Autor: Eduardo Fagundes

  • Redefinindo a indústria brasileira

    O Brasil continua bem na foto e ainda atrai investimentos do exterior. Entretanto, a política de sustentação que o governo está adotando pode nos complicar no futuro.

    Nossa péssima infraestrutura de transporte, a baixa qualificação  e alto custo da mão-de-obra, o forte intervencionismo do governo que gera incertezas e o alto custo da energia vêm, gradativamente, desestimulando os investimentos.

    Os incentivos para o pleno emprego e manutenção do consumo vem causando sérios prolemas para a indústria e para a inflação. O mecanismo é simples: o mercado de trabalho aquecido eleva os salários; O setor de serviços, protegido da concorrência externa, repassa o custo dos salários para os preços, que eleva a inflação. As empresas competem pelos trabalhadores mais qualificados, que pressiona a alta de salários e os custos da indústria. Como a indústria não consegue repassar o aumento de seus custos, devido a concorrência dos produtos importados, ocorre a queda da competitividade e a redução dos investimentos.

    Nossa indústria tem que investir na transformação de seus negócios, criando um novo portfólio de negócios com projetos de inovação. Investir para competir com produtos fabricados na Ásia inibe enxergar oportunidades de novos negócios para os consumidores brasileiros.

    Insisto em dizer que toda empresa precisa desenvolver um portfólio de novos negócios para apoiar o seu crescimento identificando novos produtos e novos mercados. Um movimento coordenado pelas associações de classe das empresas definindo com o governo as prioridades de investimentos irá redefinir o mercado para a indústria brasileira.

  • O que você acha de pagar R$10 apenas para visitar uma loja?

    É isso que uma loja na Austrália está cobrando das pessoas para caminhar dentro da loja. Grandes varejistas como Walmart, Best Buy e Target, cadeia de lojas americanas, já começam a pensar em adotar essa estratégia. Essa mudança é para combater o “showrooming”, uma prática onde uma pessoa se dirige a uma loja física para conferir os produtos antes de fazer a compra online por um preço menor.

    Uma pesquisa da ForeSee Results, cerca de 70% dos consumidores usam um smartphone em uma loja física para pesquisar os preços dos produtos. O relatório mostra que 24% dos consumidores praticam o “showrooming” e que 40% compram do concorrente.

    Aqui no Brasil algumas lojas cobram mais caro pelos produtos comprados na loja física do que na loja virtual. Um exemplo é a FastShop. Certa vez fui comprar um smartphone na loja física depois de consultar o preço na loja virtual (prática conhecida como Webrooming) e o preço estava maior. Questionei o vendedor o porquê da diferença e ele comentou que era o preço do atendimento personalizado. No final, comprei o produto pelo preço da loja virtual. Entretanto, os menos avisados pagariam mais caro.

    Para combater o “showrooming” a rede de lojas americana Target anuncia que seu plano de vendas corresponde aos preços das principais lojas virtuais. Ou seja, garante que o cliente comprará o produto pelo menor preço. Essa prática já é utilizada aqui no Brasil. A maioria das lojas físicas acaba cedendo nas negociações quando o cliente mostra um preço menor em lojas virtuais, exceção aos preços do Mercado Livre e BuscaPé.

    As Casas Bahia iniciaram uma campanha interessante. Você compra um determinado produto e ganha o direito de comprar outro de menor valor com um desconto agressivo. Ou seja, a compra de dois produtos acaba saindo mais barata.

    Uma forma valiosa de chamar a atenção dos consumidores é via Marketing de Localização, como o Apple Passbook e o Google Wallet. Quando você tem um “pass” e estiver passando próximo de uma loja física você notificado de uma promoção pelo smartphone. O recurso que a Google tem hoje de identificar que você visitou uma loja virtual e depois intensificar os anúncios dessa loja quando você estiver navegando em outros sites que publicam anúncios da Google, poderá ser estendido para o marketing de localização.

    Por outro lado, as lojas virtuais também sofrem com a prática do Webrooming, ou seja, seus preços apenas servem de referência para os consumidores comprarem nas lojas físicas, onde podem retirar o produto imediatamente. Algumas lojas virtuais estão montando lojas físicas e outras buscam promoções diferenciadas para incentivas a venda.

    Resumindo, o acesso fácil a informações de preços usando smartphones nas compras está transformando a maneira de comprar. Os consumidores estão cada vez mais no comando e cabem as lojas, tanto virtuais como físicas, se adaptarem a esse novo estilo de vendas.

  • Novas fontes de energia substituem o petróleo

    Já é oficial, o boom do xisto betuminoso (gás de xisto) americano está atingindo o mundo, segundo relatório da AIE – Agência Internacional de Energia. O petróleo que antes era enviado para os Estados Unidos agora está sendo enviado para outras países. Um ponto interessante, segundo a Agência, é que a maior parte da nova produção de petróleo mundial nos últimos cinco anos ocorreu fora dos países da Opep – Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

    As ondas de choque provocadas pelo produção de gás de xisto e petróleo leve (como o do pré-sal) estão sendo sentidas no mercado global. Os países árabes e, provavelmente, a Venezuela são os mais atingidos por essas transformações. Desta forma, a produção de combustível e outros derivados de petróleo se voltam para a América do Norte (EUA e Canadá) e o pré-sal brasileiro.

    Os maiores produtores de xisto betuminoso são a China, EUA e Argentina. Nosso vizinho já está pronto para produzir energia usando o gás de xisto. Isso irá baratear, significativamente, o custo da sua energia e poderá ser um grande fator de atratividade de investimentos internacionais. Lembrando, também, que o novo governo do Paraguai irá desenvolver sua indústria usando como atrativo a energia barata da sua parte da Usina de Itaipú.

    O Brasil têm a 10º maior reserva de xisto betuminoso do mundo. Temos um grande número de termoelétricas operadas com gás natural, que a princípio, podem utilizar o gás de xisto sem necessidade de grandes modificações e impacto na eficiência. O governo planeja para o final de 2013 fazer os primeiro leilões das reservas de xisto betuminoso.

    Além disso, a produção de energia renovável no Brasil vem  evoluindo rapidamente focadas em energia eólica e fotovoltaica. O aumento de plantas de geração faz que os custos dos equipamentos fiquem mais baratos. Importante, também, são os incentivos do governo para o setor de energia renovável e para as empresas que optarem pelo seu uso. A geração distribuída resolve o sério problema da nossa infraestrutura de transmissão, pois estando próximas das fontes consumidoras o risco de blackout diminui.

    Resumindo, o Brasil tem um enorme potencial de geração de energia através das atuais e novas fontes de energia que irão baratear os custos de produção da indústria e atrair novos investimentos para o país. A questão principal é direcionar os investimentos e os incentivos para programas eficazes de geração de energia renovável.

  • A Sustentabilidade e o Gerenciamento de Projetos

    A opção corporativa de ser uma organização sustentável é inevitável. As pressões dos consumidores e dos governos tornam essa opção imperativa e cria ameaças para a organização se não cumpridas, como perda de mercado e pesadas multas dos órgãos regulatórios. O processo de adoção de práticas socioambientais deve ser top-down (de cima para baixo) e deve refletir em todas as ações da organização. Isso afeta diretamente os projetos da empresa e altera o seu gerenciamento e métricas de desempenho.

    O conceito de sustentabilidade é sobre a harmonia entre a economia, a sociedade e o meio ambiente, criando a expressão “triple bottom line” ou “triple-P” (People, Planet, Profit). Em outras palavras, como obter “lucro” sem afetar os recursos naturais e sem causar impactos negativos às pessoas.

    A questão da responsabilidade social é tão importante que foi criada a norma ISO 26000 para dar transparência, accountability e princípios para os stakeholders. Os sete princípios estão sintetizados abaixo (fonte: INMETRO)

    1. Accountability: Ato de responsabilizar-se pelas consequências de suas ações e decisões, respondendo pelos seus impactos na sociedade, na economia e no meio ambiente, prestando contas aos órgãos de governança e demais partes interessadas declarando os seus erros e as medidas cabíveis para remediá-los.
    2. Transparência: Fornecer às partes interessadas de forma acessível, clara, compreensível e em prazos adequados todas as informações sobre os fatos que possam afetá-las.
    3. Comportamento ético: Agir de modo aceito como correto pela sociedade – com base nos valores da honestidade, equidade e integridade, perante as pessoas e a  natureza – e de forma consistente com as normas internacionais de comportamento.
    4. Respeito pelos interesses das partes interessadas (Stakeholders): Ouvir, considerar e responder aos interesses das pessoas ou grupos que tenham um interesse nas atividades da organização ou por ela possam ser afetados.
    5. Respeito pelo Estado de Direito: O ponto de partida mínimo da responsabilidade social é cumprir integralmente as leis do local onde está operando.
    6. Respeito pelas Normas Internacionais de Comportamento: Adotar prescrições de tratados e acordos internacionais favoráveis à responsabilidade social, mesmo que não que não haja obrigação legal.
    7. Direito aos humanos: Reconhecer a importância e a universalidade dos direitos humanos, cuidando para que as atividades da organização não os agridam direta ou indiretamente, zelando pelo ambiente econômico, social e natural que requerem.

    Comparando a sustentabilidade e o desenvolvimento de projetos observamos que existem diferenças significativas:

    Desenvolvimento SustentávelGerenciamento de Projetos
    Orientação ao longo prazo e ao curto prazoOrientação ao curto prazo
    No interesse desta geração e de futuras geraçõesNo interesse dos interessados no projeto (sponsor e stakeholders)
    Orientação ao ciclo de vidaOrientação à entrega e ao resultado
    Orientação a Pessoas, Planeta e LucroOrientação ao escopo, prazo e orçamento
    Ampliação da complexidadeRedução da complexidade

    Ainda existe muita discussão de como atingir um ponto de equilíbrio entre a responsabilidade socioambiental e o desenvolvimento de projetos nas organizações.

    • Contexto do projeto: Como que os princípios e aspectos de sustentabilidade influenciam no contexto social e organizacional do projeto? Qual o grau de influência no projeto?
    • Stakeholders: Como os princípios de sustentabilidade (Pessoas, Planeta e Lucro) podem beneficiar mais pessoas no projeto? Como evitar as pressões de ambientalistas e organizações de defesa dos direitos humanos?
    • Conteúdo do projeto: Como que os princípios de sustentabilidade irão influenciar nos resultados, nos objetivos e nas condições de sucesso do projeto?
    • Caso de negócio: Como que os princípios de sustentabilidade serão justificados para a aprovação do projeto? Por exemplo, o caso de negócio deverá considerar fatores não tangíveis relacionados com a sociedade e o meio ambiente.
    • O sucesso do projeto: Quais as métricas de sustentabilidade deverão ser incluídas para avaliar o sucesso do projeto, além das tradicionais métricas de lucro, produtividade e competitividade.
    • Materiais e compras: O uso de materiais recicláveis e a contratação de empresas e pessoas para o projeto devem seguir os princípios de sustentabilidade. Por exemplo, as matérias primas adquiridas de fornecedores não deverão conter resíduos tóxicos e não terem utilizado mão de obra infantil no processo de fabricação.
    • Relatórios de projeto: Os relatórios de acompanhamento do projeto devem incluir as métricas de controle dos princípios de sustentabilidade.
    • Gestão de riscos: Com a inclusão dos aspectos sociais e do meio ambiente no escopo e objetivo dos projetos, a análise de risco deve também abordar esses aspectos.
    • Equipe do projeto: Outra área de impacto da sustentabilidade é a organização do projeto e gerenciamento da equipe. Especialmente seus aspectos sociais de igualdade de oportunidades e desenvolvimento pessoal.
    • A aprendizagem organizacional: A última área de impacto da sustentabilidade é o grau em que a organização aprende com o projeto. Sustentabilidade reduz o desperdício. As organizações devem aprender como reduzir os resíduos, a energia, os recursos e materiais a partir dos erros dos projetos.

    A adoção de práticas de responsabilidade socioambiental nos projetos é fundamental para a transformação da empresa em uma organização sustentável. Entre os maiores desafios estão à mudança de visão dos empresários e do processo de mudança da cultura organizacional. Por outro lado, uma coisa é certa se sua empresa não incluir os princípios de sustentabilidade em sua operação os consumidores optarão no futuro pelo concorrente que adotou essas práticas mais cedo.