Autor: Eduardo Fagundes

  • Por que da surpresa da Ford deixar de fabricar carros no Brasil?

    Por que da surpresa da Ford deixar de fabricar carros no Brasil?

    Curioso ler comentários de surpresa sobre a Ford deixar de fabricar carros no Brasil. Este caso é parte de um movimento global de adequação da indústria automobilista para os veículos elétricos. Infelizmente, o maior impacto é a perda de 5.000 postos de trabalho. Na mesma segunda-feira (11/01), o Banco do Brasil anunciou o plano de fechamento de 361 agências e a redução de 5.000 funcionários. Na semana anterior foi anunciada a fusão da FCA e PSA, criando a Stellantis, que pretende economizar 5 bilhões de euros por ano após a reestruturação que inclui, certamente, a redução de funcionários. Ainda na mesma semana, o valor de mercado da Tesla ultrapassou US$ 800 bilhões, superando o Facebook no ranking de empresas mais valiosas do mundo. Em dezembro de 2020, a Mercedes e Audi anunciaram o encerramento da produção de automóveis no Brasil. Como vemos a transformação dos negócios está em pleno movimento e, acredito, que tenha assumido uma curva exponencial com a pandemia da Covid-19. Muitas pessoas ainda não se deram conta que o ambiente de negócios mudou. Entretanto, uma coisa é certa, quem não acompanhar as transformações dos negócios não encontrará espaço para trabalhar em breve.

    A Ford é uma empresa centenária com grande capacidade para se reinventar. Sua missão é “tornar a vida das pessoas melhor, tornando a mobilidades acessível e econômica”. Ao longo dos anos aprendeu a acompanhar as transformações tecnológicas e as mudanças do comportamento dos consumidores. O mercado automobilístico mudou, significativamente, com a mudança do comportamento dos consumidores, optando por serviços compartilhados, e pelas fortes pressões de proteção ao meio ambiente. Em 2016, anunciou que pararia de vender carros de passeio nos Estados Unidos, como parte de um processo mais amplo de transformação que a empresa já vem investindo há algum tempo. Na prática, o objetivo é investir em segmentos mais lucrativos e em projetos de soluções de mobilidade. Dentro desta linha, a aposta é nas SUVs, provável razão para manter a fábrica na Argentina que produz a picape Ranger e descontinuou a produção do Focus. A nota que comunica o fechamento das fábricas no Brasil, a Ford diz estar comprometida com os consumidores no Brasil e na América do Sul com a nova picape Ranger, a Transit e vários de seus modelos mais icônicos, com planos de lançar diversos novos veículos conectados e eletrificados. O que chama a atenção é para a nova geração de carros conectados e eletrificados.

    Basicamente, existem duas formas de as empresas com velhos modelos de negócios sobreviverem por mais um tempo: obtendo subsídios dos governos ou associando-se entre si para uma sobrevida nos negócios. O subsídio é a forma mais fácil, porém nociva para a sociedade pela renúncia de impostos. Por questões de responsabilidade social, as empresas e os governos devem avaliar muito bem a concessão de subsídios para não prejudicar a sociedade. Em alguns casos, como para incentivar a introdução de um novo modelo de negócio, que comprovadamente seja benéfico para a sociedade no longo prazo, o subsídio pode ser justificado. A outra opção de fusão de empresas, é mais complexa, porém uma boa alternativa de transição para outros negócios, pois a economia nas operações pode financiar a criação de novos modelos de negócios, caminho seguido pela FCA e PSA com a criação da Stellantis em 2021 e por uma nova aliança global entre Ford e Volkswagen para a criação de novos produtos e tecnologias, estabelecida em 2019.

    Transformação no setor automobilístico

    A corrida no setor automobilístico é para o lançamento de carros elétricos. As novas legislações dos países europeus, destacando a Alemanha, é a proibição da fabricação de carros a combustão a partir de 2030, coincidindo com a agenda dos objetivos sustentáveis das Nações Unidas. Entretanto, várias fabricantes de carros já anteciparam o término da produção de carros a combustão. O Estado da Califórnia anunciou a proibição da venda de veículos a gasolina e diesel a partir de 2035, permitindo apenas a venda de veículos elétricos. A Volkswagen produziu o último veículo com motor a combustão na sua fábrica de Zwickau, na Alemanha, em junho de 2020. Neste movimento, muitas montadoras estão investindo em países que ainda não colocaram restrições aos carros de motores a combustão para maximizar seus investimentos em produtos. Ou seja, quando um país recebe investimento para ampliar a produção de carros a combustão não significa que o país é privilegiado.

    A Tesla, de Elon Musk, soube aproveitar as oportunidades e agregou novos conceitos no mercado automobilístico. O fato de a plataforma do Tesla ser open source, ou seja, qualquer um pode baixar e usar as patentes dos carros é uma inovação no mercado automobilístico, exceção óbvia é a tecnologia das baterias de alto desempenho. Isto significa que podemos baixar uma parte do carro e mandar imprimir em uma impressora 3D.

    A Tesla construiu em Sparks, Nevada, uma Gigafactory, nome vem da palavra ‘Giga’, a unidade de medida que representa “bilhões”. O conceito é construir em fases para que a Tesla possa começar a fabricar imediatamente dentro das seções acabadas e continuar a expandir depois disso, mesmo conceito da fábrica da Ford em Camaçari, em 2020. Outra Gigafactory está sendo construída em Berlin-Brandenburg, para produzir baterias, powertrains para uso em veículos Tesla, e para montar o Tesla Model Y, com um início de produção previsto para o final de 2021.

    Tesla Gigafactory

    Outra Gigafactory deverá ser construída na China. O governo brasileiro tenta trazer uma para o Brasil. Poucas fábricas, altamente automatizadas, produzindo bilhões de peças para atender a demanda mundial. As Gigafactories são projetadas para construir todas as partes de um carro e, provavelmente, qualquer outro produto.

    Uma mudança para as atuais concessionárias de veículos é se tornarem centros de impressão 3D de partes de carros, tornando o modelo de fábricas atuais de carros obsoleto. Desta forma, você compra uma plataforma, como por exemplo o Blanc Robot da australiana Applied EV, e em casa você projeta o seu próprio carro e manda imprimir em uma concessionária.

    Blanc Robot

    Transformação no setor financeiro

    A transformação no setor financeiro também está em curso. A venda das operações de varejo do Citibank e HSBC, globalmente, mostrou uma nova tendência do mercado financeiro. No Brasil, as operações de varejo do Citibank foram adquiridas pelo Itaú e o Bradesco ficou com as operações do HSBC, ambas em 2016. Atualmente, os bancos comerciais tradicionais enfrentam uma forte concorrência das fintechs, startups que trabalham para inovar e otimizar serviços do sistema financeiro, tendo como vantagem competitiva custos operacionais muito menores comparados às instituições tradicionais.

    Muito se irá discutir sobre os impactos da pandemia da Covid-19. Um dos impactos foi a enorme bancarização da população brasileira, com a inclusão dos chamados “invisíveis” no setor bancário. O diretor de organização do sistema financeiro e resolução do Banco Central (BC), João Manoel Pinho de Mello, afirmou em dezembro de 2020 que a autoridade monetária quer “lentamente” substituir o uso do dinheiro físico por meios de pagamentos eletrônicos. Movimento que avança e agora acelerado com o PIX, patrocinado pelo Banco Central.

    Dentro deste cenário, as atuais agências bancárias se tornam obsoletas. Os serviços de atendimento a clientes operados por sistemas de inteligência artificial podem, tranquilamente, substituir os humanos. Isto irá gerar uma nova onda de demissões no setor bancário, assim como aconteceu décadas atrás com a automação bancária.

    O futuro do emprego

    No final do dia, quando discutimos transformação de cenários de negócios com a introdução de novas tecnologias, entre na pauta as questões do emprego e da renda. É fato que uma grande parte das atividades humanas repetitivas no trabalho, sejam elas manuais ou intelectuais, será substituída pela automação. O relatório The Future of Jobs de 2020 mostra que 43% das empresas pesquisadas indicam que reduzirão sua força de trabalho devido à integração de tecnologia, 41% planejam expandir o uso de contratados para tarefas especializadas e 34% planejam expandir sua força de trabalho devido à integração de tecnologia.

    O relatório ainda mostra que, embora o número de empregos destruídos seja superado pelo número de “empregos de amanhã”, a criação de empregos está diminuindo enquanto a destruição de empregos se acelera. Os empregadores esperam que, até 2025, as funções cada vez mais redundantes caiam de 15,4% da força de trabalho para 9% (queda de 6,4%), e que as profissões emergentes cresçam de 7,8% para 13,5% (crescimento de 5,7%) da base total de funcionários, com base das empresas que responderam à pesquisa. Com base nesses números, estima-se que em 2025, 85 milhões de empregos podem ser substituídos por uma mudança na divisão de trabalho entre humanos e máquinas, enquanto 97 milhões de novos papéis podem surgir que são mais adaptados à nova divisão de trabalho entre humanos, máquinas e algoritmos.

    O grande desafio é qualificar a mão de obra para assumir os “empregos de amanhã”. O ensino à distância (EaD) assume um papel importante na qualificação da mão de obra. Segundo o relatório, houve um aumento de quatro vezes na procura de cursos online por iniciativa própria das pessoas, as empresas aumentaram em cinco vezes a disponibilidade de cursos online para seus empregados e um aumento de nove vezes de pessoas que buscam cursos online em programas governamentais. Interessante observar que as pessoas que estão empregadas deram ênfase a cursos de desenvolvimento pessoal (aumento de 88%) e as pessoas desempregadas buscaram o aprendizado de habilidade digitais, como análise de dados, ciência da computação e tecnologia de informação. Ao que parece, os desempregados estão mais bem preparados para assumir os “empregos de amanhã” que os atuais empregados.

    O papel da sociedade e do governo

    Para acompanhar as novas tecnológicas disruptivas, a transformação dos negócios e as mudanças culturais da sociedade, é necessário a disposição e colaboração de toda a sociedade e do governo. Como, em tese, o governo deve atender aos anseios e atender as demandas da sociedade, as instituições do governo, em todas as esferas administrativas, devem participar dos movimentos de transformação da economia e sociedade, coordenando iniciativas e programas para facilitar a criação de novos negócios e garantindo que existam programas educacionais que qualifiquem as pessoas para atuarem no mercado de trabalho. Os empresários devem, de forma organizada, elaborar cenários prospectivos antevendo movimentos do mercado e criar diretrizes para os órgãos do governo avaliarem os impactos na sociedade, incluindo meio ambiente, e criar arcabouços legais e programas executivos para atender as demandas. As escolas e Universidades, com base nas diretrizes, oferecem cursos e treinamentos adequados para atender as demandas de qualificação. As pessoas, conhecendo as diretrizes, buscarem qualificação para atender as demandas do mercado, incluindo iniciativas de empreendedorismo.

    As audiências públicas são importantes para obter contribuições da sociedade, vindas de qualquer cidadão, para o aperfeiçoamento de decretos, normas regulatórias de agências e projetos de lei.

    Um bom exemplo é a política industrial desenhada para ajustar os rumos do setor automotivo até 2030, a legislação que criou o programa Rota 2030. O programa concede incentivos para pesquisa, desenvolvimento e nacionalização de autopeças, eficiência energética e adoção de equipamentos e sistemas de segurança veicular. Segundo Antonio Megale, presidente da Anfavea, associação dos fabricantes de veículos, a indústria ganhou metas e ferramentas para investir e melhorar seus produtos, tornando-os mais eficientes e seguros. O programa prevê renúncia fiscal para o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para veículos elétricos híbridos que usem motor a combustão flex capazes de rodar com etanol ou gasolina em qualquer proporção.

    O programa Rota 2030 criou várias obrigações para os veículos vendidos no Brasil, nacionais ou importados, independente de adesão ao programa de incentivos: rotulagem veicular para informações sobre eficiência energética, consumo em km/l e emissão de CO2; metas de eficiência energética; e, metas de segurança. A superação destas metas gera descontos extra na alíquota no IPI a partir de 2023.

    Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), os fabricantes de veículos ou autopeças devem se comprometer a fazer investimento anuais em P&D com aportes obrigatórios mínimos, nas áreas de direção autônoma, soluções de mobilidade e logística, dispositivos de segurança, eficiência energética, modernização de processos de produção, abertura de novas fábricas e desenvolvimento de fornecedores e componentes. Com isto, os fabricantes podem deduzir até 30% dos investimentos realizados em P&D no Imposto de Renda (IR) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), limitado a 30% dos tributos devidos. Caso não registrem lucro, as empresas poderão acumular esses créditos tributários para abatimento futuro.

    A dedução aumenta para 45% do IR e CSLL caso o investimento seja feito em áreas consideradas estratégicas, que são: Manufatura avançada; Conectividade veicular e industrial; Mobilidade e logística; Propulsão alternativa a combustíveis fósseis; Direção autônoma; Inteligência artificial; Ferramental; Nanotecnologia; e, Big data.

    Outro exemplo, foi a discussão sobre o Marco Legal das Startups, dispõe sobre medidas de estímulo à criação startups e estabelece incentivos aos investimentos por meio do aprimoramento do ambiente de negócios no país. O Projeto de Lei Complementar n. 146 de 2019 foi apensado ao Projeto de Lei n. 249 de 2020, que “institui o marco legal das startups e do empreendedorismo inovador”, de autoria do Poder Executivo.

    Ou seja, temos instrumentos institucionais com diretrizes claras para o desenvolvimento do ambiente de negócios no país. Cabe a mobilização da sociedade.

    Conclusão

    Assim como a Ford deixou de fabricar no Brasil, outras empresas e setores estão em processo de transformações de seus negócios e devem causar a demissão de milhares de trabalhadores. A automação extrema das fábricas, conhecida como Indústria 4.0, reduz a mão de obra de baixa qualificação, porém requer trabalhadores altamente qualificados. As startups de tecnologia ganham espaço no mercado com novos modelos de negócios, atraindo ondas de consumidores, desafiando grandes empresas com modelos de negócios ultrapassados. O desafio é criar políticas públicas, elaboradas de forma colaborativa entre sociedade e governo, para garantir a transição dos cenários de negócios e o emprego.

  • O impacto da IA no varejo, atacado e distribuição

    O impacto da IA no varejo, atacado e distribuição

    Quando o consumidor compra um produto no MercadoLivre, Americanas, Magazine Luiza, Aliexpress ou Amazon não imagina a complexidade por trás desta operação. A simplicidade na compra, no acompanhamento do pedido e na entrega é resultado de poderosos sistemas de informação interligados em tempo real. Desde sistemas de sugestões de compras para os consumidores, sistemas antifraudes para aceitar um pedido, sistemas que garantam que os produtos mais solicitados estejam no estoque e sistemas de distribuição com rastreamento de encomendas e sistemas de avaliações para auxiliar nas tomadas de decisão de futuros compradores. Todo isto para oferecer uma experiência de compra que entre um produto em horas, no dia seguinte ou irritantes entregas com mais de um dia, que só são aceitáveis pela relação custo/benefício. Sem sistemas de inteligência artificial é impossível gerenciar todo este ecossistema de forma eficiente.

    No mercado eletrônico atual os conceitos varejo e atacado se confundem, pois as grandes lojas virtuais operam como varejistas e atacado ao mesmo tempo, conhecido com atacarejo, neologismo que reúne as duas formas de comercialização. O consumidor pode fazer a compra de um produto em uma pequena loja virtual, porém toda a infraestrutura de armazenagem, sistema de pagamento e distribuição é do Magazine Luiza ou Amazon, permitindo que a pequena loja virtual tenha um preço competitivo. Ou, comprando das Americanas o produto é enviado de um pequeno varejista que usa apenas o portal de compras das Americanas, que aumentando seu volume de vendas pode ter preços competitivos com os grandes varejistas.

    Se os critérios que os consumidores adotam para suas compras forem preço, prazo de entrega e atendimento pós-vendas, no limite, teremos poucos atacarejo virtuais com milhares de varejistas associados, permitindo vender com preços de atacado. Ou seja, voos solitários sobreviverão apenas para produtos de nicho e únicos.

    Por trás desta revolução está a inteligência artificial, reunindo montanhas de dados em seus big datas, vindos de dispositivos IoT, sites de vendas, informações bancárias dos consumidores para decisões antifraude, estoques nos armazéns, informações de rotas para otimização, despachos, recebimentos, avaliações de clientes, reclamações de órgão de defesa do consumidor, sistemas de sugestões de compras e tantas outras informações e decisões incapazes de serem tomadas por um ser humano ou organizações. Lembrando que quanto maior o número de pessoas envolvidas em tomadas de decisão maior a probabilidade de erros e lentidão nos processos.

    Isto significa, que no limite, todo varejista deve ter uma infraestrutura de atacadista, própria ou terceirizada. Quando pensamos em atacado, um dos maiores custos é a manutenção do estoque, ou seja, quanto custa manter o estoque de um determinado produto. Este custo é composto por impostos, funcionários, custos de climatização, custos de oportunidades do espaço, depreciação, seguro e custos administrativos do negócio.

    A IA entra como uma ferramenta vital para manter os custos mais baixos possíveis, monitorando o tempo que o estoque termina até o tempo que um fornecedor leva para enviar a reposição do estoque. Imagine monitorar milhões de itens em um estoque sem automação e com algoritmos de aprendizado de máquina – machine learning – para sincronizar perfeitamente o fornecimento com a demanda necessária com os melhores custos possíveis.

    Agora imagine um armazém muito grande controlado por algoritmos de IA determinando onde há espaço, qual grupo de produtos deve estar onde e como levar esses produtos para uma estação de separação, tudo de forma automática. Como nos armazéns da Amazon onde todo o transporte é realizado por robôs com algoritmos de IA para reconhecer padrões mais eficientes para se movimentarem. Em armazéns menores, os benefícios da IA estão associados ao planejamento de capacidade e alocação do espaço. Os sistemas de IA entendem o tamanho do espaço, as dimensões de cada produto e otimizará o espaço para o armazenamento do produto.

    Quando uma empresa opera diversos centros de distribuição (CD) é importante colocar os produtos certos perto da demanda. Isto evita maiores percursos, atrasos de consistentes, recursos mal alocados e custos de frota mais elevados para as entregas. A IA pode controlar o tempo do tráfego, disponibilidade de um produto, flutuações de demanda e otimização de rotas, além de reduzir as tarefas operacionais de controle da frota e notificações para os transportadores automaticamente.

    Para que faz transporte de carga sabe que um dos desafios da entrega é a última milha, que consome entre 25-28% dos custos totais de entrega. Muitas cidades têm restrições de tipo de veículo em determinados horários e a alocação de tipo certo de veículo pode otimizar as entregas com redução de combustível, economia de tempo, redução das distâncias percorridas, entre outros fatores. Um sistema eficiente de roteirização operador por um sistema de IA pode definir rotas otimizadas, automaticamente.

    O Picking, seleção de produtos no armazém, pode ser otimizado por sistemas de IA orientando os robôs ou traçando rotas otimizadas de um funcionário. Um sistema de IA aprende quais as viagens mais frequentes e otimiza tanto o local de armazém dos produtos como as rotas mais rápidas para separar os pedidos. O Packing, embalagem dos produtos, pode ser otimizado com sistemas de IA aprendendo, dinamicamente, a melhor classificação dos pacotes associado a configuração das correias transportadoras.

    Como vimos um dos critérios de compra dos consumidores é o preço. Desta forma, os varejistas e atacadistas devem monitorar constantemente os preços dos produtos, seus similares e substitutos no mercado. Os sistemas de IA e robôs de pesquisa de preços analisam os preços dos concorrentes, avaliam as margens de lucros e sugerem novos preços para aumentar as vendas, com aprovação de um supervisor ou automaticamente.

    A muito tempo, os sistemas de EDI – Electronic Data Exchange – apoiam os sistemas de reposição de produtos nos armazéns com pedidos automáticos baseados em determinados critérios pré-estabelecidos, como de estoque mínimo. Os sistemas de IA podem otimizar os sistemas de reposição alterando os critérios de abastecimento dos armazéns baseados em previsões de flutuação de demanda.

    A completa robotização dos armazéns irá tornar a operação mais barata e mais eficientes, podem trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semanas sem reduzir a produtividade, aumentando a confiabilidade das entregas e a satisfação dos clientes. O grande desafio das empresas é construir um sistema de inteligência artificial que orquestre todas as funções do varejo, atacado e distribuição como um ecossistema único – um Big Brother. Isto é possível com as novas tecnologias de IoT, Big Data, Cloud Computing, Edge Computing, robôs, Robotic Process Automation (RPA), Digital Twins, Blockchain, drones, veículos autônomos, 5G e reconhecimento de imagens controlados por inteligência artificial.

  • PMEs avançam em eficiência operacional com ERPs na nuvem

    PMEs avançam em eficiência operacional com ERPs na nuvem

    O ERP baseado em nuvem está se tornando popular pelo baixo custo de implantação levando excelência operacional para as PMEs (pequenas e médias empresas). As grandes empresas ainda mantem seus ERPs no modelo on-premises (auto hospedado em datacenter próprio). Segundo o (Gartner, 2020), o SAP s/4HANA Multi-Tenant Edition Cloud representa apenas 5% dos grandes clientes da SAP, ou seja, 95% das grandes empresas ainda utilizam o modelo on-premises. Isto abre uma enorme oportunidade para as PMEs oferecerem produtos com preços mais competitivos do que as grandes empresas, somando-se a uma estrutura mais enxuta e modelos de negócios mais flexíveis e escaláveis. As startups são as mais beneficiadas com os ERPs na nuvem, pois conseguem implantar processos operacionais eficientes, sem grandes investimentos iniciais e gastos compatíveis com suas receitas, permitindo ter foco no seu negócio principal.

    Segundo o relatório de mercado de software ERP Software Industry Outlook – Forecast (2020-2025) da (IndustryARC, 2020), o mercado global de ERP de atingir US$48,21 bilhões em 2025, crescendo a uma taxa composta anual de crescimento (CAGR) de 7,88% durante 2020-2025. Segundo o relatório, em 2018 a penetração mundial de softwares de ERP era baixa em empresas nas PMEs devido aos altos custos de implementação. Com o advento dos ERPs baseados em nuvem os custos estão diminuindo continuamente e é esperado um crescimento de 40% até 2025, entre as PMEs.

    As indústrias de processo e manufatura estão seguindo o caminho da IoT industrial para melhorar a eficiência operacional, o que resultará na geração de uma grande quantidade de dados e terá um impacto positivo no mercado de software ERP. O mercado de IoT industrial deve atingir US$ 100 bilhões em 2025, crescendo a uma CAGR de 18,56% durante 2020-2025, segundo o relatório da (IndustryARC, 2020). Nesta perspectiva, soluções com Big Data e inteligência artificial para a indústria são importantes para aumentar a eficiência operacional dos negócios.

    Segundo o (Gartner, 2020), em 2022, 30% das grandes empresas terão migrado para uma abordagem centrada no produto, com recursos dos ERPs padronizados para o seu negócio. O Gartner define um pacote de ERP em nuvem centrado no produto como um conjunto de produtos fracamente acoplados para a gestão da cadeia de suprimentos e funcionalidade relacionada à manufatura, funcionalidades de gerenciamento financeiro, compras, gerenciamento de custos e módulos especializados, como produção sob pedido e gerenciamento de serviços de campo.

    Dentro do segmento de ERPs centrados no produto em nuvem, o (Gartner, 2020) cita nove produtos: Oracle (ERP Cloud); Infor (CloudSuite); Microsoft (Dynamics 365); Epicor Software; IFS; Oracle (NetSuite ERP); QAD; Acumatica; e, Plex Systems. Um forte fornecedor na América do Sul é a brasileira Tovts.

    A expectativa é que a pandemia da Covid-19 acelere as implantações de ERPs na nuvem, pois as empresas, principalmente as PMEs, devem buscar soluções mais eficientes e de baixo custo para apoiar suas operações e, prováveis, novos modelos de negócios.

    Projetos de migração de plataforma são complexos e caros. A tomada de decisão de migração deve estar apoiado no retorno do investimento (ROI) e fatores de risco. Uma grande instalação de ERP, certamente implica em uma grande quantidade de customizações ao longo dos anos, o que torna a estratégia de migração para a nuvem complexa e única para cada empresa. Um dos pontos mais levantados pelos CIOs é a complexidade da sua arquitetura de TI que sem um planejamento minucioso eleva os riscos de migração. Obviamente, que a decisão não pode ficar na subjetividade, cada empresa de elaborar um estudo detalhado para avaliar as vantagens e riscos da migração para a nuvem, principalmente empresas de capital aberto, que devem garantir a melhor eficiência a custos baixos para seus acionistas.

    Outra vantagem da migração e adoção de ERPs em nuvem para as PMEs e startups e a pequena estrutura organizacional de suporte ao ERP, ao contrário de estruturas organizacionais de ERPs on-premise. Em um ambiente em nuvem, toda a infraestrutura de datacenter, ambiente de software, correções de software, upgrades de versões, adequações a novas legislações entre outras, são de responsabilidade do provedor de serviços. A equipe da empresa fica encarrega da gestão e atendimento aos usuários internos.

    Entretanto, é essencial que a empresa se detenha nas configurações parametrizáveis do software, evitando desenvolvimentos próprios de adequação dos processos internos da empresa. Lembrando, que os ERPs são para levar excelência operacional as empresas e reduzir custos. A não ser que um desenvolvimento interno prove que tenha um impacto significativo na eficiência nas operações da empresa, ele deve ser evitado.

    Outro ponto a destacar é que a implementação de um ERP na nuvem não é, necessariamente, um projeto de transformação digital, e sim uma automatização e integração de processos, em que geralmente não traz uma vantagem competitiva para a empresa, apenas melhora sua eficiência operacional. Se os processos de negócios da empresa não são competitivos, o ERP irá refletir a ineficiência. Para aproveitar o investimento da migração para um ERP na nuvem é importante associá-lo a outros projetos de transformação digital.

    Nas análises de retorno de investimento, é necessário adotar o conceito de TCO (Total Cost Ownership), ou seja, considerar todos os custos envolvidos no processo, como por exemplo, o custo dos funcionários parados ou com baixa produtividade devido a paralizações ou lentidão do atual sistema de gestão. Deixar de considerar estes aspectos acabam distorcendo as análises e, muitas vezes, inviabilizando projetos de adoção de novas tecnologias.

    A pandemia do Covid-19 nos trouxe um novo normal e devemos reagir frentes aos novos desafios dos negócios. Adotar novas tecnologias e abordagens estratégicas fazem parte deste contexto.

    Referências

    Gartner. (22 de junho de 2020). Magic Quadrant for Cloud ERP for Product-Centric Enterprises. Fonte: Gartner: https://www.gartner.com/doc/reprints?id=1-6I4O262&ct=190409&st=sb&aliId=eyJpIjoiSHRKTnFRUUszZFFpbmVTQiIsInQiOiJhbk9Ib0N3NkY3TnFHcWdPcktEVG9RPT0ifQ%253D%253D

    IndustryARC. (2020). ERP Software Market – Industry Analysis, Market Size, Share, Trends, Application Analysis, Growth And Forecast 2020 – 2025. Fonte: IndustryARC: https://www.industryarc.com/Research/ERP-Software-Market-Research-502166

  • O efeito Covid-19 acelerará a transformação digital nas empresas

    O efeito Covid-19 acelerará a transformação digital nas empresas

    A pandemia do Covid-19 trouxe uma profunda reflexão nos modelos de negócios das empresas. Mostrou a necessidade de acelerar a digitalização dos processos e focar na inovação para encontrar novas formas de trabalho e cortar custos. A transformação digital deixou de ser uma buzzword e tornou-se uma iniciativa prioritária para as empresas. O desafio é implementar uma metodologia para a inovação digital e mudar a cultura organizacional.

    A Covid-19 dará início a um mundo onde a insegurança e a imprevisibilidade constituem o novo normal, segundo Tony Blair em entrevista a revista Time (22/10/2020). Segundo ele, o impacto disso, junto com a enorme conta da ressaca para lidar com o vírus e a perda da atividade econômica, será um fardo a mais para os mais vulneráveis. A injustiças pré-existentes parecerão ainda mais inaceitáveis, liberando a raiva reprimida e, possivelmente, uma agitação social. As divisões sociais ficarão ainda mais evidentes e exigirão liderança politica para analisar, compreender, explicar e apontar o caminho, segundo Blair.

    Neste cenário de incertezas as empresas devem se adaptar ao novo normal, buscando novos modelos de negócios fortemente apoiados na digitalizarão e robotização dos processos industriais e administrativos.

    O primeiro passo é criar cenários prospectivos futuros para o negócio em particular, não apenas seguindo as opiniões de especialistas de mercado ou apoiando-se na legislação vigente. Devem exercitar novas formas de atender os clientes com fortes diferenciais com o menor custo possível. Os métodos de cenários prospectivos indicam as melhores estratégicas para cada situação e quais os atores influenciadores. Com isto, as empresas podem agir de forma direta e eficaz nas ações de transformação de seus modelos de negócios.

    Neste contexto, a digitalização é fundamental, criando mecanismos de comunicação em massa e altamente escaláveis, permitindo estabelecer um novo paradigma de margem de lucro. A redução do lucro por produto ou serviço é substituída pelo aumento de volume de vendas, sem aumentar os custos diretos e indiretos.

    Nos processos fabris a robotização extrema, conhecida como Industria 4.0, trará flexibilização e aumento da produção sem aumento dos custos fixos. A robotização dos processos fabris traz a redução de dois custos significativos de produção, mão de obra e energia. A mão de obra é reduzida pela automação dos processos com o uso intensivo de robôs programados através de inteligência artificial, permitindo o setup rápido da linha de produção, reduzindo a ociosidade da linha de produção. A robotização melhora a eficiência energética, permitindo que as linhas de produção operem em horários de menor custo da energia.

    A robotização dos processos administrativos, através de ferramentas de RPA (Robotic Process Automation), permite uma redução drástica do tempo das transações administrativas e um menor contingente de funcionários administrativos, significando maior eficiência e menores custos indiretos.

    Reduzir a dependência de insumos externos é um fator estratégico importante, considerando a crescente deteriorização da relação EUA-China e como a comunidade internacional irá encontrar novas formas para cooperar com a China, bem como competir com ela e, até mesmo enfrentá-la. A China antes competitiva pela mão de obra barata e subsídios para a exportação, agora se torna altamente competitiva com a extrema robotização de processos e uso intensivo de inteligência artificial, associado ao aumento significativo de mão de obra especializada.
    No Brasil, o exemplo do sucesso do agronegócio, que alcançou excelência internacional com o uso intensivo de tecnologia, deve ser seguido por outros setores da industria. O agronegócio foi pouco afetado no estágio inicial da pandemia da Covid-19 e favorecido pela valorização do dólar frente ao real, porém no médio e longo prazo pode ser afetado pela dependência de insumos externos, impactos pelo câmbio, e pela redução da renda da população dos países importadores. O agronegócio, assim como o restante da industria no Brasil, devem encontrar novos modelos de negócios para enfrentar a era pós-Covid-19.

    A transformação digital dever ser antecedida pela transformação da cultura organizacional, com o objetivo de eliminar barreiras internas resistentes às mudanças. Deve ser implantado um amplo programa de requalificação dos funcionários e identificar aqueles que podem liderar as transformações necessárias na organização. Um forte liderança é fundamental para o sucesso da transformação digital, evitando que conflitos internos atrasem a implementação das mudanças. Negligenciar esta parte aumenta as chances de insucesso dos projetos.

    Obviamente, que este movimento de transformação dos negócios afetará a maioria dos trabalhadores, podendo criar tensões sociais, como afirmou Blair. Aqui se coloca a importância da política e da responsabilidade social das empresas, criando programas de requalificação profissional e programas sociais de auxilio aos trabalhadores afetados por transformações tecnológicas e dos processos de negócios.

    Estas transformações são inevitáveis, a pandemia da Covid-19 acelerou e deu urgência nas ações de transformação digital e cultural nas organizações.