um robô físico, com taxas de sucesso sem precedentes.2

6. Robótica e Borda: O Ecossistema Isaac e GR00T

A culminação do Rubin (computação), Alpamayo (raciocínio) e Cosmos (simulação) é a plataforma de robótica Isaac. Na CES 2026, Jensen Huang apresentou um futuro povoado por humanoides e robôs autônomos, sustentado pela iniciativa Project GR00T (Generalist Robot 00 Technology).3

6.1 Isaac GR00T e os Humanoides

O Isaac GR00T 1.6 é um modelo de fundação especificamente para robôs humanoides. É um modelo VLA que permite o controle de corpo inteiro, coordenando o caminhar, o equilíbrio e a manipulação manual simultaneamente a partir de comandos de linguagem natural.3

A NVIDIA não está construindo os corpos dos robôs; está construindo o cérebro e o sistema nervoso. Parceiros anunciados na CES incluem Boston Dynamics (com o novo Atlas elétrico), Agility Robotics (Digit) e Fourier Intelligence. Essas empresas utilizam o computador Jetson Thor (o equivalente robótico do Drive Thor) para executar os modelos GR00T na borda.8

6.2 Jetson Thor: O Supercomputador Embarcado

O hardware habilitador para esses robôs é o Jetson Thor. Baseado na arquitetura Blackwell, ele oferece 800 TFLOPS de desempenho de IA em um envelope de energia compatível com baterias. Sua função é permitir que o robô execute modelos de raciocínio complexos localmente, garantindo autonomia mesmo sem conexão com a nuvem.34

6.3 Gêmeos Digitais Industriais

A aplicação destas tecnologias estende-se a “robôs estáticos” — fábricas inteiras. A NVIDIA anunciou expansões na sua plataforma Omniverse, permitindo “Gêmeos Digitais” de plantas de manufatura. Em parceria com a Siemens, a NVIDIA está integrando sua pilha de IA na automação industrial. Uma fábrica pode ser simulada no Omniverse, otimizando linhas de montagem e logística antes de comprar uma única máquina física.2

7. Análise Econômica, Geopolítica e de Mercado

7.1 O Modelo de Utilidade da NVIDIA

Os anúncios da CES 2026 confirmam a transição da NVIDIA de fornecedora de hardware para uma provedora de utilidade de pilha completa (full-stack utility provider). Ao controlar o chip (Rubin), a interconexão (NVLink), o software (CUDA/Isaac), a simulação (Cosmos/Omniverse) e os modelos de fundação (Alpamayo/GR00T), a NVIDIA extrai valor em cada camada.

O “token de inferência” está se tornando uma nova unidade de valor econômico. Com a plataforma Rubin reduzindo o custo de inferência em 10x, a NVIDIA está tentando tornar o raciocínio físico economicamente viável para implantação em massa. O objetivo é induzir o Paradoxo de Jevons: à medida que o custo do “raciocínio” cai, a demanda por ele explodirá, levando à implantação de bilhões de agentes autônomos.10

7.2 Análise Competitiva: O Fosso Defensivo

A estratégia aberta da NVIDIA cria um fosso defensivo massivo. Enquanto a Tesla tenta resolver a autonomia sozinha, a NVIDIA capacita todos os outros fabricantes a competir. Quanto mais empresas adotarem o Alpamayo e o Isaac, mais entrincheirado se torna o ecossistema CUDA/Rubin. Isso torna extremamente difícil para concorrentes de chips (como AMD ou Intel) ganharem participação de mercado, pois o software de robótica do mundo estará sendo escrito para as bibliotecas da NVIDIA.37

7.3 Riscos e Desafios

Apesar do triunfalismo do keynote, riscos significativos permanecem:

  • Inércia de Adoção: A IA Física é mais difícil de implantar do que a digital. Uma alucinação de chatbot gera um poema ruim; uma alucinação de robô pode ferir um trabalhador. A validação de segurança para autonomia de Nível 4 é imensa e a aprovação regulatória é um gargalo principal.37
  • Consumo de Energia: Embora a arquitetura Rubin seja eficiente, a demanda agregada de energia das “Gigawatt AI Factories” é colossal. A dependência de redes elétricas robustas e a necessidade de resfriamento líquido colocam um fardo pesado sobre a infraestrutura global.18
  • Soberania e Geopolítica: A concentração de tal capacidade de infraestrutura crítica (IA Física) em chips projetados pelos EUA e fabricados em Taiwan continua a ser um ponto de inflamação geopolítico. A restrição de exportação de chips de ponta para a China força concorrentes a buscar arquiteturas alternativas, potencialmente bifurcando o mercado global de IA.37

8. Conclusão: A Nova Revolução Industrial

A CES 2026 será provavelmente lembrada como o momento em que a NVIDIA desacoplou a IA da tela. Com a plataforma Rubin, a empresa construiu o motor para a próxima era industrial. Com Alpamayo e Cosmos, escreveu o manual de operações. A mudança para a “IA Física” move a indústria para além da novidade dos chatbots, entrando em uma fase onde a automação reconfigura fundamentalmente o trabalho, a logística e o transporte.

Ao democratizar o “cérebro” do robô através de modelos abertos, a NVIDIA posicionou-se como o arquiteto indispensável desta transformação física, apostando que, em um mundo de agentes autônomos, aquele que vende a capacidade de “raciocinar” domina o mercado. A fusão de bits e átomos não é mais ficção científica; é uma realidade de engenharia sendo construída em silício, resfriada a líquido e implantada na borda da rede global.

  1. TOM’S GUIDE. Nvidia CES 2026 keynote LIVE: All the biggest announcements from Jensen Huang and what to expect from GeForce On. Disponível em: https://www.tomsguide.com/news/live/nvidia-ces-2026-keynote-live. Acesso em: 06 jan. 2026.
  2. MK. The Next Big Thing in Artificial Intelligence Unveiled… Jensen Huang Declares the Era of Physical AI [CES 2026]. Disponível em: https://www.mk.co.kr/en/business/11924292. Acesso em: 06 jan. 2026.
  3. THE ECONOMIC TIMES. CES 2026: All you need to know about Nvidia’s major announcements. Disponível em: https://m.economictimes.com/tech/technology/ces-2026-all-you-need-to-know-about-nvidias-major-announcements/articleshow/126369415.cms. Acesso em: 06 jan. 2026.
  4. REDDIT (r/stocks). What are the significant announcements made today by Nvidia CEO Jensen Huang at CES 2026. Disponível em: https://www.reddit.com/r/stocks/comments/1q56jv9/what_are_the_significant_announcements_made_today/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  5. MASHABLE. CES 2026 live: News, announcements, and cool finds from LG, Samsung, Lego. Disponível em: https://mashable.com/live/ces-2026-news-live-updates. Acesso em: 06 jan. 2026.
  6. SILICON REPUBLIC. Nvidia unveils open-source AI models for next-gen self-driving vehicles. Disponível em: https://www.siliconrepublic.com/business/nvidia-ai-autonomous-vehicle-technology-artificial-intelligence-alpamayo. Acesso em: 06 jan. 2026.
  7. 36KR. New NVIDIA Autonomous Driving Model Unveiled. Disponível em: https://eu.36kr.com/en/p/3627692646450179. Acesso em: 06 jan. 2026.
  8. NVIDIA. NVIDIA and US Manufacturing and Robotics Leaders Drive America’s Reindustrialization With Physical AI. Disponível em: https://investor.nvidia.com/news/press-release-details/2025/NVIDIA-and-US-Manufacturing-and-Robotics-Leaders-Drive-Americas-Reindustrialization-With-Physical-AI/default.aspx. Acesso em: 06 jan. 2026.
  9. NVIDIA. Curating Synthetic Datasets to Train Physical AI Models with NVIDIA Cosmos Reason. Disponível em: https://developer.nvidia.com/blog/curating-synthetic-datasets-to-train-physical-ai-models-with-nvidia-cosmos-reason/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  10. TOM’S HARDWARE. Nvidia launches Vera Rubin NVL72 AI supercomputer at CES promises up to 5x greater inference performance and 10x lower cost per token than Blackwell coming 2h 2026. Disponível em: https://www.tomshardware.com/pc-components/gpus/nvidia-launches-vera-rubin-nvl72-ai-supercomputer-at-ces-promises-up-to-5x-greater-inference-performance-and-10x-lower-cost-per-token-than-blackwell-coming-2h-2026. Acesso em: 06 jan. 2026.
  11. NVIDIA. NVIDIA Kicks Off the Next Generation of AI With Rubin: Six New Chips, One AI Supercomputer. Disponível em: https://nvidianews.nvidia.com/news/rubin-platform-ai-supercomputer. Acesso em: 06 jan. 2026.
  12. NVIDIA. NVIDIA Announces Alpamayo Family of Open-Source AI Models and Tools to Accelerate Safe, Reasoning-Based Autonomous Vehicle Development. Disponível em: https://nvidianews.nvidia.com/news/alpamayo-autonomous-vehicle-development. Acesso em: 06 jan. 2026.
  13. STORAGEREVIEW. NVIDIA Launches Vera Rubin Architecture at CES 2026: The VR NVL72 Rack. Disponível em: https://www.storagereview.com/news/nvidia-launches-vera-rubin-architecture-at-ces-2026-the-vr-nvl72-rack. Acesso em: 06 jan. 2026.
  14. THE NEXT PLATFORM. Nvidia’s Vera-Rubin Platform Obsoletes Current AI Iron Six Months Ahead Of Launch. Disponível em: https://www.nextplatform.com/2026/01/05/nvidias-vera-rubin-platform-obsoletes-current-ai-iron-six-months-ahead-of-launch/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  15. NVIDIA. Inside the NVIDIA Rubin Platform: Six New Chips, One AI Supercomputer. Disponível em: https://developer.nvidia.com/blog/inside-the-nvidia-rubin-platform-six-new-chips-one-ai-supercomputer/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  16. COMMUNICATIONS OF THE ACM. A Liquid Runs Through It. Disponível em: https://cacm.acm.org/news/a-liquid-runs-through-it/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  17. NADDOD. Data Center Liquid Cooling Technology and Trends Analysis. Disponível em: https://www.naddod.com/blog/data-center-liquid-cooling-technology-and-trends-analysis. Acesso em: 06 jan. 2026.
  18. NVIDIA. NVIDIA, Partners Drive Next-Gen Efficient Gigawatt AI Factories in Buildup for Vera Rubin. Disponível em: https://blogs.nvidia.com/blog/gigawatt-ai-factories-ocp-vera-rubin/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  19. SILICONANGLE. Nvidia at CES: Alpamayo signals the real arrival of physical AI. Disponível em: https://siliconangle.com/2026/01/05/nvidia-ces-alpamayo-signals-real-arrival-physical-ai/. Acesso em: 06 jan. 2026.
  20. NVIDIA. Building Autonomous Vehicles That Reason with NVIDIA Alpamayo. Disponível em: https://developer.nvidia.com/blog/building-autonomous-vehicles-that-reason-with-nvidia-alpamayo/. Acesso em: 06 jan. 2026.
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  22. HUGGING FACE. nvidia/Alpamayo-R1-10B. Disponível em: https://huggingface.co/nvidia/Alpamayo-R1-10B. Acesso em: 06 jan. 2026.
  23. THE TECH BUZZ. Nvidia Drops First Open AI Model for Self-Driving Cars. Disponível em: https://www.techbuzz.ai/articles/nvidia-drops-first-open-ai-model-for-self-driving-cars. Acesso em: 06 jan. 2026.
  24. STOCK TITAN. Nvidia CES 2026: Alpamayo Open-Source AI Marks Physical AI Era. Disponível em: https://www.stocktitan.net/articles/nvidia-ces-2026-alpamayo-physical-ai. Acesso em: 06 jan. 2026.
  25. GURUFOCUS. Nvidia (NVDA) Unveils Alpamayo for Autonomous Driving at CES 2026. Disponível em: https://www.gurufocus.com/news/4095651/nvidia-nvda-unveils-alpamayo-for-autonomous-driving-at-ces-2026. Acesso em: 06 jan. 2026.
  26. MERCEDES-BENZ. Mercedes-Benz at CES 2026: Showcasing Digital Innovations With Leading Partners. Disponível em: https://media.mbusa.com/releases/mercedes-benz-at-ces-2026-showcasing-digital-innovations-with-leading-partners. Acesso em: 06 jan. 2026.
  27. TOM’S HARDWARE. Nvidia CES 2026 keynote live blog: Jensen Huang takes the stage to reveal what’s next for the AI company, but don’t expect new consumer GPUs. Disponível em: https://www.tomshardware.com/news/live/nvidia-ces-2026-live-blog. Acesso em: 06 jan. 2026.
  28. REDDIT (r/teslainvestorsclub). I tested Nvidia’s Tesla Full Self-Driving competitor: Tesla should be worried. Disponível em: https://www.reddit.com/r/teslainvestorsclub/comments/1q52shb/i_tested_nvidias_tesla_full_selfdriving/. Acesso em: 06 jan. 2026.
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