Estudo PESQ-2026-001 · Geração distribuída e mercado livre
A geração distribuída nas metrópoles brasileiras e o que ela indica para a abertura do mercado livre na baixa tensão.
Em resumo
- A geração solar distribuída não acompanha a riqueza. As 27 cidades com PIB acima de R$ 50 bilhões concentram 35% do PIB do país e 42% do valor adicionado dos serviços, mas apenas 8% da potência de micro e minigeração distribuída (MMGD).
- O morador de metrópole tem menos de um terço da geração do morador de cidade média. São 95 watts por habitante contra 337, em faixas de população semelhante, entre 48 e 65 milhões de pessoas cada.
- A barreira é física, não econômica. A diferença persiste quando se conta apenas a geração instalada na própria unidade consumidora. Nas metrópoles, falta telhado onde há prédio.
- O mercado livre na baixa tensão pode capturar essa demanda. A migração é contratual e não exige área de instalação. A hipótese do estudo é que a adesão será proporcionalmente maior onde a geração distribuída penetrou menos em relação à renda.
A geração distribuída cresceu no Brasil apoiada em uma decisão individual: o consumidor investe em painéis, gera junto ao próprio consumo e compensa a energia na conta. Se essa decisão dependesse sobretudo da renda, a potência instalada deveria se concentrar nos municípios mais ricos.
Este estudo testa essa intuição. A pergunta é como a adoção de geração distribuída varia entre os municípios brasileiros segundo o seu porte econômico, e o que essa distribuição indica para a próxima mudança do setor: a possibilidade de consumidores residenciais e comerciais escolherem o seu fornecedor de energia.
Para responder, o estudo cruza os 4,7 milhões de registros de empreendimentos de MMGD da ANEEL com o PIB municipal e a estimativa de população do IBGE. O resultado contraria a intuição e aponta um mecanismo que pesa diretamente sobre a abertura do mercado livre na baixa tensão.
Figura 1
O telhado separa dois caminhos para reduzir a conta de energia
Mecanismo proposto pelo estudo, com os valores medidos em cada faixa de município
1. Quanta geração distribuída existe em cada faixa de município?
A energia solar acompanha o PIB dos municípios?
Em valores absolutos, sim; por habitante, não. No agregado, municípios com PIB maior têm mais potência instalada. A correlação entre o logaritmo do PIB e o logaritmo da potência é de 0,81. Essa relação, porém, é em boa parte efeito de escala: cidades maiores têm mais de tudo.
A pergunta relevante é quanta geração existe em relação ao tamanho de cada economia e de cada população. Nessa medida, a relação se inverte. As quatro faixas de municípios reúnem populações de tamanho semelhante, mas um morador de metrópole tem em média 95 watts de geração distribuída no seu município, contra 337 watts nas cidades médias.
Figura 2
As metrópoles concentram um terço do PIB e menos de um décimo da geração distribuída
Municípios brasileiros agrupados por faixa de PIB
Participação no total nacional, %
- PIB
- Potência de GD
Watts de geração distribuída por habitante
Ver tabela de dados
| Faixa de municípios | Municípios | População (milhões) | Participação no PIB | Participação na GD | Watts de GD por habitante |
|---|---|---|---|---|---|
| Metrópoles (PIB > R$ 50 bi) | 27 | 48,0 | 35% | 8% | 95 |
| Grandes polos (R$ 10 a 50 bi) | 149 | 49,9 | 27% | 22% | 243 |
| Cidades médias (R$ 1 a 10 bi) | 1.045 | 65,3 | 27% | 40% | 337 |
| Pequenos municípios (< R$ 1 bi) | 4.349 | 51,0 | 11% | 30% | 319 |
Teresina gera mais energia solar distribuída que São Paulo?
O contraste aparece com nitidez entre capitais. Teresina, com PIB 36 vezes menor que o de São Paulo, tem mais empreendimentos e mais potência instalada que a capital paulista: 38.239 empreendimentos e 367,8 MW, contra 26.514 e 271,6 MW. Por habitante, a distância é de 405 watts para 23.
O padrão separa dois grupos. As metrópoles verticalizadas, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, ficam abaixo da relação média entre PIB e potência. As capitais horizontais do Centro-Oeste e do Nordeste, como Cuiabá, Campo Grande e Teresina, ficam acima.
Figura 3
Cuiabá tem 32 vezes mais geração distribuída por habitante que São Paulo
Watts de geração distribuída por habitante em capitais selecionadas, com o PIB municipal de 2023
- Capitais com PIB abaixo de R$ 50 bi
- Capitais com PIB acima de R$ 50 bi (metrópoles)
Ver tabela de dados
| Município | PIB 2023 (R$ bi) | Empreendimentos de GD | Potência (MW) | Watts por habitante |
|---|---|---|---|---|
| Cuiabá (MT) | 39,1 | 45.476 | 511,2 | 731 |
| Campo Grande (MS) | 42,3 | 50.812 | 441,2 | 454 |
| Teresina (PI) | 29,5 | 38.239 | 367,8 | 405 |
| Rio de Janeiro (RJ) | 418,5 | 42.066 | 410,6 | 61 |
| Curitiba (PR) | 120,1 | 14.713 | 305,6 | 167 |
| São Paulo (SP) | 1.066,8 | 26.514 | 271,6 | 23 |
| Belo Horizonte (MG) | 130,2 | 18.005 | 165,3 | 68 |
A geração remota explica a diferença?
Uma explicação alternativa poderia desfazer o achado. Parte da geração distribuída é remota: a usina fica em um município e os créditos abatem a conta de consumidores em outro, dentro da mesma área de concessão. Como a ANEEL registra a usina no município onde ela está conectada, um morador de São Paulo que assina energia de uma usina no interior aparece, nos dados, como geração do interior.
Para isolar esse efeito, o cálculo foi refeito considerando apenas a modalidade “geração na própria unidade consumidora”, em que painel e consumo estão no mesmo endereço. Essa modalidade responde por 63,5% da potência nacional. Mesmo sem a geração remota, o morador de metrópole tem menos da metade da geração local por habitante das outras faixas, e a proporção de domicílios com painel próprio é cerca de 2,6 vezes menor nas metrópoles que nos grandes polos e nas cidades médias.
A geração remota influencia o resultado, mas não o explica.
Figura 4
Sem a geração remota, a distância das metrópoles se mantém
Watts de geração distribuída por habitante: total e apenas geração na própria unidade consumidora (UC)
- Toda a geração distribuída
- Somente geração na própria UC
Ver tabela de dados
| Faixa de municípios | Geração na própria UC (GW) | Watts por habitante | Instalações residenciais locais por mil habitantes |
|---|---|---|---|
| Metrópoles | 3,46 | 72 | 6,3 |
| Grandes polos | 8,36 | 168 | 16,1 |
| Cidades médias | 13,80 | 211 | 16,9 |
| Pequenos municípios | 9,26 | 182 | 11,2 |
A diferença é maior no comércio?
A geração distribuída da classe comercial, comparada ao valor adicionado dos serviços de cada município, soma 0,90 kW por milhão de reais nas metrópoles e 14,97 kW nos pequenos municípios, uma distância de mais de 16 vezes. As metrópoles concentram a maior parte da atividade de serviços do país, exercida em boa parte em salas, lojas e escritórios dentro de edifícios.
2. Como interpretar os resultados?
O que os dados permitem afirmar?
- A intensidade de geração distribuída, por habitante e por unidade de PIB, é muito menor nas metrópoles do que no restante do país.
- A diferença persiste quando se considera apenas a geração instalada no próprio endereço do consumidor.
- Municípios de economia muito menor alcançaram volumes absolutos de geração iguais ou superiores aos de metrópoles.
Quais explicações são compatíveis com o padrão?
Os dados deste estudo não medem diretamente as causas. Quatro explicações são compatíveis com o padrão observado e devem ser testadas em etapas seguintes:
- Verticalização. Em edifícios, a área de cobertura por unidade consumidora é pequena e a instalação depende de decisão condominial. É a explicação mais consistente com o padrão das capitais, mas exige uma medida de verticalização por município para ser confirmada.
- Clima e consumo. Cidades quentes têm consumo de climatização concentrado nas horas de sol, o que favorece a geração solar.
- Tarifa da distribuidora. O tempo de retorno do investimento depende da tarifa local, que varia entre concessionárias.
- Irradiação solar. A produtividade de cada painel varia entre regiões.
As explicações de clima, tarifa e irradiação não ajudam a entender por que Curitiba, com clima frio, tem mais que o dobro de watts por habitante de São Paulo e de Belo Horizonte. A verticalização permanece como a hipótese principal a investigar.
3. O que isso indica para o mercado livre na baixa tensão?
A abertura do mercado livre aos consumidores de baixa tensão permitirá que residências e pequenos comércios escolham o seu fornecedor de energia. Diferentemente da geração distribuída, essa escolha é contratual: não exige telhado, obra ou autorização do condomínio. A partir dos resultados, o estudo propõe a seguinte hipótese para acompanhamento:
A adesão ao mercado livre na baixa tensão será proporcionalmente maior nos municípios onde a geração distribuída teve menor penetração em relação à renda, em especial nas metrópoles verticalizadas.
Hipótese do estudo PESQ-2026-001
O raciocínio tem dois lados.
Nas metrópoles
Há consumidores com renda e consumo para buscar uma conta menor, mas que não puderam fazê-lo pela geração própria. Esse grupo continua atendido pela distribuidora local.
Nas cidades médias e pequenas
Uma parcela relevante dos consumidores com maior conta de energia já investiu em painéis. Para quem pagou ou ainda paga o equipamento e compensa a energia gerada, a vantagem de migrar tende a ser menor.
Esta é uma hipótese, não uma projeção. Ela poderá ser testada quando houver dados públicos de migração por município. Fatores fora do escopo deste estudo também pesarão no resultado: as regras de transição, o preço da energia no mercado livre, a oferta de comercializadoras varejistas e a disposição dos consumidores em trocar de fornecedor.
O que cada público deve acompanhar?
Comercializadoras varejistas
Se a hipótese se confirmar, a demanda que a geração própria não atendeu está concentrada nos municípios de maior PIB, e não onde o mapa da energia solar sugere.
Distribuidoras
Nas áreas de concessão metropolitanas, a saída de consumidores da energia vendida pela distribuidora pode vir pela migração contratual, e não pela geração no telhado.
Regulador e formuladores de política
Acompanhar a migração por município, ao lado da penetração de geração distribuída, permite verificar se a abertura alcança os consumidores que a geração própria deixou de fora.
A geração distribuída se espalhou pelo Brasil onde havia telhado, não onde havia mais renda. As metrópoles, com um terço do PIB, ficaram com menos de um décimo da potência instalada, e essa diferença resiste quando a geração remota é retirada da conta. O mercado livre na baixa tensão oferece aos consumidores das cidades verticalizadas o caminho que o telhado lhes negou. Onde falta telhado, pode sobrar mercado.
Sobre o estudo
Fontes
- ANEEL — Relação de empreendimentos de micro e minigeração distribuída, arquivo Parquet oficial (
empreendimento-geracao-distribuida.parquet), extraído em 06/11/2026. 4.735.908 registros, 31 campos. Licença ODbL. - IBGE — PIB dos Municípios, Tabela 5938 do SIDRA. PIB total de 2023; valor adicionado setorial de 2021, último ano com abertura completa por setor.
- IBGE — Estimativas de população, Tabela 6579 do SIDRA, referência 2026.
Tratamento
- Agregação da base da ANEEL por código IBGE do município (7 dígitos) com DuckDB.
- Junção com o IBGE pelo mesmo código: 99,999% dos registros pareados. O único código sem correspondência é Boa Esperança do Norte (MT), município instalado depois de 2023, com 34 empreendimentos.
- Quatro municípios do interior do Amazonas, atendidos por sistemas isolados, não têm nenhum empreendimento registrado. São zeros observados, não dados ausentes.
- Faixas de PIB definidas antes da análise: acima de R$ 50 bi; R$ 10 a 50 bi; R$ 1 a 10 bi; abaixo de R$ 1 bi.
Reprodutibilidade
Os arquivos originais estão preservados com identificador SHA-256, e as rotinas de cálculo estão registradas no pacote de evidências do estudo.
Limitações
- Datas diferentes. A potência instalada é de novembro de 2026; o PIB, de 2023; o valor adicionado setorial, de 2021; a população, de 2026. As relações são estruturais, não de um mesmo instante.
- Local da usina e local do consumo. A geração remota e a compartilhada são registradas no município da usina. O teste com a geração na própria unidade consumidora reduz, mas não elimina, esse efeito.
- Associação, não causa. O estudo descreve um padrão. A verticalização é a explicação mais plausível, mas não foi medida diretamente.
- Estoque acumulado. Os dados mostram o total instalado desde 2008, sem distinguir o ritmo recente de adoção.
Próximos passos
- Incluir uma medida de verticalização por município (proporção de domicílios em apartamento, do Censo 2022) para testar diretamente a hipótese principal.
- Controlar por tarifa da distribuidora e irradiação solar em um modelo de regressão.
- Analisar a evolução anual das conexões para separar estoque e ritmo de adoção.
- Acompanhar os dados de migração para o mercado livre na baixa tensão, quando divulgados, e confrontá-los com a hipótese da seção 3.
Este estudo segue o protocolo de pesquisa do think tank efagundes.com. Dados, consultas e validações estão disponíveis no pacote de evidências PESQ-2026-001.
Executive summary
Brazil has 54.9 GW of distributed generation (DG) connected in 5,566 of its 5,570 municipalities. Cross-referencing 4.7 million ANEEL records with IBGE municipal GDP and population shows that rooftop solar does not follow wealth. The 27 cities with GDP above R$ 50 billion hold 35% of national GDP but only 8% of DG capacity: 95 watts per resident, against 337 in mid-sized cities. The gap persists when only on-site generation is counted, which points to a physical barrier rather than an economic one: high-rise cities lack roof space. The study proposes a hypothesis to monitor: once the low-voltage free energy market opens, a contractual choice that needs no roof, uptake should be proportionally higher in the verticalized metropolises where DG fell short of income.