Autor: Eduardo Fagundes

  • Agro 2026: O Fim da Neutralidade e a Ascensão da Fazenda Resiliente

    Agro 2026: O Fim da Neutralidade e a Ascensão da Fazenda Resiliente

    Resumo Executivo

    O ano de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para o agronegócio brasileiro, não apenas como setor econômico, mas como peça central em um tabuleiro geopolítico reconfigurado. A confluência do retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a escalada das tensões comerciais com a China e a maturação de tecnologias disruptivas de energia renovável cria um cenário de volatilidade sem precedentes, mas também de oportunidades estruturais únicas. Este relatório, fundamentado em uma análise de inteligência de mercado, dados macroeconômicos e tendências tecnológicas emergentes, disseca os impactos da nova política externa americana para a América Latina e como ela catalisa a adoção de modelos de negócios baseados em AgriPV (Agrivoltaica) e P2X (Power-to-X) no Brasil.

    A nova doutrina de Washington, caracterizada pela diplomacia transacional e pela exigência de alinhamento estratégico contra a influência chinesa, impõe ao Brasil dilemas complexos. A ameaça de tarifas punitivas coexiste com a promessa de investimentos vultosos via Development Finance Corporation (DFC), desenhados para integrar o Brasil às cadeias de suprimento ocidentais de minerais críticos e energia limpa. Neste contexto, a dependência brasileira de fertilizantes importados — exacerbada por novas restrições de exportação da China e pela instabilidade contínua na Rússia — transforma-se de uma vulnerabilidade comercial em um imperativo de segurança nacional.

    A resposta estratégica a este cerco geopolítico reside na “independência energética e de insumos” da propriedade rural. A tecnologia AgriPV, que permite a produção simultânea de alimentos e eletricidade, e a tecnologia P2X, que converte essa energia em hidrogênio e amônia verde (substituindo fertilizantes fósseis), deixam de ser utopias ambientais para se tornarem os únicos hedges eficazes contra a inflação de custos e a escassez global. No entanto, a viabilidade dessa transição enfrenta o obstáculo de uma política monetária restritiva, com a taxa Selic estacionada em 15% ao ano, o que asfixia o crédito tradicional e força o surgimento de novos ecossistemas financeiros, como os Fiagros de infraestrutura, os CRAs Verdes e a tokenização de ativos via Drex.

    Este documento detalha, ao longo de suas seções, como a integração dessas tecnologias pode blindar o agronegócio brasileiro, transformando produtores de price takers no mercado de commodities em gestores de ativos energéticos e ambientais complexos.

    1. O Novo Tabuleiro Geopolítico: A Doutrina Trump 2.0 e o Cerco Hemisférico

    A reconfiguração da política externa dos Estados Unidos sob a administração Trump em 2025/2026 representa uma ruptura fundamental com as décadas de “negligência benigna” ou cooperação multilateral que caracterizaram as relações interamericanas anteriores. A nova abordagem, descrita explicitamente em documentos da Casa Branca como “paz através da força”, revitaliza preceitos da Doutrina Monroe adaptados para a era da competição entre grandes potências, posicionando a América Latina não apenas como zona de influência, mas como fronteira ativa de contenção da expansão chinesa.

    1.1. A Diplomacia Coercitiva de Marco Rubio e as Tarifas como Arma

    A nomeação de Marco Rubio como Secretário de Estado sinaliza a priorização de uma postura “hawkish” (linha-dura) em relação aos governos latino-americanos que mantêm laços estreitos com rivais estratégicos dos EUA. A política comercial, anteriormente gerida em silos técnicos, foi totalmente subsumida pela estratégia de segurança nacional. Para o Brasil, isso se traduz em um ambiente de negociação de alta pressão, onde o acesso ao mercado americano é condicionado ao alinhamento político.

    A administração Trump não hesitou em utilizar tarifas como instrumento de coerção diplomática. A ameaça de imposição de sobretaxas de até 50% sobre produtos brasileiros, incluindo aço e itens do agronegócio, gerou um choque de realidade em Brasília. Diferente de disputas anteriores focadas em dumping ou subsídios específicos, estas tarifas possuem uma natureza política explícita: servem como alavanca para forçar o Brasil a reconsiderar sua dependência tecnológica e de infraestrutura em relação à China. As negociações em Washington, lideradas pelo chanceler Mauro Vieira, revelaram que o alívio tarifário está intrinsecamente ligado a contrapartidas geopolíticas, como a exclusão de empresas chinesas de leilões de infraestrutura crítica e um posicionamento mais assertivo em crises regionais.

    Para o agronegócio, essa dinâmica cria um cenário de “risco binário”. Por um lado, a hostilidade comercial entre Washington e Pequim pode reeditar o cenário de 2018, onde a China, retaliando contra os EUA, desviou massivamente suas compras de soja e milho para o Brasil, elevando os prêmios nos portos nacionais. Por outro lado, a pressão americana para o “desacoplamento” tecnológico pode encarecer a logística brasileira — fortemente dependente de investimentos chineses em portos e ferrovias — e criar barreiras não-tarifárias para produtos brasileiros que utilizem insumos ou tecnologias de origem chinesa, sob a justificativa de segurança da cadeia de suprimentos.

    1.2. Intervenção na Venezuela e o Choque nos Mercados de Energia

    A disposição da administração Trump em intervir diretamente em crises regionais materializou-se de forma dramática no início de 2026 com a operação militar na Venezuela. Os ataques aéreos e a subsequente captura de Nicolás Maduro não apenas alteraram o regime em Caracas, mas injetaram uma dose massiva de volatilidade nos mercados globais de energia. Embora a infraestrutura física de produção de petróleo venezuelana tenha sido preservada, a incerteza jurídica e política paralisou as exportações de curto prazo e elevou o prêmio de risco geopolítico em toda a região.

    O impacto para o Brasil é duplo e paradoxal. Imediatamente, a tensão elevou os preços do petróleo tipo Brent, pressionando o custo do diesel, que representa um dos principais componentes do custo operacional da lavoura (plantio, colheita e transporte). No entanto, análises da Agência Internacional de Energia (AIE) e de bancos de investimento sugerem que, passados o choque inicial e a interrupção tática, o mercado global caminha para um excesso de oferta em 2026, impulsionado pelo aumento da produção shale nos EUA e pela entrada de novos volumes de países fora da OPEP+.

    Essa volatilidade nos preços dos combustíveis fósseis reforça a tese de descarbonização não apenas por razões ambientais, mas por previsibilidade de custos. A exposição do produtor rural brasileiro às oscilações do petróleo — seja no diesel do trator ou na nafta que compõe os defensivos — torna-se um risco de gestão inaceitável em um ambiente de margens comprimidas. A crise venezuelana serve, portanto, como um catalisador para a busca de autonomia energética dentro da propriedade rural, acelerando a demanda por soluções de eletrificação e combustíveis renováveis produzidos in loco.

    1.3. O “Nearshoring” e a Oportunidade do Realinhamento

    Apesar das ameaças, a política americana oferece um atrativo substancial: o nearshoring ou friend-shoring. Em sua busca para reduzir a dependência da Ásia, os EUA estão ativamente incentivando a relocalização de cadeias produtivas para o Hemisfério Ocidental. O Brasil, com sua matriz energética limpa e capacidade industrial instalada, é o candidato natural para receber investimentos que visam processar matérias-primas estratégicas antes de sua exportação para o mercado americano.

    Isso é particularmente relevante para o setor de fertilizantes e minerais críticos. O governo americano reconhece que não pode depender da China para insumos essenciais à sua própria agricultura e indústria de defesa. Portanto, há um interesse estratégico em financiar a capacidade produtiva brasileira. O agronegócio brasileiro pode se beneficiar dessa tendência posicionando-se não apenas como exportador de grãos in natura, mas como fornecedor de produtos agroindustriais de baixo carbono, cuja pegada ambiental auditável (rastreabilidade) serve como passaporte para o mercado premium dos EUA e da Europa, contornando barreiras protecionistas.

    2. A Crise Estrutural dos Insumos: Vulnerabilidade e a Ascensão da China

    A vulnerabilidade externa no fornecimento de fertilizantes permanece a ameaça existencial mais crítica para o agronegócio brasileiro. Se a crise de 2022, deflagrada pela guerra na Ucrânia, expôs o risco da dependência russa, o cenário de 2026 revela uma ameaça ainda mais complexa: a hegemonia da China sobre os fluxos globais de nutrientes agrícolas e sua disposição em usar essa posição para fins de política interna e externa.

    2.1. A China como Novo Hegemon dos Fertilizantes e o Choque de 2026

    Dados consolidados de 2025 indicam uma mudança tectônica na matriz de importação brasileira: a China ultrapassou a Rússia e tornou-se o maior fornecedor individual de fertilizantes para o Brasil. Esta substituição, longe de diversificar o risco, concentrou-o em um ator geopolítico que está no centro das tensões globais. A dependência brasileira de fosfatados e nitrogenados chineses atingiu níveis críticos, com a China controlando parcelas significativas do mercado de Superfosfato Simples (SSP) e Sulfato de Amônio.

    O risco materializou-se de forma aguda no início de 2026, quando Pequim sinalizou a suspensão das exportações de fosfatos até agosto do mesmo ano. A medida, oficialmente justificada pela necessidade de garantir o abastecimento doméstico e controlar preços internos na China, gerou um choque de oferta global imediato. Para o Brasil, que importa cerca de 57% de suas necessidades de fósforo, a retirada dos volumes chineses do mercado internacional cria um vácuo que fornecedores alternativos como Marrocos e Arábia Saudita têm dificuldade em preencher no curto prazo, resultando em uma escalada vertical dos preços.

    Tabela 1: Matriz de Vulnerabilidade de Fertilizantes do Brasil (Cenário 2026)

    NutrienteDependência Externa TotalParticipação Chinesa (Estimada)Status Geopolítico 2026Impacto no Custo para o Produtor
    Nitrogênio (N)93%Alta (Crescente em Sulfato de Amônio)Risco Médio: Volatilidade do gás e restrições chinesas pontuais.Alto: Preços correlacionados ao petróleo/gás e fretes marítimos.
    Fosfato (P)57%DominanteRisco Crítico: Suspensão de exportações da China até Ago/2026.Muito Alto: Escassez física real, ágio nos prêmios.
    Potássio (K)98%Baixa (Rússia/Canadá dominam)Risco Médio: Logística e sanções secundárias à Rússia/Belarus.Moderado: Oferta global mais elástica que P e N.

    Fonte: Análise baseada em dados de.

    A “militarização” das cadeias de suprimento de fertilizantes pela China — usando o acesso aos insumos como ferramenta de barganha ou proteção interna — demonstra que o Brasil não pode mais confiar no livre mercado global para garantir sua segurança alimentar. A estratégia de just-in-time na compra de adubos tornou-se obsoleta e perigosa.

    2.2. Colapso Logístico e o Custo Brasil Amplificado

    A mudança no perfil dos fornecedores trouxe consigo desafios logísticos inéditos. O aumento das importações chinesas, frequentemente compostas por produtos de menor concentração de nutrientes (como o Sulfato de Amônio em substituição à Ureia), exigiu a movimentação de um volume físico muito maior para entregar a mesma quantidade de nutrientes no solo. Relatórios indicam que o volume de carga nos portos brasileiros dobrou em certas categorias, saturando a capacidade de armazenagem e transporte terrestre.

    Essa ineficiência logística, somada ao risco de conflitos em rotas marítimas chave como o Estreito de Ormuz (por onde transita grande parte da ureia do Oriente Médio) e o Estreito de Taiwan, elevou os custos de seguro e frete marítimo a patamares proibitivos. O “Custo Brasil”, historicamente um entrave interno, agora é amplificado por ineficiências globais importadas. O resultado é uma compressão severa das margens do produtor, que vê o preço das commodities agrícolas estagnar devido à oferta global robusta, enquanto os custos de produção disparam.

    2.3. A Imperativa Nacionalização via Tecnologia

    Diante deste cenário de vulnerabilidade estrutural, a produção nacional de fertilizantes deixou de ser uma pauta de política industrial para se tornar uma questão de soberania nacional. No entanto, o Plano Nacional de Fertilizantes, focado em grandes projetos de mineração e gás natural, mostrou-se lento demais para responder à urgência da crise. A resposta, portanto, desloca-se para soluções tecnológicas descentralizadas e modulares, capazes de serem implementadas rapidamente e de forma distribuída: a tecnologia P2X (Power-to-X) para produção de nitrogênio verde.

    3. A Revolução do Hidrogênio Verde e P2X: Soberania em Insumos

    A tecnologia Power-to-X (P2X), que utiliza eletricidade renovável para a eletrólise da água e subsequente síntese de produtos químicos (como amônia e hidrogênio), atingiu em 2026 o ponto de inflexão comercial no Brasil. O país, beneficiado por fatores de capacidade excepcionais em energia eólica e solar, conseguiu descolar-se da tendência global de aumento de custos de capital (inflação de CAPEX), mantendo a competitividade de seus projetos de hidrogênio verde (H2V).

    3.1. A Paridade de Custos: Amônia Verde vs. Cinza

    A viabilidade econômica da substituição de fertilizantes importados por produção doméstica verde é confirmada pelos índices de custo nivelado. O LCOX Brazil Index da consultoria CELA demonstra que, em 2025/2026, o custo de produção da Amônia Verde no Brasil já compete diretamente com a Amônia Cinza (produzida a partir de gás natural fóssil), especialmente quando considerados os preços voláteis do gás internacional e os custos logísticos de importação.

    Tabela 2: Competitividade Comparativa da Produção de Amônia (Brasil, 2026)

    IndicadorAmônia Cinza (Importada/Fóssil)Amônia Verde (Nacional/Renovável)
    Fonte de EnergiaGás Natural / CarvãoSolar Fotovoltaica / Eólica
    Custo de Produção (LCOA)US$ 360 – US$ 1.300 / tonUS$ 539 – US$ 1.103 / ton
    Volatilidade de PreçoAlta (Atrelada a Petróleo/Guerra)Baixa (CAPEX intensivo, OPEX previsível)
    Risco CambialTotal (Dolarizado na importação)Parcial (Equipamentos importados, energia local)
    Pegada de CarbonoAlta (Sujeita a taxas CBAM/Europa)Zero (Prêmio verde na exportação)

    Fonte: Dados sintetizados de.

    A tabela evidencia que o teto do custo da amônia verde já é inferior ao pico de preço da amônia cinza em momentos de crise. Com a otimização de processos e incentivos fiscais, o custo do Hidrogênio Verde (H2V) — insumo base para a amônia — pode cair para a faixa de US$ 2,87 a US$ 3,56/kg, com potencial de atingir valores abaixo de US$ 2,00/kg em projetos otimizados, tornando-o uma das fontes mais competitivas do mundo.

    3.2. 2026: O Ano da Decisão Final de Investimento (FID)

    O ano de 2026 é crítico porque marca a transição de memorandos de entendimento (MoUs) para compromissos financeiros firmes. Sete megaprojetos industriais no Brasil, totalizando R$ 63 bilhões em investimentos, estão programados para tomar suas Decisões Finais de Investimento (FID) neste ano. Estes projetos, concentrados principalmente no Nordeste (Porto do Pecém e Suape), não visam apenas a exportação de hidrogênio para a Europa, mas a internalização da produção de fertilizantes nitrogenados.

    A estratégia brasileira evoluiu do conceito de “exportar energia empacotada” para o de “industrialização verde”. Em vez de apenas enviar amônia para Roterdã, o Brasil começa a utilizar o H2V para produzir fertilizantes in loco, reduzindo a dependência de ureia importada da Rússia e do Oriente Médio. A parceria com a União Europeia (via leilões H2Global) e os EUA fornece a demanda âncora necessária para financiar esses projetos de capital intensivo.

    3.3. P2X Descentralizado: O Modelo para o Agronegócio

    Além dos megaprojetos portuários, surge em 2026 um modelo de negócios disruptivo: as plantas de P2X de pequena e média escala, integradas diretamente a grandes propriedades rurais ou cooperativas. Neste modelo, a fazenda utiliza sua própria geração de energia (biomassa, biogás ou solar) para produzir o hidrogênio e a amônia necessários para suas lavouras. Isso elimina o custo logístico do fertilizante e blinda o produtor contra a escassez global. A tecnologia permite que o agronegócio deixe de ser apenas consumidor de insumos para se tornar produtor de seus próprios nutrientes essenciais, fechando o ciclo produtivo e aumentando a resiliência operacional.

    4. AgriPV: A Revolução da Energia Solar Integrada ao Campo

    Enquanto o P2X resolve a questão macroeconômica dos insumos, a tecnologia AgriPV (Agrivoltaica) emerge como a solução microeconômica para a adaptação climática e a estabilidade financeira da propriedade rural. O AgriPV transcende a simples instalação de painéis solares em telhados ou áreas improdutivas; trata-se do uso duplo e sinérgico do solo para a produção agrícola e a geração de eletricidade.

    4.1. Resiliência Climática e Produtividade

    Em 2026, com a intensificação dos eventos climáticos extremos, o sombreamento inteligente proporcionado pelos sistemas AgriPV tornou-se um ativo agronômico. Estudos realizados no Brasil demonstram que, para certas culturas (como café, hortaliças e pastagens), o sombreamento parcial reduz a evapotranspiração, economiza água de irrigação e protege as plantas contra a radiação excessiva e tempestades de granizo.

    O modelo de negócio evoluiu da venda de energia excedente para a “proteção de safra financiada pela energia”. O produtor instala a estrutura fotovoltaica elevada sobre a lavoura não apenas para gerar kWh, mas para garantir a estabilidade da colheita em anos de seca ou calor extremo. A receita da energia, seja vendida no mercado livre ou usada para abater custos, atua como um seguro financeiro nativo, diversificando as fontes de renda da propriedade e reduzindo a exposição à volatilidade dos preços das commodities agrícolas.

    4.2. O Leilão de 2026 e o Armazenamento (BESS)

    Um marco regulatório crucial em 2026 é o Leilão de Reserva de Capacidade, que pela primeira vez inclui explicitamente sistemas de armazenamento de energia (baterias/BESS). Para o agronegócio, isso viabiliza o modelo de “fazenda-bateria”. A integração de AgriPV com baterias permite que o produtor armazene a energia solar gerada durante o dia para utilizá-la nos horários de ponta (início da noite), quando as tarifas de energia são mais caras, ou para garantir o funcionamento ininterrupto de sistemas de irrigação e refrigeração (leite/aves) durante falhas na rede da concessionária.

    A digitalização das redes rurais (smart grids) permite que essas fazendas prestem serviços ancilares à rede elétrica, sendo remuneradas por ajudar a estabilizar o sistema nacional. O AgriPV, portanto, transforma a terra de um ativo puramente biológico em um ativo híbrido bioenergético de alta tecnologia.

    5. O Papel Estratégico do Capital Americano: O Fator DFC

    Em resposta à penetração chinesa na infraestrutura latino-americana, os Estados Unidos ativaram sua ferramenta financeira mais potente: a U.S. International Development Finance Corporation (DFC). A política de investimentos da DFC em 2025/2026 reflete a prioridade geopolítica de garantir cadeias de suprimento críticas livres de controle chinês.

    5.1. O Caso Serra Verde: Um Blueprint para o Futuro

    O investimento de US$ 465 milhões da DFC na mina de terras raras da Serra Verde, em Goiás, estabeleceu um precedente crucial. Este projeto visa quebrar o quase monopólio chinês sobre elementos essenciais para ímãs de motores elétricos e turbinas eólicas. O modelo de financiamento — capital de longo prazo, com taxas competitivas e focado em objetivos estratégicos — é perfeitamente replicável para o setor de fertilizantes e hidrogênio verde.

    Para o agronegócio brasileiro, isso sinaliza que projetos de infraestrutura (como ferrovias para escoamento de safra ou plantas de amônia verde) que demonstrem reduzir a dependência de insumos da Rússia ou da China têm alta probabilidade de elegibilidade para financiamento americano. A DFC atua onde o mercado privado hesita devido ao risco político, preenchendo a lacuna de capital necessária para viabilizar a industrialização verde no Brasil.

    5.2. A Parceria Brasil-EUA em Hidrogênio

    Memorandos de Entendimento e acordos de cooperação técnica assinados entre 2025 e 2026 indicam que os EUA veem o Brasil como um parceiro chave na economia do hidrogênio. Diferente da Europa, que foca na importação, os EUA têm interesse em desenvolver o mercado brasileiro como um hub regional de estabilidade energética e como mercado para suas próprias tecnologias de eletrolisadores e células a combustível. O financiamento da DFC pode ser o catalisador para tirar do papel os projetos de H2V no Nordeste, criando uma alternativa ocidental à Rota da Seda da Energia promovida por Pequim.

    6. O Desafio Financeiro: Selic a 15% e a Inovação em Crédito

    Apesar das oportunidades tecnológicas e geopolíticas, o ambiente macroeconômico doméstico impõe freios severos. A política monetária do Banco Central, mantendo a taxa Selic em 15% ao ano para ancorar expectativas inflacionárias e defender a moeda, tornou o custo do capital proibitivo para investimentos produtivos tradicionais.

    6.1. O Esgotamento do Crédito Rural Tradicional

    O Plano Safra 2025/2026, embora tenha atingido o valor recorde de R$ 516,2 bilhões, viu suas taxas de juros controladas subirem entre 1,5 e 2 pontos percentuais. Com a Selic em dois dígitos, os recursos equalizados (subsidiados) pelo Tesouro esgotam-se rapidamente, deixando a maior parte dos produtores à mercê das taxas de mercado livre, que podem superar 20% ao ano. Neste cenário, o financiamento bancário convencional torna-se inviável para projetos de longo prazo e alto CAPEX, como a instalação de plantas de P2X ou sistemas AgriPV complexos.

    6.2. Fiagros e a Capitalização via Mercado

    A restrição bancária impulsionou a migração massiva do financiamento do agronegócio para o mercado de capitais. Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) consolidaram-se em 2026 como o principal veículo de financiamento privado. Uma nova classe de “Fiagros de Infraestrutura” e “Fiagros Verdes” surgiu, captando recursos de investidores pessoa física e institucionais para financiar especificamente a transição energética e logística no campo.

    Estes fundos oferecem estruturas de capital mais flexíveis e prazos mais longos que os bancos comerciais, permitindo que projetos de maturação lenta (como a recuperação de pastagens via programa RenovAgro ou a construção de biofábricas) sejam financiados. A previsão é que os Fiagros superem os fundos imobiliários em relevância, atraindo capital pela isenção fiscal e pela garantia real das terras agrícolas, que continuam a se valorizar.

    6.3. CRAs Verdes e a Atração de Capital Estrangeiro

    Outra inovação crucial é a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) com selo verde. Emissões recentes, como a de R$ 450 milhões da Solfácil e de US$ 60 milhões da Traive/SIM, demonstram que há um apetite voraz de investidores internacionais por papéis brasileiros que comprovem impacto ambiental positivo (ex: soja livre de desmatamento, energia solar).

    Ao estruturar CRAs atrelados ao dólar ou com lastro em commodities exportadas, os emissores conseguem acessar taxas de juros globais, muito inferiores à Selic doméstica. Isso cria um bypass financeiro: o produtor financia sua tecnologia verde com dinheiro barato do exterior, contornando o custo Brasil do crédito. A exigência, contudo, é uma governança e transparência de dados rigorosa, o que impulsiona a digitalização da fazenda.

    6.4. Tokenização e Drex: Liquidez na Era Digital

    A fronteira final da inovação financeira é a tokenização. Com a implementação plena do Drex (Real Digital) pelo Banco Central em 2026, ativos agrícolas como safras futuras, CPRs (Cédulas de Produto Rural) e até créditos de carbono e energia excedente podem ser fracionados e negociados em blockchain com segurança jurídica e liquidez imediata.

    Plataformas de tokenização permitem que um produtor venda antecipadamente uma fração de sua colheita ou de sua energia gerada para milhares de pequenos investidores, democratizando o acesso ao financiamento e reduzindo o spread bancário. Leilões reversos de insumos tokenizados já mostram reduções de custos de até 35% no capital de giro, provando que a tecnologia financeira é tão vital quanto a biotecnologia para a sobrevivência do setor.

    7. Cenários Estratégicos 2026-2030

    Considerando a intersecção das pressões geopolíticas, inovações tecnológicas e restrições financeiras, projetam-se três cenários para o agronegócio brasileiro nos próximos quatro anos.

    Cenário A: O Hub de Resiliência Ocidental (Probabilidade: Alta)

    O Brasil adota uma postura pragmática de “multialinhamento assimétrico”. Aceita investimentos estratégicos dos EUA (DFC) para desenvolver cadeias de H2V e minerais críticos, substituindo tecnologias chinesas sensíveis em troca de acesso preferencial ao mercado americano e europeu.

    • Agribusiness: Torna-se o fornecedor global de “commodities descarbonizadas”, utilizando AgriPV e bioinsumos para certificar produtos com prêmio verde.
    • Tecnologia: Adoção acelerada de P2X financiada por CRAs Verdes e capital misto (público-privado), reduzindo a dependência de fertilizantes importados em 30% até 2030.

    Cenário B: O Fogo Cruzado da Guerra Comercial (Probabilidade: Média)

    Uma escalada nas tensões EUA-China leva a sanções secundárias severas. O Brasil, pressionado, recusa o alinhamento total com Washington, sofrendo tarifas punitivas. A China, em resposta a restrições ocidentais, corta o fornecimento de fosfatos por período indeterminado.

    • Agribusiness: Crise aguda de custos e margens. A falta de fertilizantes força uma adoção de bioinsumos por “desespero”, não por planejamento. Acesso a crédito internacional seca, elevando juros a patamares de crise.
    • Tecnologia: Projetos de H2V de grande porte são adiados por falta de off-takers (compradores) garantidos. O foco volta-se para a sobrevivência básica e eficiência operacional extrema.

    Cenário C: Autarquia Regional (Probabilidade: Baixa)

    Diante da fragmentação global, o Brasil foca no fortalecimento do mercado interno e regional (Mercosul), desenvolvendo uma indústria de insumos e energia voltada para a segurança alimentar sul-americana.

    • Agribusiness: Menor ênfase em exportação de commodities brutas, maior foco em processamento local.
    • Tecnologia: Desenvolvimento de soluções “tropicais” de baixo custo, com forte subsídio estatal (BNDES) substituindo o capital externo volátil.

    8. Conclusão e Recomendações

    O ano de 2026 não permite neutralidade ou inércia. Para o agronegócio brasileiro, a era de comprar insumos baratos da Ásia e vender commodities caras para o mundo acabou. A nova realidade exige uma gestão de riscos sofisticada, onde a energia e os dados financeiros são tão importantes quanto a agronomia.

    A convergência de AgriPV e P2X oferece a única rota viável para recuperar a competitividade erodida pelos custos logísticos e financeiros. Transformar a propriedade rural em uma unidade autônoma de produção de energia e bioinsumos é a estratégia definitiva de hedge geopolítico.

    Recomendações Práticas:

    1. Para Produtores: Diversificar a matriz de insumos imediatamente, investindo em biofábricas on-farm e projetos de geração solar híbrida (AgriPV + Baterias) para reduzir a exposição ao diesel e à rede elétrica. Buscar financiamento via mercado de capitais (Fiagros/CRAs) em vez de bancos tradicionais.
    2. Para Investidores: Focar em ativos de infraestrutura logística e energética (H2V/P2X) que tenham viés de substituição de importação. Projetos com selo DFC ou parcerias ocidentais oferecem menor risco político.
    3. Para o Governo: Acelerar a regulação do mercado de hidrogênio e a implementação do Drex para destravar o financiamento privado. Utilizar a diplomacia para garantir que o Brasil seja visto como parceiro da segurança alimentar global, e não como aliado de blocos rivais, maximizando a atração de investimentos de friend-shoring.

    Em suma, o futuro do agro brasileiro depende de sua capacidade de se reinventar tecnologicamente para sobreviver politicamente. A fazenda de 2030 começa a ser construída agora, sob a pressão de Washington, a escassez de Pequim e o sol do Cerrado.

  • Análise Comparativa da Supercomputação Clássica (Sistema Jaci) e o Paradigma da Computação Quântica no Cenário de 2026

    Análise Comparativa da Supercomputação Clássica (Sistema Jaci) e o Paradigma da Computação Quântica no Cenário de 2026

    Sumário Executivo

    Este documento constitui uma análise técnica profunda e exaustiva sobre o estado da computação de alto desempenho (HPC) aplicada à meteorologia e ciências do sistema terrestre, com data de referência em janeiro de 2026. O relatório foi comissionado para estabelecer um comparativo rigoroso entre a infraestrutura recém-inaugurada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), corporificada no supercomputador Jaci, e o ecossistema emergente da Computação Quântica, que atravessa um momento crítico de transição para sistemas tolerantes a falhas.

    A análise parte da premissa de que a soberania nacional na previsão de eventos extremos é um ativo estratégico inegociável para o Brasil. Com a substituição do sistema Tupã pelo Jaci, parte do Projeto RISC (Renovação da Infraestrutura de Supercomputação), o Brasil recupera sua capacidade operacional, permitindo a execução do Modelo MONAN (Model for Ocean-Land-Atmosphere Prediction) com resolução espacial inédita de 3 km.

    Simultaneamente, o cenário global de janeiro de 2026 testemunha avanços tangíveis na computação quântica, liderados por corporações como IBM, Google, QuEra e D-Wave. Embora a “vantagem quântica” para equações diferenciais não-lineares parciais (o núcleo da modelagem climática) permaneça um desafio formidável, as tecnologias de otimização e simulação quântica oferecem, pela primeira vez, vetores claros de hibridização.

    Este relatório detalha as especificações técnicas (“algarismos”) de ambos os paradigmas, explora as barreiras termodinâmicas e algorítmicas, e conclui com uma visão prospectiva sobre a integração de aceleradores quânticos em centros de HPC clássicos.

    1. Contextualização Histórica e Estratégica: A Necessidade do Jaci

    1.1. O Legado do Tupã e o Hiato Tecnológico

    Para compreender a magnitude da implementação do supercomputador Jaci, é imperativo revisitar o legado de seu predecessor, o Tupã. Adquirido em 2010, o sistema Cray XT6 (posteriormente atualizado com componentes Cray XC50) representou, à época, um marco para a ciência hemisférica, colocando o Brasil entre as nações capazes de rodar modelos globais com independência. Com uma capacidade de pico que oscilava, após atualizações, na casa das centenas de Teraflops (atingindo picos teóricos próximos a 1 Petaflop em configurações estendidas, embora operasse efetivamente com menos), o Tupã permitiu avanços significativos na previsão de curto prazo.1

    No entanto, a década de 2015-2025 foi marcada por um subfinanciamento crônico e pelo envelhecimento acelerado do hardware. A meteorologia é uma disciplina governada pela Lei de Moore e pela Lei de Amdahl; manter-se estagnado em hardware significa retroceder em capacidade preditiva relativa. Enquanto centros europeus (ECMWF) e americanos (NOAA) migravam para resoluções de 9 km ou menos, o Tupã lutava para manter modelos operacionais de 20 km, cegos a fenômenos convectivos de mesoescala que caracterizam as tempestades tropicais severas.

    O custo operacional do Tupã tornou-se um passivo insustentável. Em seus anos finais, o sistema consumia aproximadamente R$ 5 milhões anuais apenas em eletricidade e refrigeração, uma ineficiência termodinâmica gritante quando comparada à performance por watt de arquiteturas modernas.1 O desligamento gradual de seus módulos, culminando na aposentadoria definitiva prevista para o primeiro trimestre de 2026, não foi apenas uma necessidade técnica, mas uma imposição fiscal e ambiental.2

    1.2. O Projeto RISC e a Soberania de Dados

    A resposta institucional a esse declínio foi o Projeto RISC (Renovação da Infraestrutura de Supercomputação do INPE). Com um orçamento total aprovado na ordem de R$ 200 milhões (valores de 2023-2025), o projeto foi desenhado não apenas para comprar uma “caixa preta” de processamento, mas para revitalizar todo o ecossistema de HPC em Cachoeira Paulista.4

    A importância estratégica do Jaci transcende a meteorologia cotidiana. Em um mundo fragmentado geopoliticamente em 2026, a dependência de dados meteorológicos processados por potências estrangeiras constitui uma vulnerabilidade de segurança nacional. Modelos globais como o GFS (EUA) ou IFS (Europa) são otimizados para as latitudes médias. Eles frequentemente falham em capturar a termodinâmica explosiva dos trópicos, subestimando a intensidade de ciclones no Atlântico Sul ou a localização precisa de ZCAS (Zonas de Convergência do Atlântico Sul). O Jaci é a ferramenta que permite ao Brasil rodar o MONAN, um modelo desenhado com a física tropical em mente, garantindo que o Estado brasileiro tenha a “primeira palavra” sobre riscos iminentes ao seu território.6

    2. Análise Técnica Profunda: O Sistema Jaci

    Em janeiro de 2026, o Jaci opera como o “coração numérico” da previsão climática na América Latina. Embora detalhes proprietários exatos de cada chip sejam protegidos, a análise forense das especificações divulgadas e dos padrões da indústria HPC (High-Performance Computing) permite uma reconstrução detalhada de sua arquitetura.

    2.1. Arquitetura de Processamento e Desempenho

    O Jaci representa um salto geracional. As especificações indicam que o sistema multiplica por cerca de seis vezes a capacidade de processamento do sistema anterior em operação. Considerando que o Tupã operava, em termos práticos para o modelo, na faixa de centenas de Teraflops sustentados, o Jaci posiciona-se solidamente na classe dos Petaflops.

    O objetivo final do Projeto RISC é atingir uma capacidade instalada de aproximadamente 8 Petaflops até o final do ciclo de implementação em 2028.5 Para a fase inicial operacional em janeiro de 2026, estima-se que o Jaci entregue uma performance sustentada (Rmax) entre 3 a 5 Petaflops.

    Especificações Técnicas Consolidadas (Jaci – Jan 2026):

    ComponenteEspecificação Técnica / MétricaContexto e Impacto
    Performance Teórica de Pico (Rpeak)~5 a 8 Petaflops (estimativa baseada no projeto RISC)Permite cálculos vetoriais massivos necessários para a dinâmica de fluidos a 3km.
    Arquitetura de NósHíbrida CPU-GPU (Provável HPE Cray EX)A tendência de HPC em 2025/26 favorece arquiteturas heterogêneas onde CPUs gerenciam lógica e GPUs aceleram álgebra linear.
    Resolução Operacional3 km (Global)Atinge a escala “convection-permitting”, eliminando a necessidade de parametrizações grosseiras de nuvens.
    Lead Time (Eficiência)72h de previsão em < 2 horasRedução crítica de latência. Anteriormente, previsões complexas demoravam >3h, perdendo utilidade tática.4
    Sistema de ArquivosParalelo (Lustre/GPFS), 24x capacidade anteriorEssencial para I/O de alta frequência. O modelo escreve terabytes de dados por ciclo de simulação.
    Eficiência EnergéticaModernização com Usina FotovoltaicaRedução do PUE (Power Usage Effectiveness), integrando sustentabilidade ao processamento.9

    2.2. O Salto da Resolução: A Física dos 3 Quilômetros

    O “algarismo” mais impactante do Jaci não é o número de operações de ponto flutuante por segundo (FLOPS), mas a resolução espacial de 3 km. Para o leigo, a diferença entre 20 km (Tupã) e 3 km (Jaci) pode parecer apenas numérica, mas na dinâmica de fluidos computacional, ela representa uma mudança de fase.

    Um modelo global divide a atmosfera da Terra em cubos.

    • A 20 km de resolução, uma célula da grade tem 400 km² de área. Uma tempestade severa inteira pode caber dentro de um único quadrado. O computador não consegue “ver” a tempestade; ele precisa adivinhar sua existência baseada em médias de temperatura e umidade daquela célula (parametrização).
    • A 3 km de resolução, a célula tem 9 km². O computador consegue resolver explicitamente as correntes ascendentes e descendentes de grandes complexos convectivos. Isso é chamado de modelo “convection-permitting” (convecção permitida).

    O teste de aceitação do Jaci, realizado com o furacão Melissa em outubro de 2025, demonstrou isso inequivocamente. O modelo MONAN, rodando no Jaci, capturou a assimetria do campo de vento e a formação do olho do furacão com uma fidelidade física impossível para as gerações anteriores.6 O custo computacional para esse feito não é linear: ao reduzir a grade de 20km para 3km, aumenta-se o número de pontos de grade em cerca de 44 vezes (nos eixos X e Y), e ainda é necessário reduzir o passo de tempo (time-step) para manter a estabilidade numérica (critério de Courant-Friedrichs-Lewy), resultando em um aumento de demanda computacional que pode ultrapassar duas ordens de magnitude. Apenas uma máquina da classe Petaflop como o Jaci poderia suportar tal carga em tempo operacional.

    2.3. O Modelo MONAN

    O hardware Jaci é inútil sem o software MONAN (Model for Ocean-Land-Atmosphere Prediction). O MONAN é um esforço de unificação. Diferente de sistemas antigos que acoplavam modelos atmosféricos e oceânicos de forma frouxa, o MONAN busca uma integração sistêmica. Ele utiliza equações não-hidrostáticas, fundamentais para resoluções finas onde a aproximação hidrostática (que assume equilíbrio entre gravidade e pressão vertical) quebra devido às violentas acelerações verticais dentro de tempestades.6 O Jaci foi dimensionado especificamente para resolver essas equações não-lineares de forma eficiente.

    3. O Cenário Global da Computação Quântica em Janeiro de 2026

    Enquanto o INPE consolida a supercomputação clássica com o Jaci, o mundo da computação quântica atravessa, em janeiro de 2026, um momento de “desilusão produtiva” e consolidação técnica. O “hype” desenfreado de 2023-2024 cedeu lugar a roteiros de engenharia sóbrios e focados em tolerância a falhas.

    3.1. Estado da Arte: Qubits Lógicos vs. Físicos

    A métrica central em 2026 deixou de ser apenas a contagem bruta de “qubits físicos” e passou a ser a quantidade e qualidade de “qubits lógicos” (qubits corrigidos de erros).

    Um computador quântico opera manipulando estados quânticos frágeis. A interação com o ambiente causa decoerência (perda de informação). Para contornar isso, utiliza-se a Correção de Erro Quântico (QEC), onde múltiplos qubits físicos (ruidosos) são entrelaçados para formar um único qubit lógico (estável).

    Em janeiro de 2026, as principais plataformas atingiram marcos específicos:

    • QuEra (Átomos Neutros): Posiciona-se como líder em escalabilidade lógica. Seu roadmap para 2026 prevê a operação de sistemas com 100 qubits lógicos, sustentados por arrays de mais de 10.000 átomos físicos controlados por pinças ópticas.10 A vantagem dos átomos neutros reside na conectividade “todos-com-todos” e na operação sem a necessidade de criogenia extrema (temperaturas de milikelvin) para o sistema de vácuo, embora os átomos em si sejam resfriados a laser.
    • IBM (Supercondutores): Segue a arquitetura de circuitos supercondutores. Em 2026, a IBM trabalha com processadores da classe “Nighthawk” e sucessores do “Heron”, visando executar circuitos com profundidade de até 7.500 gates e contagens de qubits físicos na casa das centenas altas a milhares, com foco em mitigação de erro avançada para atingir a “vantagem quântica” em tarefas específicas.12
    • Google Quantum AI: Focada na demonstração de QEC sustentável (Marco 2 para Marco 3), provando que aumentar o tamanho do código de correção reduz efetivamente a taxa de erro lógica, utilizando processadores como o “Willow” ou seus sucessores.14
    • D-Wave (Quantum Annealing): Mantém sua liderança no nicho de otimização com o sistema “Advantage2”, ostentando mais de 4.400 qubits de recozimento. Embora não seja um computador quântico universal (não roda algoritmo de Shor, por exemplo), é a plataforma mais robusta para problemas de otimização combinatória industrial em 2026.16

    3.2. A Física da Computação em 2026

    A distinção fundamental em 2026 permanece a natureza do cálculo.

    • Clássico (Jaci): Determinístico. Baseado em transistores de silício que operam em estados definidos (0 ou 1). A lógica é sequencial e paralela em blocos. A precisão é garantida pela representação de ponto flutuante de 64 bits (double precision), essencial para evitar que erros de arredondamento destruam a simulação climática ao longo de milhões de passos de tempo.
    • Quântico: Probabilístico. Baseado na manipulação de amplitudes de probabilidade complexas. O resultado de um cálculo quântico é uma distribuição de probabilidade. Para obter uma resposta “correta”, o algoritmo deve interferir construtivamente as respostas certas e destrutivamente as erradas. Em 2026, a precisão ainda é um desafio; “ler” o resultado (medida) colapsa o estado, exigindo múltiplas execuções (shots) para construir estatística confiável.

    4. Confronto Arquitetural: HPC Clássico vs. Quântico na Meteorologia

    A pergunta central deste relatório é comparativa: como o Jaci se mede contra as máquinas quânticas de 2026? A resposta exige dissecar os requisitos matemáticos da meteorologia.

    4.1. O Problema de Navier-Stokes: A Muralha da Não-Linearidade

    A atmosfera é um fluido. Sua evolução é descrita pelas equações de Navier-Stokes, um conjunto de equações diferenciais parciais (EDPs) não-lineares. A não-linearidade (especificamente o termo advectivo, onde a velocidade transporta a própria velocidade) é o maior obstáculo para a computação quântica direta.

    • Abordagem do Jaci: Força bruta inteligente. O Jaci utiliza métodos numéricos (Volumes Finitos, Diferenças Finitas ou Espectrais) para transformar as equações diferenciais em um sistema massivo de equações algébricas. Ele resolve isso passo a passo, célula por célula. É computacionalmente caro, mas matematicamente garantido.
    • Abordagem Quântica: A mecânica quântica é inerentemente linear (operadores unitários evoluindo estados vetoriais). Simular um sistema não-linear (clima) em um computador linear (quântico) não é natural.
    • Em 2026, pesquisadores propõem técnicas como a “Linearização de Carleman” ou algoritmos variacionais (VQA) para contornar isso.17 No entanto, essas técnicas aumentam drasticamente a complexidade do circuito ou o número de qubits necessários.
    • Enquanto o Jaci resolve a atmosfera global com trilhões de graus de liberdade, os melhores algoritmos quânticos de 2026 para dinâmica de fluidos (CFD) ainda estão lutando para simular fluxos laminares simples em cavidades 2D ou 3D pequenas.18 A “vantagem quântica” para CFD de escala global (Navier-Stokes completa) ainda é projetada para o futuro (década de 2030 ou além), exigindo milhões de qubits físicos tolerantes a falhas.20

    4.2. O Gargalo de Entrada e Saída (I/O)

    A meteorologia é, talvez mais do que qualquer outra ciência, dependente de dados. O estado inicial do modelo MONAN é construído a partir de terabytes de dados de satélites, radares, boias e estações (Data Assimilation).

    • Jaci: Possui barramentos de I/O e sistemas de arquivos paralelos (Lustre) otimizados para mover Petabytes. Ele “bebe” dados em velocidade torrencial.
    • Quântico: Sofre do “problema de carregamento de dados” (data loading problem). Inserir dados clássicos (a temperatura de cada ponto da Terra) em um estado quântico (amplitudes) é um processo que, em 2026, ainda é lento e custoso. Muitas vezes, o tempo necessário para carregar os dados no computador quântico anula qualquer ganho de velocidade que o processamento quântico poderia oferecer.21
    • Implicação: Para o ciclo operacional de previsão do tempo (onde o prazo é rígido: a previsão das 12h tem que sair antes das 14h), o computador quântico de 2026 não consegue competir com a taxa de transferência de dados do Jaci.

    4.3. Comparativo Numérico Direto (“Algarismos”)

    A tabela a seguir cristaliza a disparidade de escala e propósito entre o Jaci operacional e o estado da arte quântico em janeiro de 2026.

    ParâmetroSupercomputador Jaci (INPE)Computador Quântico de Ponta (Jan 2026)
    Unidade de CálculoTransistores (Bits)Qubits (Supercondutores/Átomos)
    Escala de Processamento~5 Petaflops (Rmax estimado)~100 Qubits Lógicos (QuEra) / ~4.400 Annealing Qubits (D-Wave)
    Consumo de EnergiaEscala de Megawatts (MW)Escala de Kilowatts (10-50 kW) 22
    Resolução de Modelo3 km Global (Trilhões de pontos de grade)“Toy Problems” (Baixa resolução, geometrias simples)
    Tempo de OperaçãoContínuo (24/7, 99.9% uptime)Experimental / Cíclico (Calibrações frequentes)
    Custo de Investimento~R$ 200 Milhões (Projeto total)Sistemas custam dezenas de milhões de USD; P&D na casa dos Bilhões
    Principal AplicaçãoResolução de EDPs Não-Lineares (Navier-Stokes)Otimização Combinatória, Química Quântica, Fatoração
    Armazenamento24x Capacidade do Tupã (Petabytes)Memória Quântica é volátil e limitada (ms a segundos de coerência)

    5. Sustentabilidade e Eficiência Energética: O Paradoxo Termodinâmico

    A comparação energética revela o calcanhar de Aquiles da supercomputação clássica e a grande promessa da quântica.

    5.1. A Fome Energética do Jaci

    Supercomputadores clássicos lutam contra a termodinâmica. Para mover elétrons através de transistores em frequências de GHz, gera-se calor (efeito Joule). O Jaci, embora muito mais eficiente que o Tupã por FLOP calculado, ainda é uma máquina térmica massiva. O Projeto RISC contempla a modernização da infraestrutura elétrica e a instalação de uma usina fotovoltaica para mitigar isso.9 A sustentabilidade do Jaci depende de fontes externas de energia verde.

    5.2. A Eficiência Intrínseca do Quântico

    Computadores quânticos operam sob regimes diferentes.

    • Sistemas de átomos neutros (QuEra/Pasqal) consomem na ordem de 7 kW a 10 kW para operar os lasers e sistemas de controle, uma fração minúscula do consumo de um supercomputador.24
    • Sistemas supercondutores (IBM/Google) exigem resfriamento criogênico intensivo, mas mesmo assim, o consumo total do sistema (refrigeração + controle) fica na casa dos 25-50 kW, ordens de magnitude abaixo dos Megawatts de um cluster HPC exascale ou petascale.
    • Estudo Comparativo: Simulações de materiais magnéticos demonstraram que uma tarefa que levaria milhares de anos no Frontier (Exascale clássico) consumindo energias planetárias, poderia ser feita em minutos com kWs em um sistema quântico.25
    • Conclusão para 2026: Embora o computador quântico seja imbatível em eficiência por operação quântica útil, ele ainda não consegue realizar a operação climática completa. A eficiência é real, mas a aplicabilidade ao MONAN ainda não.

    6. O Futuro Híbrido: Integração e Aplicações Específicas

    A dicotomia “Clássico vs. Quântico” é falsa. O futuro desenhado em 2026 é híbrido. O Jaci não será substituído por um computador quântico, mas sim acelerado por ele.

    6.1. Assimilação de Dados e Otimização

    A etapa de Assimilação de Dados (Data Assimilation – DA) consome uma parcela gigante do tempo do Jaci. Ela é, fundamentalmente, um problema de otimização: encontrar o estado atmosférico inicial que minimiza o erro em relação às observações de satélite.

    • Algoritmos quânticos de otimização (QAOA, Quantum Annealing) são candidatos perfeitos para acelerar essa etapa. Em 2026, experimentos já indicam que VPUs (Quantum Processing Units) podem ser usadas como coprocessadores dedicados para resolver a minimização da função custo da DA, liberando o Jaci para focar na integração temporal das equações de fluido.21

    6.2. Machine Learning Quântico (QML) para Parametrização

    Mesmo a 3km, fenômenos como a microfísica de nuvens (formação de gotas de chuva) ocorrem em escalas micrométricas e precisam ser parametrizados (estimados).

    • Redes Neurais Quânticas (QNNs) mostram promessa em aprender essas parametrizações com maior eficiência de dados e expressividade do que redes neurais clássicas. O uso de QML para criar “fórmulas” melhores para a física das nuvens, que depois são rodadas no processador clássico do Jaci, é uma área de pesquisa ativa e promissora em 2026.21

    6.3. Previsão Sazonal e Climate Twins

    Iniciativas como a da Planette (parceira da NASA) e NVIDIA (Earth-2) apontam para o uso de IA e métodos inspirados em quântica para previsões de longo prazo (sazonais, até 1 ano). O Jaci foca no tempo tático (dias), mas a tecnologia quântica e IA começam a dominar a previsão estratégica (clima/meses), criando uma complementaridade de missões.26

    7. Geopolítica e Conclusão

    7.1. O Fosso de Investimento e a Soberania

    A análise orçamentária revela a assimetria de poder. O investimento brasileiro no Jaci/RISC (~R$ 200 milhões ou ~US$ 35-40 milhões) é vital e eficiente, garantindo operacionalidade imediata. Contudo, compara-se com investimentos globais em quântica na casa dos bilhões de dólares anuais (Google, IBM, governos da China/EUA/UE).

    O Brasil, ao investir no Jaci, optou pragmaticamente pela sobrevivência e soberania imediata. Ter o MONAN rodando em hardware próprio garante que o país não dependa de boa vontade externa para saber se uma tempestade atingirá a costa do Sudeste ou se uma seca devastará o agronegócio no Centro-Oeste.

    7.2. Veredito: O Jaci como Pilar, o Quântico como Horizonte

    Em janeiro de 2026, a comparação técnica entre o Jaci e a computação quântica leva a uma conclusão inequívoca:

    1. O Jaci é a ferramenta operacional indispensável. Seus “algarismos” (Petaflops, 3km de resolução, I/O massivo) são os únicos capazes de lidar com a complexidade bruta e não-linear da atmosfera terrestre em tempo real. Ele é a resposta madura para a necessidade de defesa civil do Brasil.
    2. A Computação Quântica é o vetor de disrupção futura. Seus “algarismos” (Qubits lógicos, eficiência de kW) prometem resolver gargalos específicos (otimização, química atmosférica) que a computação clássica jamais resolverá eficientemente. No entanto, em 2026, ela ainda não está pronta para substituir o “trabalho pesado” da dinâmica de fluidos global.

    Recomendação Estratégica: O INPE e o MCTI devem manter o compromisso total com o pleno funcionamento e expansão do Jaci (até os 8 Petaflops previstos). Simultaneamente, é imperativo que o Brasil invista na formação de recursos humanos e na pesquisa de algoritmos quânticos aplicados à meteorologia (hibridização). O Jaci garantirá a segurança climática da década de 2020; a preparação para integrar aceleradores quânticos garantirá a relevância da ciência brasileira na década de 2030.


    Referências citadas

    1. A SUCESSÃO de Tupã está em andamento. Revista E&S, [s.l., s.d.]. Disponível em: [https://revistaes.com.br/colunas/a-sucessao-de-tupa-esta-em-andamento](https://revistaes.com.br/colunas/a-sucessao-de-tupa-esta-em-andamento). Acesso em: 3 jan. 2026.
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    17. TOWARDS a Quantum Algorithm for the Incompressible Nonlinear Navier–Stokes Equations. OSTI.GOV, [s.l., s.d.]. Disponível em: [https://www.osti.gov/servlets/purl/2538402](https://www.osti.gov/servlets/purl/2538402). Acesso em: 3 jan. 2026.
    18. INCOMPRESSIBLE Navier–Stokes solve on noisy quantum hardware via a hybrid quantum–classical scheme. arXiv, jun. 2024. Disponível em: [https://arxiv.org/html/2406.00280v2](https://arxiv.org/html/2406.00280v2). Acesso em: 3 jan. 2026.
    19. FINDING Solutions of the Navier-Stokes Equations through Quantum Computing—Recent Progress, a Generalization, and Next Steps. Deutsche Nationalbibliothek, [s.l., s.d.]. Disponível em: [https://d-nb.info/1240793782/34](https://d-nb.info/1240793782/34). Acesso em: 3 jan. 2026.
    20. A PATHWAY to Practical Quantum Advantage in Solving Navier-Stokes Equations. arXiv, set. 2025. Disponível em: [https://arxiv.org/abs/2509.08807](https://arxiv.org/abs/2509.08807). Acesso em: 3 jan. 2026.
    21. IQM. Quantum Computing for Creating Better Climate Models. [S.l., s.d.]. Disponível em: [https://meetiqm.com/blog/quantum-computing-for-better-climate-models/](https://meetiqm.com/blog/quantum-computing-for-better-climate-models/). Acesso em: 3 jan. 2026.
    22. CAN Quantum Computers Address the AI Energy Problem? Quantum Computing Report, [s.l., s.d.]. Disponível em: [https://quantumcomputingreport.com/can-quantum-computers-address-the-ai-energy-problem/#:~:text=A%20classical%20supercomputer%20consumes%20a,by%20a%20domestic%20electric%20oven](https://quantumcomputingreport.com/can-quantum-computers-address-the-ai-energy-problem/#:~:text=A%20classical%20supercomputer%20consumes%20a,by%20a%20domestic%20electric%20oven). Acesso em: 3 jan. 2026.
    23. HOW Quantum Computing Could Reshape Energy Use in High-Performance Computing. HPCwire, [s.l.], 3 fev. 2025. Disponível em: [https://www.hpcwire.com/2025/02/03/how-quantum-computing-could-reshape-energy-use-in-high-performance-computing/](https://www.hpcwire.com/2025/02/03/how-quantum-computing-could-reshape-energy-use-in-high-performance-computing/). Acesso em: 3 jan. 2026.
    24. PASQAL. Quantum Computing: Rethinking Energy Consumption. [S.l., s.d.]. Disponível em: [https://www.pasqal.com/blog/quantum-computing-rethinking-energy-consumption/](https://www.pasqal.com/blog/quantum-computing-rethinking-energy-consumption/). Acesso em: 3 jan. 2026.
    25. D-WAVE QUANTUM. 6 Quantum Computing Predictions for 2026. The Wall Street Journal, [s.l., s.d.]. Disponível em: [https://partners.wsj.com/d-wave-quantum/quantum-leaps/6-quantum-computing-predictions-for-2026/](https://partners.wsj.com/d-wave-quantum/quantum-leaps/6-quantum-computing-predictions-for-2026/). Acesso em: 3 jan. 2026.
    26. NASA Selects Planette to Develop the First Quantum-Inspired AI System For Extreme Weather Prediction. The Quantum Insider, [s.l.], 28 ago. 2025. Disponível em: [https://thequantuminsider.com/2025/08/28/nasa-selects-planette-to-develop-the-first-quantum-inspired-ai-system-for-extreme-weather-prediction/](https://thequantuminsider.com/2025/08/28/nasa-selects-planette-to-develop-the-first-quantum-inspired-ai-system-for-extreme-weather-prediction/). Acesso em: 3 jan. 2026.
  • Esqueça a Agricultura de Precisão: Bem-vindo à Era das “Fazendas Resilientes” (2026)

    Esqueça a Agricultura de Precisão: Bem-vindo à Era das “Fazendas Resilientes” (2026)

    Estamos em uma transição histórica no agronegócio. Durante a última década, nosso mantra foi a “Agricultura de Precisão” — o foco total na otimização de cada gota de insumo. Mas, no cenário climático e geopolítico de 2026, a precisão já não basta.

    Enfrentamos um “novo normal”: secas prolongadas no Cerrado, ondas de calor letais e cadeias de suprimentos globais instáveis. A precisão otimiza processos, mas ela não evita o colapso quando o ambiente se torna hostil.

    É hora de falarmos sobre a “Agricultura de Resiliência”.

    Neste artigo, baseado em nosso mais recente white paper e na análise de tendências para 2026, exploramos como a convergência de quatro tecnologias está criando fazendas capazes de gerar sua própria energia, produzir seus próprios fertilizantes e financiar sua própria operação.

    Assista ao resumo em vídeo (7 min)

    O Que é uma “Fazenda Resiliente”?

    A premissa central do nosso estudo é que a resiliência não vem de uma tecnologia isolada, mas de uma arquitetura sistêmica. A “Fazenda Resiliente” é um ecossistema autossuficiente apoiado em quatro pilares interconectados:

    1. Proteção Física (AgriPV);
    2. Autonomia Química (Power-to-X);
    3. Inteligência Descentralizada (Edge AI);
    4. Liquidez Financeira (Blockchain).

    Vamos entender como cada um funciona e os resultados surpreendentes que eles entregam.

    Esqueça a ideia de usinas solares competindo por espaço com a lavoura. O AgriPV envolve a instalação de painéis solares elevados que funcionam como um escudo microclimático.

    Ao reduzir a radiação incidente em cerca de 35%, o sistema protege a planta do estresse térmico e preserva a umidade do solo. Mais do que isso: ele cria o ambiente perfeito para a sobrevivência de bioinsumos, protegendo fungos e bactérias benéficos da radiação UV letal.

    O resultado prático? Estudos com leguminosas em clima tropical mostram que, na estação chuvosa, a proteção dos painéis evitou o abortamento de vagens pelo calor, resultando em um aumento de 106% na produtividade de grãos (3.528 kg/ha sob painéis vs. 1.708 kg/ha a céu aberto).

    2. A Bateria Química: Power-to-X (P2X)

    O Brasil historicamente importa mais de 90% de seus fertilizantes nitrogenados. A Fazenda Resiliente elimina essa dependência transformando o “problema” do excesso de energia solar do meio-dia em solução.

    Utilizando tecnologias de baixa pressão (como as da Tsubame BHB) e sistemas em container (como da FuelPositive), a fazenda converte energia solar e ar em Amônia Verde e Hidrogênio.

    A amônia atua como uma “bateria química”: ela armazena a energia do sol de hoje para ser usada como fertilizante na próxima safra, garantindo soberania de insumos.

    3. O Sistema Nervoso: Edge AI (IA na Borda)

    No campo profundo, a nuvem não é confiável. Por isso, a inteligência migrou para a “borda” (Edge). Robôs autônomos, como o Solix da Solinftec, processam dados localmente usando TinyML.

    Eles tomam decisões de pulverização em milissegundos, sem precisar de internet. Ao aplicar herbicida apenas onde há planta daninha (spot-spray), esses robôs conseguem reduzir o uso de defensivos químicos em até 95%.

    4. A Camada de Confiança: Blockchain

    Para financiar e proteger esse ecossistema, a tecnologia Blockchain oferece duas ferramentas vitais:

    • Seguros Paramétricos: Contratos inteligentes que pagam indenizações automaticamente com base em dados de sensores climáticos, sem burocracia humana (ex: Newe Seguros).
    • Tokenização: A transformação da safra armazenada em ativos digitais líquidos (como faz a Agrotoken), permitindo que o produtor use seus grãos como moeda corrente imediata.

    Entenda os Números: Produtividade vs. Eficiência

    Ao ler o relatório completo, é fundamental não confundir dois indicadores de sucesso que aparecem com frequência:

    +106% é o Ganho Biológico: Refere-se ao aumento de produtividade da planta (leguminosas) por estar protegida do sol forte.

    +40% é o Ganho Espacial (LER): Refere-se ao Land Equivalent Ratio. Um LER acima de 1.40 significa que integrar energia e comida no mesmo hectare é 40% mais eficiente do que usar dois terrenos separados para cada atividade.

    Conclusão e Download

    A convergência destas tecnologias não é futurismo; é uma necessidade de sobrevivência econômica e climática para 2026. O Brasil tem a oportunidade de deixar de ser apenas um exportador de commodities para se tornar o berço da tecnologia de produção tropical sustentável.

    Para aprofundar-se nos detalhes técnicos, na termodinâmica dos processos P2X e na arquitetura de dados do Edge AI, disponibilizamos o white paper completo abaixo.


  • O Paradoxo da Abundância Energética: A Crise de Escoamento, a Nova Engenharia de Investimentos e o Risco Reputacional em Mercados Saturados

    O Paradoxo da Abundância Energética: A Crise de Escoamento, a Nova Engenharia de Investimentos e o Risco Reputacional em Mercados Saturados

    Sumário Executivo

    A transição energética global atingiu um ponto de inflexão crítico em meados da década de 2020. O paradigma anterior, focado quase exclusivamente na redução do Custo Nivelado de Energia (LCOE) através da maximização do fator de capacidade dos recursos naturais, colidiu frontalmente com os limites físicos e econômicos da infraestrutura de transmissão. Este relatório técnico, elaborado para subsidiar decisões de investimento de alta complexidade, utiliza os eventos observados no Reino Unido em 2025 como um estudo de caso precursor para o cenário brasileiro. A análise parte de dois fatos fundamentais reportados pelo The Times e pelo The Wall Street Journal: o custo recorde de £1,5 bilhão em compensações por curtailment no Reino Unido e a saturação das filas de conexão que transformou a geografia de projetos em um exercício de engenharia de rede.

    No Brasil, a situação espelha-se com gravidade amplificada. O país encerrou o ano de 2025 com taxas de corte de geração (curtailment) atingindo 20,6% da produção renovável e prejuízos diretos superiores a R$ 6 bilhões. A resposta regulatória brasileira, consubstanciada no Decreto nº 12.772 e na judicialização da Resolução Normativa 1.030, altera irrevogavelmente a matriz de risco para novos empreendimentos. O acesso à rede deixou de ser um direito administrativo sequencial para tornar-se um ativo escasso, alocado via mecanismos competitivos de preço.

    Para os grandes consumidores, notadamente o setor de data centers impulsionado pela expansão da Inteligência Artificial (IA), o relatório identifica um risco existencial: a desconexão física entre a geração contratada (PPA Verde) e o consumo real da rede em momentos de restrição. A promessa de “energia 100% renovável” torna-se tecnicamente inverificável em zonas de alto curtailment sem o suporte de armazenamento (BESS) ou transmissão robusta, criando passivos reputacionais e inviabilizando metas de descarbonização de Escopo 2 auditáveis.

    1. O Espelho Britânico: A Anatomia Econômica e Técnica de uma Crise de £1,5 Bilhão

    1.1. A Dinâmica do Desperdício e os Custos de Restrição

    O ano de 2025 marcou um momento histórico e oneroso para o sistema elétrico do Reino Unido. Segundo dados compilados e reportados pela imprensa britânica, o custo de gerenciar as restrições da rede — tecnicamente denominado curtailment — atingiu entre £1,5 bilhão e £1,8 bilhão. Este valor não representa investimento em infraestrutura, mas sim uma despesa operacional pura destinada a manter o equilíbrio físico do sistema, paga diretamente pelos consumidores nas tarifas de energia.

    A mecânica deste custo é perversa em sua duplicidade. O Operador do Sistema Energético Nacional (NESO) britânico vê-se obrigado a realizar duas operações financeiras simultâneas e opostas para resolver um único problema físico:

    1. Pagamentos de Compensação (Constraint Payments): O operador paga aos parques eólicos, majoritariamente localizados na Escócia, para que interrompam a geração. Em muitos casos, isso ocorre através de lances negativos no mercado de balanceamento, onde o gerador é remunerado para não produzir, compensando a perda dos subsídios (como os Contracts for Difference – CfD) e a venda de energia frustrada.
    2. Redispacho de Substituição: Simultaneamente, o operador precisa pagar a usinas localizadas ao sul do gargalo de transmissão (geralmente térmicas a gás natural) para aumentarem a geração e atenderem à demanda de Londres e do Sudeste da Inglaterra. Como o gás possui um custo marginal de operação mais elevado e está sujeito a taxas de carbono, o custo dessa energia de substituição é significativamente maior do que a energia eólica descartada.

    Este fenômeno revela uma falha estrutural no planejamento: a velocidade de implantação da geração renovável superou em muito a capacidade de expansão da rede de transmissão. Em 2025, os consumidores britânicos efetivamente pagaram £810 milhões apenas para que fazendas eólicas escocesas permanecessem ociosas, um paradoxo onde o sucesso na instalação de capacidade verde resulta em custos mais altos e emissões evitáveis não realizadas.

    1.2. A Física do Gargalo: A Fronteira B6

    Para compreender a relevância deste cenário para o Brasil, é necessário dissecar a geografia elétrica do Reino Unido. O ponto crítico é a fronteira de transmissão conhecida como “B6 Boundary”, que separa a Escócia da Inglaterra. A Escócia possui recursos eólicos excepcionais e grandes áreas disponíveis para desenvolvimento onshore, mas uma demanda local baixa. A Inglaterra concentra a carga, mas tem limitações de espaço e recurso eólico onshore.

    Os dados indicam que, no primeiro semestre de 2025, os produtores escoceses sujeitos a restrições de rede tiveram que cortar impressionantes 37% de sua produção total. Isso equivale a 1,5 terawatt-hora (TWh) de energia limpa perdida, suficiente para abastecer 1,2 milhão de residências por um ano. A incapacidade da rede de transportar esses elétrons para o sul transformou a vantagem comparativa da Escócia (vento abundante) em um passivo operacional para o sistema como um todo.

    A saturação é tamanha que a fila de conexão para novos projetos no Reino Unido estendeu-se para horizontes de 10 a 15 anos. Este cenário criou um mercado secundário de “projetos zumbis” — empreendimentos que possuem direitos de conexão antigos mas nenhuma viabilidade de construção imediata — que bloqueiam a entrada de projetos mais eficientes e prontos para operar.

    1.3. Consequências Regulatórias: O Debate sobre Preços Zonais

    A crise de 2025 acelerou o debate sobre a reforma do mercado elétrico britânico. O governo e o regulador (Ofgem) consideram abandonar o preço nacional único de energia em favor de um sistema de preços zonais (zonal pricing).

    Sob este modelo, o preço da energia na Escócia cairia drasticamente (refletindo o excesso de oferta local), enquanto o preço em Londres subiria (refletindo a escassez e o custo de transporte). O objetivo é enviar um sinal locacional econômico para os investidores: parem de construir onde não há rede. Para o investidor que baseou seu modelo financeiro em um preço nacional único, a transição para preços zonais representa uma mudança abrupta nas premissas de receita, podendo inviabilizar projetos já construídos ou em desenvolvimento avançado.

    2. A Realidade Brasileira: Saturação, Cortes e Perdas Bilionárias

    A situação descrita no Reino Unido não é um futuro distópico para o Brasil; é a descrição precisa da realidade operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN) nos anos de 2024 e 2025. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e concentração de recursos renováveis longe dos centros de carga, replicou e amplificou a dinâmica britânica.

    2.1. O “Meteoro” do Curtailment Brasileiro

    O Brasil vivencia um descompasso estrutural agudo. A expansão das energias eólica e solar, impulsionada por incentivos governamentais e pela competitividade tecnológica, ocorreu em uma velocidade que a infraestrutura de transmissão não conseguiu acompanhar. Dados de consultorias especializadas revelam que o Brasil desperdiçou 20,6% de toda a energia renovável solar e eólica gerada em 2025 devido a restrições de escoamento.

    A magnitude financeira deste desperdício é alarmante. As perdas econômicas diretas ultrapassaram a marca de R$ 6 bilhões no período. Diferente do Reino Unido, onde o custo é socializado via tarifas de forma mais transparente (embora dolorosa), no Brasil a alocação deste prejuízo tornou-se o centro de uma guerra regulatória e judicial.

    Tabela 1: Comparativo de Impacto de Curtailment (Reino Unido vs. Brasil – 2025)

    IndicadorReino UnidoBrasil
    Custo Estimado (Anual)£1,5 bilhão (~R$ 11 bilhões)> R$ 6 bilhões
    Volume de Corte~37% (Escócia – 1º semestre)20,6% (Média Solar/Eólica Nacional)
    Ponto de EstrangulamentoFronteira B6 (Escócia-Inglaterra)Exportação Nordeste -> Sudeste/Norte
    Natureza do CorteBid negativo e compensação contratualConstrained-off por ordem do ONS
    Mecanismo FinanceiroSocializado na tarifa (Balancing Costs)Judicializado (Disputa REN 1.030)

    2.2. A Dinâmica dos Cortes no Nordeste

    O Nordeste brasileiro consolidou-se como a “Escócia tropical” — uma região de recurso eólico e solar abundante e barato, mas com carga local insuficiente para absorver a geração total nos horários de pico. O problema foi agravado exponencialmente pela entrada massiva de Micro e Minigeração Distribuída (MMGD).

    A MMGD solar, instalada nos telhados e pequenos terrenos, é majoritariamente “invisível” ao despacho centralizado do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e, tecnicamente, difícil de ser cortada remotamente. Nos momentos de alta irradiação solar, a MMGD abate a carga local das distribuidoras, reduzindo a “demanda líquida” do subsistema Nordeste. Isso deixa menos espaço físico nas linhas de transmissão para que as grandes usinas centralizadas (eólicas e solares) escoem sua energia para o Sudeste.

    Relatórios técnicos apontam que, em setembro de 2024, os cortes médios chegaram a atingir 36,4% para a energia solar e 24,1% para a eólica em determinados momentos críticos. Para um projeto de geração estruturado sob a lógica de Project Finance, que depende de fluxos de caixa previsíveis e estáveis para o serviço da dívida, cortes dessa magnitude, se não ressarcidos, representam o rompimento dos covenants financeiros e um risco real de default e insolvência.

    3. A Batalha Regulatória: Quem Paga a Conta da Falta de Fio?

    A crise física de transmissão transmutou-se rapidamente em uma crise jurídica e regulatória no Brasil, centrada na interpretação e aplicação da Resolução Normativa ANEEL nº 1.030/2022. Esta disputa define a viabilidade econômica do estoque de investimentos atuais e futuros.

    3.1. O Conflito da REN 1.030 e o Constrained-Off

    A Resolução Normativa 1.030/2022 (que consolidou regras anteriores) estabelece, em tese, que os cortes de geração determinados pelo ONS por “restrição de operação” (constrained-off) devem ser ressarcidos aos geradores. A lógica regulatória é que a limitação da rede externa à usina é uma responsabilidade do planejamento setorial (Governo/EPE) e não um risco do investidor privado.

    No entanto, diante do volume massivo de cortes, surgiu um conflito interpretativo sobre a classificação dos eventos:

    • A Visão do ONS/ANEEL: Muitos cortes têm sido classificados como “Razão Energética” (excesso de oferta global no sistema) ou “Confiabilidade Local”, categorias que, pelas regras atuais ou interpretações restritivas, podem isentar ou limitar o pagamento de compensação. A ANEEL argumenta que o ressarcimento integral transferiria um custo insustentável para o consumidor (estimado em R$ 1 bilhão ao mês), criando um “risco à ordem e à economia públicas”.
    • A Visão dos Geradores (Associações): Entidades como a ABSOLAR e a ABEEólica argumentam que a infraestrutura inadequada é falha do Estado e que a mudança na classificação dos cortes ou a recusa de pagamento viola a segurança jurídica e os contratos estabelecidos. As associações obtiveram liminares no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) garantindo o ressarcimento integral, sem a dedução de franquias.

    3.2. A Judicialização e o “Haircut” Financeiro

    A ANEEL recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para suspender as liminares, criando um ambiente de incerteza absoluta. Diretores da agência já sinalizaram publicamente a necessidade de revisar a norma para impor um “teto” de ressarcimento, argumentando que o risco de curtailment deve ser parcialmente compartilhado pelo gerador em um ambiente de transmissão saturada.

    Para novos investimentos, a implicação é direta: modelos financeiros não podem mais assumir o ressarcimento de 100% das perdas por restrição de rede. A “engenharia financeira” do projeto deve agora incorporar cenários de estresse onde o corte de geração se traduz em perda efetiva de receita, exigindo taxas de retorno (TIR) mais altas para compensar o risco regulatório elevado.

    4. A Revolução do Acesso: O Decreto 12.772 e a Monetização da Margem

    Em resposta à incapacidade de expandir a rede na mesma velocidade da demanda por conexão, o governo brasileiro instituiu uma mudança paradigmática nas regras do jogo através do Decreto nº 12.772, de 5 de dezembro de 2025. Este marco legal institui a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), enterrando a lógica histórica de “ordem de chegada”.

    4.1. O Fim da Fila Administrativa

    Historicamente, o acesso à rede no Brasil seguia uma lógica administrativa sequencial: o agente que protocolasse primeiro o pedido de Parecer de Acesso tinha prioridade. Isso gerou uma corrida especulativa, onde agentes solicitavam acesso para “projetos de papel” apenas para garantir a margem e vender o projeto posteriormente (flip), bloqueando a capacidade para investidores com projetos reais e capital garantido.

    O Decreto 12.772 elimina esse modelo. A partir de sua implementação, o acesso à rede deixa de ser contínuo e passa a ocorrer em janelas temporais organizadas, denominadas Temporadas de Acesso.

    4.2. O Mecanismo de Leilão de Margem

    A inovação central do decreto é a introdução da competição pelo uso do fio. O funcionamento previsto é o seguinte:

    1. Janelas de Solicitação: O ONS abrirá períodos específicos (pelo menos duas vezes ao ano) para receber solicitações de acesso.
    2. Análise de Escassez: O operador analisará o conjunto de pedidos para cada ponto nodal da rede. Se a soma das solicitações em uma determinada subestação ou seccionamento for menor que a capacidade técnica disponível, todos podem ser atendidos.
    3. Gatilho Competitivo: Se a demanda por conexão for maior que a capacidade técnica disponível — o que é a realidade atual em praticamente todo o Nordeste e norte de Minas Gerais — torna-se obrigatória a realização de um processo competitivo (leilão de acesso).
    4. Critério de Alocação: A margem será alocada aos agentes que oferecerem o maior benefício reverso para a modicidade tarifária. Na prática, isso significa pagar um prêmio ou abrir mão de descontos para garantir o direito de conectar-se à rede. As receitas obtidas nesses leilões serão usadas para abater os encargos dos consumidores.

    4.3. Implicações para o Capex e Opex

    Esta mudança transforma o acesso à rede de um “direito administrativo” em um “ativo de mercado”. O custo de conexão deixa de ser apenas o investimento nas instalações físicas (bay de conexão, linha de transmissão restrita) e passa a incluir o prêmio de leilão.

    Isso altera fundamentalmente a curva de custo marginal dos projetos. Um projeto eólico no interior do Rio Grande do Norte, com ventos excepcionais mas em uma zona de rede exaurida, terá que pagar um prêmio alto para vencer o leilão de margem. Esse custo adicional pode anular a vantagem do recurso eólico superior, tornando mais competitivo um projeto em Minas Gerais ou Goiás com recurso solar mediano, mas onde a margem de rede é menos disputada ou o prêmio de conexão é menor.

    5. Site Selection: A Nova Engenharia de Rede e Decisão de Investimento

    Diante do cenário de curtailment físico e da precificação da margem de conexão, o processo de seleção de locais para novos projetos (site selection) sofreu uma mutação completa. A análise puramente meteorológica (mapas de irradiação e ventos) tornou-se secundária em relação à análise nodal de capacidade de rede.

    5.1. O Algoritmo de Decisão Nodal

    Para o ciclo de investimentos 2025-2030, a viabilidade de um projeto renovável depende da intersecção de três variáveis críticas, onde a rede tem peso preponderante:

    1. Capacidade Remanescente Nodal: O investidor deve analisar as Notas Técnicas conjuntas ONS/EPE (como as publicadas para os leilões LEN A-5) que detalham a capacidade de escoamento ponto a ponto. Locais com margem zero ou negativa exigirão participação em leilões competitivos incertos ou a espera por expansões de transmissão de longo prazo (5 a 7 anos).
    2. Probabilidade de Curtailment: É necessário modelar não apenas a geração bruta, mas a geração líquida após cortes. A análise deve considerar a penetração de MMGD na região. Áreas com alta densidade de geração distribuída tendem a sofrer mais cortes por “razão energética” durante os horários de pico solar, pois a carga líquida despenca, forçando o ONS a cortar a geração centralizada para manter a estabilidade.
    3. Custo de Oportunidade da Conexão: Com a PNAST, o investidor deve estimar o “bid” necessário para vencer o leilão de margem. Esse custo deve ser inserido no CAPEX inicial.

    5.2. O Retorno da Transmissão como Investimento

    O gargalo de transmissão também sinaliza onde o capital inteligente deve fluir. O governo brasileiro realizou leilões de transmissão vultosos, como o de outubro de 2025 que contratou R$ 5,53 bilhões em investimentos. Para grandes conglomerados de energia, investir na construção das linhas (Transmissão) tornou-se um hedge natural ou até mais atrativo que investir na geração, dado o baixo risco de volume e a receita fixa garantida (RAP) dos contratos de transmissão, imunes ao risco de curtailment.

    6. O Dilema da Demanda: Data Centers, IA e o Risco de Greenwashing

    O relatório do The Times alerta especificamente para o risco reputacional que a falta de rede impõe a grandes cargas, citando data centers. No Brasil, a explosão da Inteligência Artificial (IA) criou uma corrida por infraestrutura digital que colide frontalmente com a realidade da rede elétrica.

    6.1. A Necessidade dos Hiperscalers: Energia Firme e Limpa

    A expansão de data centers de hiperscala (Hyperscalers) exige volumes massivos de energia. Projetos recentes exemplificam essa escala:

    • Petrobras/Elea Data Centers: Contrato de R$ 2,3 bilhões para um data center de 30 MVA em São Bernardo do Campo (SP), focado em supercomputação e IA.
    • TikTok/Omnia: Projeto no Ceará, prometendo operar com 100% de energia renovável eólica.

    Esses projetos buscam o “Santo Graal” da infraestrutura: confiabilidade extrema (Tier III/IV, Uptime 99,98%+), baixo custo de energia e sustentabilidade auditável (Net Zero).

    6.2. O Conflito Físico: Curtailment vs. 24/7 Carbon Free Energy

    O problema reside na física do sistema interligado saturado. Se um data center se instala no Nordeste para aproveitar a energia eólica barata (via PPA), mas a rede de transmissão local está congestionada, ocorre um fenômeno de desconexão física e contratual:

    1. Cenário de Corte: O parque eólico contratado pelo data center sofre curtailment pelo ONS devido à falta de escoamento.
    2. Consumo Real: O data center, que não pode parar, continua consumindo energia da rede local. Fisicamente, essa energia está vindo do “pool” do sistema, que naquele momento pode estar sendo suprido por térmicas locais despachadas para garantia de tensão ou por fluxos de outras regiões.
    3. O Risco Reputacional: Contratualmente, o data center comprou energia verde. Fisicamente, ele consumiu energia suja ou de mix incerto durante o corte. Metodologias rigorosas de contabilidade de carbono, como o padrão 24/7 Carbon Free Energy (adotado por Google, Microsoft), penalizam essa discrepância. O “selo verde” fica comprometido, expondo a marca a acusações de greenwashing.

    Além do risco de imagem, existe o risco operacional. Redes fracas com alta penetração de renováveis (baseadas em inversores) e pouca inércia girante (geradores síncronos) são mais suscetíveis a instabilidades de tensão e frequência, o que é anátema para equipamentos sensíveis de TI.

    6.3. A Migração para o Sudeste e a “Colocalização Real”

    Diante desses riscos, observa-se um movimento estratégico de “fuga para a qualidade”. Apesar da energia mais barata no Nordeste, grandes projetos de missão crítica, como o da Petrobras/Elea, optam pelo Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro).

    A Elea Data Centers destaca explicitamente a localização de seus sites em SP e RJ pela conectividade e, crucialmente, pela infraestrutura de energia robusta, mitigando riscos de transmissão. A escolha por São Bernardo do Campo foi pautada pelo acesso à transmissão de alta capacidade, capaz de suportar cargas de 30 MVA com refrigeração líquida.

    Para viabilizar projetos no Nordeste, a solução passa a ser a colocalização real (behind-the-meter). O data center precisa estar fisicamente conectado à usina geradora, sem passar pela rede básica congestionada, ou possuir sistemas de armazenamento robustos que garantam a qualidade da energia e a “veracidade” do elétron verde consumido durante gargalos de rede.

    7. A Solução Tecnológica: O Armazenamento (BESS) como Chave Mestra

    A crise de curtailment e a saturação da rede criaram, paradoxalmente, as condições econômicas ideais para a decolagem do mercado de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) no Brasil.

    7.1. Baterias como Ferramenta de Arbitragem e Mitigação

    No Reino Unido, o uso de baterias e armazenamento bombeado é a principal estratégia para absorver o excesso de geração eólica. No Brasil, a lógica é idêntica e urgente. Baterias funcionam como “esponjas” elétricas: carregam durante os momentos de excesso de geração (quando o preço é zero ou negativo e o risco de corte é alto) e descarregam na ponta de consumo.

    A viabilidade econômica dos BESS no Brasil está sendo impulsionada por três vetores:

    1. Mitigação de Curtailment: Para um gerador, instalar uma bateria para armazenar a energia que seria cortada (e valeria zero) transforma uma perda total em receita diferida.
    2. Arbitragem de PLD: A volatilidade intradiária do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), com preços baixos durante o dia (solar) e altos à noite, cria o spread necessário para remunerar o investimento.
    3. Serviços Ancilares: Baterias podem prestar serviços de controle de frequência e tensão, essenciais para estabilizar as redes saturadas do Nordeste.

    7.2. O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026

    O governo brasileiro prepara o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) dedicado a baterias para 2026. A expectativa é contratar cerca de 2 GW de potência. Este leilão introduzirá uma receita fixa (pagamento por disponibilidade de potência), que se somará às receitas de arbitragem, tornando os projetos bancáveis.

    O mercado já reage a essa perspectiva. Consultorias projetam que o mercado de armazenamento no Brasil movimentará bilhões de reais em 2025. Empresas já implementam modelos de “BESS as a Service”, focados em peak shaving e backup para consumidores industriais, antecipando-se à regulação macro.

    Para o investidor em renováveis, a hibridização (Usina Eólica/Solar + Baterias) deixa de ser um luxo tecnológico e passa a ser a estratégia de hedge definitiva contra o risco de curtailment e a volatilidade de preços.

    8. Soluções e Parcerias Estratégicas: O Papel da Tech & Energy e da nMentors Engenharia

    Diante de um cenário onde o risco migrou da geração para a transmissão e a operação, a simples compra de equipamentos não garante mais a viabilidade do projeto. É necessária uma abordagem integrada que combine inteligência de mercado, análise regulatória profunda e engenharia de alta complexidade. Neste ecossistema, atores especializados como o think-tank Tech & Energy e a empresa de engenharia nMentors desempenham papéis complementares e críticos.

    8.1. Tech & Energy: Inteligência Estratégica e Site Selection

    O Tech & Energy Think Tank atua na camada de inteligência estratégica, fornecendo a base analítica necessária para a tomada de decisão em ambientes de incerteza regulatória e física.

    • Site Selection Multidimensional: A Tech & Energy redefine o conceito de seleção de local. Em vez de olhar apenas para o recurso solar/eólico, o think-tank analisa a “resiliência territorial”. Isso envolve mapear a capacidade nodal de rede, o risco futuro de curtailment naquela subestação específica e a estabilidade regulatória regional.
    • Playbooks de Suprimento para Data Centers: Para cargas críticas como data centers e IA, a Tech & Energy desenvolve “playbooks” táticos que equilibram CAPEX e OPEX. A análise determina o mix ideal entre conexão à rede (grid), autoprodução (behind-the-meter) e sistemas de backup prolongado, criando uma estratégia de suprimento à prova de falhas sistêmicas.
    • Análise de Tendências Globais: Monitorando mercados precursores como o Reino Unido, o think-tank antecipa cenários (como a introdução de preços zonais ou leilões de margem) e prepara seus parceiros para reagir proativamente, transformando riscos regulatórios em vantagens competitivas.

    8.2. nMentors Engenharia: Execução, Digital Twins e Resiliência Operacional

    Enquanto o think-tank desenha a estratégia, a nMentors Engenharia operacionaliza a resiliência através de tecnologia avançada e uma nova filosofia de prestação de serviços.

    • Engenharia como Redução de Incerteza: A nMentors abandonou o modelo tradicional de venda de “horas de engenharia” para focar na venda de “redução de incerteza”. Em um mercado onde uma falha pode significar meses de downtime ou perdas bilionárias em curtailment, a engenharia torna-se um seguro de continuidade.
    • Digital Twins e Simulação de Estresse: Utilizando Inteligência Artificial e IoT (AIoT), a nMentors cria Gêmeos Digitais (Digital Twins) das plantas energéticas. Isso permite simular milhares de cenários de estresse da rede em poucas horas — algo humanamente impossível — antecipando como a usina ou o data center reagirá a cortes abruptos ou oscilações de tensão, garantindo que os sistemas de proteção atuem corretamente.
    • Automação, SCADA e Cibersegurança (OT): A empresa implementa sistemas de automação robustos e SCADA que integram a geração renovável com sistemas de armazenamento (BESS). Além disso, com a digitalização do setor elétrico, a nMentors blinda os ativos contra ameaças cibernéticas (segurança OT), seguindo normas internacionais rigorosas (IEC 62443), garantindo que a infraestrutura crítica não seja vulnerável a ataques digitais que poderiam causar apagões físicos.
    • Projetos de Eficiência e BESS: A nMentors desenha e comissiona projetos de eficiência energética e armazenamento que permitem a arbitragem de preços e o peak shaving, materializando as estratégias de mitigação econômica definidas na fase de planejamento.

    A colaboração entre a visão macroestratégica da Tech & Energy e a capacidade de execução tecnológica da nMentors oferece aos investidores uma solução ponta a ponta: do site selection inteligente à operação resiliente e blindada.

    9. Conclusão e Recomendações Estratégicas

    A análise cruzada dos eventos no Reino Unido e da realidade operativa no Brasil em 2025 aponta para uma conclusão inelutável: a era da expansão de renováveis baseada puramente na qualidade do recurso natural encerrou-se. O fator determinante de sucesso para a próxima década é a capacidade de acesso e integração à rede.

    O alerta britânico de £1,5 bilhão em custos de restrição materializou-se no Brasil como um prejuízo de R$ 6 bilhões e uma reforma regulatória profunda (Decreto 12.772). O risco transferiu-se da execução da obra para a obtenção e manutenção do acesso à transmissão.

    Recomendações para Investidores e Desenvolvedores:

    1. Due Diligence de Rede Nodal: Abandonar a análise macro regional. A viabilidade de um projeto deve ser avaliada no nível da subestação. Utilize as Notas Técnicas do ONS/EPE para identificar a capacidade remanescente real. Evite áreas com margem zero, a menos que haja disposição para pagar prêmios elevados em leilões de acesso.
    2. Modelagem de Risco Regulatório: Estressar os modelos financeiros assumindo cenários de ressarcimento parcial ou nulo para cortes de geração por “razão energética”. A judicialização da REN 1.030 é um risco binário que não deve ser ignorado.
    3. Estratégia de Hibridização Nativa: Novos projetos greenfield devem prever, desde a concepção, a integração com sistemas de armazenamento (BESS). A capacidade de deslocar a curva de injeção será o diferencial competitivo para evitar cortes e capturar preços melhores.
    4. Foco em Projetos “Behind-the-Meter”: Para atender à demanda de data centers e grandes indústrias, priorizar projetos que não dependam da rede básica para entregar a energia, eliminando encargos de transmissão e riscos de curtailment físico.

    O Brasil possui um potencial renovável inigualável, mas a “mina de ouro” dos ventos e do sol agora tem um porteiro cobrando entrada: a infraestrutura de transmissão. Navegar por essa nova dinâmica exigirá sofisticação técnica, agilidade regulatória e capital paciente para investir nas soluções de flexibilidade que o sistema desesperadamente necessita.

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