Controle da demanda de energia é uma questão de sobrevivência empresarial

Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o aumento da energia resultará um custo estrutural de R$401,30 por MWh até o final de 2015 para a indústria. Em 2013, o custo médio da indústria era de R$263,00 por MWh. A introdução das bandeiras tarifárias em 2015 representará um custo adicional de R$18,90 nos custos da indústria, elevando o custo da energia para R$420,20 por MWh. Isso associado ao baixo crescimento previsto da economia brasileira, exigirá ações drásticas de redução de custos nas empresas. A velha expressão “pense fora da caixa” deverá passar do discurso para a prática. Algumas ações deverão ser articuladas por sindicatos patronais e associações de empresas e sociedade em geral.

Vamos começar com uma breve revisão do modelo do setor elétrico no Brasil. Nosso modelo, como em vários países, é regulado pelo governo para garantir a infraestrutura de geração, transmissão e distribuição de energia necessária para garantir a demanda em todas as regiões do país. O modelo inclui a concessão para empresas privadas explorarem mercados cativos de consumidores em regiões definidas pelo governo e distribuídas através de leilões públicos. A compra de energia pelas concessionárias de distribuição é feita através de leilão de energia já disponível das usinas geradoras, chamados leilões A1, e através de compromissos de compra de energia de usinas planejadas ou em construção com previsão de entrada em operação em 3 e 5 anos, chamados leilões A3 e A5, respectivamente. A construção e manutenção das linhas de transmissão de alta tensão também são concessões e obtidas através de leilão.

A composição da matriz energética é planejada para ser diversificada, incluindo hidrelétricas, termelétricas, eólicas, biomassa e fotovoltaicas. Para incentivar a diversificação da matriz e evitar disparidade de preços devido as diferentes tecnologias são realizados leilões específicos para novas tecnologias, como eólica e fotovoltaica. Também, existem leilões específicos para PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas).

Existem duas formas de comercialização de energia: por quantidade e por disponibilidade. Por quantidade, é a compra de montantes de energia nos leilões por um preço fixo, normalmente, aplicáveis para hidrelétrica em leilões A1. Nesta modalidade, os geradores estão sujeitos a riscos de sobras ou déficits de energia que devem ser liquidados no mercado spot (PLD – Preço de Liquidação da Diferenças). Esses riscos são minimizados pelo chamado Mecanismo de Realocação de Energia (MRE) entre as usinas participantes do sistema integrado nacional (SIN). Por disponibilidade, é quando uma usina geradora é remunerada para manter uma determinada capacidade de energia de reserva para ser acionada (despachada) quando necessário. Quando acionada, os custos operacionais são cobrados adicionalmente, como por exemplo o combustível utilizado na geração de energia.

Devido à crise hídrica que assola a região sudeste houve uma redução de geração de energia pelas hidrelétricas compensada pela geração das termelétricas, acionando os contratos por disponibilidade, aumentando os custos de geração de energia. Esse custo adicional é pago pelos consumidores em suas contas de energia através das bandeiras tarifárias. A Aneel determina no final de cada mês qual será a bandeira (verde, amarela ou vermelha) do próximo mês. A bandeira vermelha significa um custo adicional de R$3,00 para cada 100 kW consumido. A bandeira amarela, um custo adicional de R$1,50 para 100 kW consumidos e a bandeira verde sem custo adicional. As bandeiras tarifárias são definidas por região (Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte) com exceção dos Estados que não estão no sistema integrado.

Com as intensas ondas de calor existe um aumento da demanda de energia com o uso de equipamentos de ar condicionado, ventiladores e aumento do número de banhos com chuveiros elétricos. Praticamente, o sistema elétrico está operando a plena carga todo o dia. Começa pela manhã com o acionamento do ar condicionado nos escritórios se prolongando a noite nas residências, incluindo os banhos usando chuveiros elétricos a partir das 18 horas até as 21 horas (cerca de 111 milhões nesse período). Isso faz com que o ONS, Operador Nacional do Sistema, ordene o despacho de energia das termelétricas do início do dia até a noite. Esse fato é o que determina a bandeira tarifária vermelha.

Note que temos uma redução significativa de demanda entre 22h00 e 7h00, ou seja, na madrugada. Em tese, o valor definido para cada bandeira tarifária já leva em consideração esse fato.

Para reduzir as despesas operacionais das empresas deve-se reduzir a demanda e o consumo de energia para compensar a alta do preço da energia. Para consumidores industriais e comerciais com demandas acima de 500 kW é possível negociar a compra de energia através do mercado livre. Para consumidores cativos, comerciais e residenciais, que pagam as tarifas definidas pela Aneel, têm como única alternativa a redução da demanda (kW) e o consumo de energia (kWh).

Explicando, demanda é a quantidade de energia necessária para fazer funcionar todos os equipamentos elétricos ligados em um determinado momento. Consumo é o tempo que utilizamos a energia ao longo de um período. As instalações industriais e comerciais pagam uma taxa fixa para que a concessionária garanta uma determinada demanda. Se a demanda utilizada for maior que a contratada é cobrado um valor adicional e o consumidor deve contratar uma demanda maior se isso ocorrer com frequência.

As concessionárias de distribuição contratam montantes de energia nos leilões baseadas nas estimativas de demanda do seu mercado cativo. Caso necessite demandas adicionais, devem comprar energia no mercado spot, com preços significativamente maiores, sem poder transferir para as contas dos consumidores, exceção daqueles que contrataram demandas menores. Isso faz com que as concessionárias de distribuição se preocupem e incentivem o controle da demanda de seus usuários cativos. A Aneel, obriga as distribuidoras a investirem 0,25% da sua receita líquida em projetos de redução da demanda na sua área de concessão. Projetos comuns são a troca de geladeiras antigas por novas e substituição de lâmpadas antigas por mais eficientes para comunidades de baixa renda, gratuitamente. Existem projetos de troca de sistemas de ar condicionado antigos por novos em órgãos públicos e hospitais. Essa verba pode ser utilizada a fundo perdido ou para financiar projetos em empresas privadas com taxas muito atrativas.

Os workshops e projetos que realizo sobre eficiência energética tem estimulado a criatividade de técnicos e executivos. Por exemplo, repensar o processo de produção para acionar máquinas em diferentes horários para reduzir a demanda de energia ou transferir a produção para o período noturno para reduzir o uso de ar condicionado, negociando melhores tarifas com a distribuidora. Mesmo com o pagamento de adicional noturno para os funcionários, alguns projetos são atraentes.

Existem muitas alternativas para a redução de demanda e consumo de energia. O importante é a empresa considerar esse assunto estratégico e envolver todos os funcionários na identificação de oportunidades. Uma forma de estruturar essa iniciativa é adotar uma metodologia aderente a ISO 50.001 para avaliar e implantar as melhores ideias. Isso não é uma atividade “nice to have”, hoje é uma questão de sobrevivência das empresas.

 

Deixe uma resposta