Reflexões sobre o documentário “O Dilema das Redes”

O documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix, vem gerando indignação por mostrar os mecanismos de manipulação das pessoas nas redes sociais. O fato é que as redes sociais, com a instantaneidade da Internet, potencializam a manipulação das mentes das pessoas, fato que com as tecnologias do passado era um processo mais lento.

Explorar as características humanas, como o perfil psicológico e gatilhos de mentais, são técnicas utilizadas a muito tempo, algumas milenares. Os sofistas da Grécia antiga usavam a sabedoria sobre os assuntos humanos, através de raciocínios capciosos, para convencer as pessoas de suas ideias. Platão afirmava que os sofistas não se preocupavam com a solução certa, mas desejavam unicamente conseguir que todos os ouvintes estivessem de acordo com eles.

Apesar de estar no centro das atenções atuais, as fakes news, são estratégias usadas a milênios. O general Sunzi (544 a.C. – 496 a.C.), ou Sun Tzu, que supostamente escreveu a “A Arte da Guerra”, descreve cinco tipos de espiões: o espião nativo; o espião interno; o agente duplo; o espião dispensável; e, o espião vivo. Cabe ao espião dispensável disseminar notícias falsas para confundir e tornar vulnerável os inimigos.

A partir do sistema mecânico de tipos móveis de Gutenberg no século XV, considerado o invento mais importante do segundo milênio, iniciou-se a difusão em massa de ideias. A produção literária foi essencial para a disseminação de várias ideias. Entre os fatos mais marcantes foi a disseminação das ideais da Reforma Protestante, que influenciou a crítica popular europeia ao clero, em um momento onde a postura da Igreja surpreendia negativamente a população.

Mais recentemente, na era do rádio as informações eram transmitidas com maior velocidade e captavam mais a atenção das pessoas. Um caso marcante foi a transmissão ao vivo do episódio A Guerra dos Mundos, em 1938, da série americana The Mercury Theatre on the Air, onde Orson Welles narrou o episódio e muito ouvintes entraram em pânico, acreditando que o mundo estava sendo invadido por alienígenas.

A televisão inseriu um componente ainda mais persuasivo, levando o cinema para a casa das pessoas, sendo capaz de levar notícias, telenovelas, programas de auditório e filmes para muitas pessoas. Detentoras do monopólio da comunicação, grandes redes de televisão, em sua disputa por audiência buscavam atrações cada vez mais dramáticas para capturas a atenção do público e satisfazer seus anunciantes.

Notem que as tecnologias foram apenas facilitadoras da comunicação para grandes massas de pessoas. A manipulação de mentes coube e cabe aos emissores das informações. O uso da sabedoria sobre os assuntos humanos pode, potencialmente, influenciar outras pessoas dependendo do propósito dos agentes emissores.

Dentro deste contexto, as redes sociais são meios para atingir uma grande massa de pessoas, se agirem com neutralidade e equidade na apresentação das informações. A partir do momento que estas empresas manipulam as informações que serão apresentadas aos usuários, deixam de ser neutras e transparentes.

Os executivos das redes sociais afirmam que a partir do conhecimento do perfil psicológico dos usuários e de algoritmos de inteligência artificial selecionam os melhores conteúdos da rede para apresentar aos usuários e, assim, prender sua atenção e divulgar as propagandas de seus anunciantes. Infelizmente, este processo cria bolhas de usuários que pensam ou se deixam influenciar por certas ideias, reduzindo a possiblidade do contraditório. Cabe a cada pessoa a busca de outras informações, por meios diferentes das redes sociais, para questionar ou confirmar as ideais apresentadas. Terceirizar esta tarefa, como confiar nas agencias de checagem, não é uma boa alternativa.  

Um outro salto tecnológico foi o uso massificado de algoritmos de inteligência artificial, graças ao volume inacreditável de dados que são coletados dos usuários e grande capacidade de processamento, tornando a previsibilidade de suas ações, a partir de certos incentivos sensoriais, quase certa. Ou seja, conhecendo como um determinado individuo raciocina é possível apresentar a ele uma determinada propaganda, de forma quase exclusiva, levando-o a agir, quase que irracionalmente, a comprar um produto. Este produto, em alguns casos, pode ser a adesão a uma linha de pensamento.

O marketing digital, assim como no passado, utiliza a sabedoria sobre os assuntos humanos para desenvolver campanhas publicitárias para seus clientes, apoiados pelas redes sociais e algoritmos de inteligência artificial, em alguns casos algoritmos das próprias redes sociais. Os mecanismos de auto regulação da propagando no Brasil pune os desvios de conduta das agências, procurando manter um saudável relacionamento entre patrocinadores e clientes.

O filme Rede de Ódio, também da Netflix, mostra como é possível prejudicar uma pessoa pelas redes sociais, ou usando o termo corrente, como “cancelar” uma pessoa nas redes sociais. O filme vai mais além, onde o protagonista age de forma ativa para transformar um jovem em um extremista radical capaz de cometer um ato de terrorismo.

Outro exemplo do alcance das redes sociais foi o caso do cancelamento de Emmanuel Cafferty, de 47 anos, que perdeu o emprego, em junho de 2020, por ao estalar os dedos com a mão para fora do veículo da empresa depois de um trabalho de campo, seu gesto foi interpretado por um desconhecido como um gesto da supremacia branca nos Estados Unidos. Uma foto do gesto foi enviada pelo Twitter e duas horas depois a empresa suspendeu Cafferty e, posteriormente, o demitiu. O desconhecido afirmou que se excedeu no comentário, cancelou sua conta no Twitter, e Cafferty que não conhecia o significado do gesto e não tinha conta no Twitter, não consegue mais emprego pois seus potenciais empregadores vasculham a Internet e descobrem o caso e não o contratam.

Como vimos a manipulação de pessoas é milenar feita por pessoas que tem sabedoria sobre os assuntos humanos. Não podemos acusar a Internet, a inteligência artificial e as redes sociais como agentes principais dos problemas de fakes news e polarização da sociedade. O “cancelamento” das pessoas na sociedade é algo que acontece a milênios, através de acusações, algumas falsas, que resultam em atos de tortura, apedrejamento, morte na fogueira até campanhas de difamação nas redes sociais.

A solução, que buscamos a milênios, é ter uma sociedade fraterna, com respeito aos direitos humanos e sem ódio com o próximo.

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