Autor: Eduardo Fagundes

  • Usinas nucleares: uma alternativa para as mudanças climáticas

    Usinas nucleares: uma alternativa para as mudanças climáticas

    Usinas nucleares reduzem os impactos das mudanças climática, gerando em um espaço reduzido alta capacidade de energia, sem emissão de CO2. As novas classes de reatores nucleares, como a da TerraPower fundada em 2006 por Bill Gates com reatores de nêutrons rápidos (FNR), podem mudar a opinião pública sobre o uso e os riscos das usinas nucleares.

    Em janeiro de 2021, existiam 442 reatores de fissão civis no mundo, com capacidade de geração de 392 gigawatts (GW). Existem 53 reatores nucleares em construção, incluindo Angra 3, e 98 reatores planejados, com capacidade combinada de 60 GW e 103 GW, respectivamente. A maioria dos reatores em construção são reatores de geração III na Ásia, que possuem tecnologia de combustível aprimorada, melhor eficiência térmica, sistemas de segurança significativamente aprimorados (incluindo segurança nuclear passiva) e projetos padronizados para redução de custos de manutenção e capital. Em 2019, a energia nuclear gerou cerca de 10% da eletricidade global. Os Estados Unidos têm a maior número de reatores nucleares, gerando mais de 800 TWh de eletricidade (20% da energia elétrica no país) com emissões zero por ano com um fator de capacidade médio de 92%.

    Apesar da energia nuclear evitar a poluição do meio ambiente e, consequentemente, doenças e óbitos relacionados, os acidentes em usinas nucleares, como o desastre de Chernobyl na antiga União Soviética em 1986, com 100 mortes diretas, e o desastre nuclear em Fukushima Daiichi no Japão em 2011, com uma morte por câncer devido à radiação, geraram uma forte corrente de opositores, como o Greenpeace e o NIRS (Serviço de Informações e Recursos Nucleares).

    Atualmente, as melhores opções de energia limpa e renovável são as hidrelétricas, fotovoltaica, eólica e biomassa. No final de 2018, a capacidade global de energia renovável era de 2.351 GW, com 50% da capacidade de fontes hídricas (1.172 GW), 24% de eólica (564 GW), 20% de fotovoltaica (486 GW) e 6% de outras fontes (biomassa, geotérmica e ondas marítimas), segundo dados da IRENA (International Renewable Energy Agency).

    O Brasil em junho de 2020 tinha uma capacidade instalada de 16 GW, com 637 parques eólicos e mais de 7,7 mil aerogeradores, sendo a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira possuem uma capacidade conjunta de 680 megawatts (MW).

    O Complexo Eólico do Alto Sertão é o maior gerador de energia eólica da América Latina, localizado na região de Caetité, na Bahia. O Alto Sertão I possui 14 parques nos municípios de Caetité, Igaporã e Guanambi, com 184 aerogeradores e capacidade de produção de 294,4 MW, a um custo de R$1,2 bilhão. O complexo Alto Sertão II tem uma capacidade de geração de 386,1 MW, com 15 parques eólicos em uma área de 150 quilômetros de extensão com 230 aerogeradores, a um custo de R$1,4 bilhão, em 2014.

    O maior parque fotovoltaico do Brasil, o Parque Solar Nova Olinda, localizado em Ribeira do Piauí (PI), possui uma capacidade instalada de 292 MW, a um custo de R$300 milhões. Nova Olinda possui 930 mil painéis fotovoltaicos espalhados por 690 hectares (equivalente a 700 campos de futebol). O Parque é conectado ao SIN (Sistema Integrado Nacional) por uma linha de transmissão de 47 km.

    A melhoria da tecnologia dos aerogeradores aumentou a capacidade de geração. Em 1985, os aerogeradores típicos tinham uma capacidade nominal de 0,05 MW e um diâmetro de 15 metros. Os novos projetos têm capacidade de 2 MW em terra e de 3 a 5 MW em alto mar.

    O Brasil possui duas usinas nucleares em operação e uma em construção, todas no Estado do Rio de Janeiro. As usinas de Angra 1 (657 MW, R$8,4 bilhões) e Angra 2 (1.350 MW, R$17,2 bilhões), juntas tem a capacidade de geração de 3 das 14 turbinas de Itaipu (14.000 MW), com um impacto ambiental menor e sem os riscos de grandes estiagens que fazem reduzir a produção de energia. A usina nuclear Angra 3 (1.405 MW) está em um longo processo de construção e promessa de conclusão em 2026, a um custo estimado de R$25 bilhões.

    Se comparamos a área do Parque Solar Nova Olinda, de 292 MW, com a futura Usina de Angra 3, de 1.405 MW, observamos a grande diferença de área. Nova Olinda tem uma área de 6.900.000 metros quadrados, enquanto Angra 3 tem uma área de 82.000 metros quadrados. Ou seja, Nova Olinda produz 42 watts por metro quadrado, enquanto Angra 3 produzirá 17.134 watts por metro quadrado. Cada painel fotovoltaico gera em média 150 watts por metro quadrado, porém deve existir espaçamento entre os painéis para evitar sombreamento, que interfere na eficiência da geração de energia.

    As usinas nucleares brasileiras usam um reator chamado PWR (Pressurized Water Reactor), originalmente projetados para servir como propulsão marítima nuclear para submarinos nucleares. Em um PWR, o refrigerante primário (água) é bombeado sob alta pressão para o núcleo do reator, onde é aquecido pela energia liberada pela fissão dos átomos. A água aquecida de alta pressão então flui para um gerador de vapor, onde transfere sua energia térmica para água de baixa pressão de um sistema secundário onde o vapor é gerado. O vapor então aciona turbinas, que giram um gerador elétrico. Os PWRs são os mais utilizados no mundo, exceção no Japão e Canadá. Diferente do reator de Chernobyl que usava grafite para controlar o processo. Depois da explosão de vapor, o grafite incendiou, enviando radioatividade para atmosfera, demorando oito dias para ser controlado. Como a água não pega fogo, um acidente igual ao de Chernobyl é impossível de acontecer em Angra.

    A geração de energia por usinas nucleares é considerada de base, ou seja, usam uma fonte de energia armazenada, as hidrelétricas armazenam energia em seus lagos de reserva e as usinas térmicas as fontes de armazenamento é o gás, óleo ou carvão. As fontes de energia de base são necessárias para suprir, eventuais, oscilações de geração de sistemas de geração intermitentes, com as usinas fotovoltaicas e eólicas, causadas por baixa radiação solar em dias nublados ou ventos fracos, respectivamente. Ou seja, à medida que cresce a capacidade de energia intermitente deve crescer a capacidade de energia de base.

    Em junho de 2019, no evento “The World Nuclear Industry Today”, promovido pela World Nuclear University, André Pepitone, diretor-geral da Aneel, salientou a importância do debate sobre energia nuclear, dizendo: “Fontes como eólica e solar, que são importante e estão avançando, são complementares e precisam de uma geração de base, como a das hidrelétricas e a nuclear”. A energia nuclear está, totalmente, em linha com as principais metas do setor de energia: descarbonização, digitalização e descentralização.

    Para a expansão das discussões e criação de novos projetos de energia nuclear é fundamental a contínua capacitação de pessoal. A Eletronuclear, através do seu departamento de desenvolvimento de novos empreendimentos, incentiva a inovação através do Prêmio de Inovação das Empresas Eletrobras. Em janeiro de 2021, foram anunciados os projetos vencedores: Desenvolvimento de robô com operação remota para remoção de contaminantes radiológicos do interior de dutos de ventilação, uma tecnologia nacional; Sistema de cloração de Angra 1: hipoclorito de sódio gerado a partir da água do mar, uma nova realidade; e, Atualização tecnológica do controle digital do sistema de controle da turbina.

    A Universidade São Paulo (USP) começou a oferecer a partir de 2021 o curso de Engenharia Nuclear pela Escola Politécnica, em seu campus Cidade Universitária, em parceria com o Instituto de Pesquisas Energética e Nucleares (Ipen). O curso habilita os alunos em atividades como projetar instalações nucleares, delinear processos de fabricação de combustíveis nucleares, operar e gerenciar reatores ou instalações que fazem uso de fontes radioativas, trabalhos em laboratórios de controle de qualidade com acesso a materiais radioativos e realizar análises de falhas em equipamentos nucleares.

    Havendo uma redefinição da política energética brasileira para a expansão das usinas nucleares poderíamos aproveitar uma característica que poucos país possuem: temos uma das maiores reservas de urânio do mundo, localizada na Bahia; temos tecnologia para enriquecer o material, em Resende no Estado do Rio de Janeiro; e, possuímos expertise técnica operando usinas nucleares por três décadas.

    Mini reatores nucleares

    Uma nova geração de mini reatores nuclear está entrando em cena e podem mudar o paradigma de segurança da energia nuclear. A Rolls-Royce anunciou para 2029 a construção de até 15 mini reatores na Grã-Bretanha. Estes reatores podem ser transportados por caminhões comuns. Cada usina é projetada para ter uma vida útil de 60 anos e gerar 440 MW de eletricidade. Ou seja, 67% da capacidade de Angra 1, que entrou em operação em 1982.

    A americana NuScale teve seu mini reator nuclear aprovado nos Estados Unidos em setembro de 2020. O projeto da Oregon State University desenvolvido com recursos do Departamento de Energia norte-americano, tem um cilindro de aço de 23 metros de altura por 5 metros de largura, capaz de produzir 50 MW de eletricidade. Uma usina com 13 cilindros teria a mesma capacidade de Angra 1, em uma área menor. O projeto da NuScale é convencional usando barras de urânio para aquecimento de água em um circuito interno pressurizado, transferindo calor de alta intensidade para um circuito de vapor externo para acionar a turbina geradora de energia. O projeto foi certificado pela NRC – Nuclear Reactor Regulation – devido suas características passivas que garantem que a usina nuclear desliga com segurança e permaneça segura em condições de emergência, se necessário. A empresa afirma que terá seus primeiros reatores implantados até meados da década de 2020.

    A TerraPower está desenvolvendo uma classe de reatores nucleares rápidos chamados de reator de ondas viajantes (TWR – Traveling-wave reator). O conceito é colocar um pequeno núcleo de combustível enriquecido no centro de uma massa muito maior de material não físsil, como o urânio empobrecido. Os nêutrons da fissão no núcleo “geram” novo material físsil na massa circundante, produzindo o Plutônio-239 (Pu239). Com o tempo, o combustível é gerado na área ao redor do núcleo para que também comece a sofrer fissão, enviando nêutrons mais para dentro da massa e continuando o processo enquanto o núcleo original se queima. Ao longo de décadas, a reação se desloca do núcleo do reator para o exterior, dando assim o nome de “onda viajante”.

    A tecnologia de reator rápido de cloreto fundido (MCFR) da TerraPower é um tipo de reator de sal fundido (MSR), onde os sais fundidos ou líquidos servem como refrigerante e combustível do reator. O projeto MCFR requer especificamente sal de cloreto fundido, que permite uma operação de espectro rápida. No espectro de nêutrons rápidos, os nêutrons não são desacelerados (por exemplo, colidindo com água ou grafite) e se movem muito rapidamente, tornando a reação de fissão mais eficiente. Em núcleos MCFR, a fissão nuclear ocorre e aquece os sais de combustível diretamente. O MCFR, então, distribui calor do sal de combustível fundido através de um trocador de calor para um sal inerte em um segundo circuito. O calor do circuito secundário não nuclear é então usado com segurança para geração de eletricidade, calor de processo ou armazenamento térmico.

    Conclusão

    Um dos maiores desafios da humanidade é buscar soluções para mitigar os impactos das mudanças climáticas e, simultaneamente, alimentar e dar renda para uma população cada vez maior. A energia é uma componente essencial para as atividades humanas, necessária para o funcionamento da indústria e de quase todas as facilidades tecnológicas que aumentam a qualidade de vida.

    A geração de energia a partir de fontes renováveis, como fotovoltaica e eólica, são as mais utilizadas e em franca expansão, uma vez que as fontes hídricas são limitadas e sofrem restrições ambientais.

    Como as fontes de geração fotovoltaica e eólica são intermitentes, variam a produção de acordo com as condições climáticas, é necessário que matriz energética do país tenha uma reserva de energia de base, movidas por fontes primárias que armazenam energia, como lagos de reserva, gás, óleo e nuclear.

    As plantas eólicas e fotovoltaicas exigem grandes áreas para a instalação de aerogeradores e painéis solares, com baixa eficiência de produção de energia por metro quadrado e distantes dos grandes centros, sendo necessárias longas linhas de transmissão para levar a energia aos locais de consumo.

    Diferente das usinas nucleares que concentram em uma pequena área uma grande capacidade de produção de energia e, com a segurança aprimorada das novas tecnologias nucleares, podem ficar próximas dos locais de consumo.

    Os mini reatores nucleares estão em pleno desenvolvimento e devem atender as novas demandas por energia. A TerraPower, fundada por Bill Gates, desenvolveu uma tecnologia de reator rápido de cloreto fundido (MCFR). O projeto MCFR tem o potencial de ser um reator de custo relativamente baixo que pode operar com segurança em novos regimes de temperatura mais alta, o que significa gerar mais eletricidade. Ou ainda, o projeto da Rolls-Royce com mini reatores de 440 MW, construindo plantas modulares para funcionarem até 2029.

    Acredito que o Brasil deveria rever sua política da matriz nuclear e incentivar projetos de mini reatores nuclear, aproveitando suas reservas de urânio, uma das maiores do mundo, sua tecnologia de enriquecimento do material e sua expertise em geração nuclear. Iniciativa que contribuiria para evitar as mudanças climáticas e assegurando energia abundante para o crescimento econômico do país e, consequentemente, gerando emprego e renda para a população.

  • Os carros autônomos e as perturbações do mercado: o efeito borboleta

    Os carros autônomos e as perturbações do mercado: o efeito borboleta

    O efeito borboleta faz parte da teoria do caos, que mostra dependência sensível de variáveis às condições iniciais, onde uma pequena mudança em um estado de um sistema não linear determinístico pode resultar em grandes diferenças em estado posterior. O termo “efeito borboleta” está associado as pesquisas de Edward Lorenz. A proposta deste artigo é iniciar uma discussão sobre os efeitos na sociedade e mercado com a introdução de carros autônomos. Quais as perturbações do mercado e o que mudará na rotina das pessoas e da economia?

    O termo “efeito borboleta” refere-se à ideia de que as asas de uma borboleta podem criar pequenas mudanças na atmosfera e podem, no limite, alterar a trajetória de um tornado ou atrasar, acelerar ou mesmo impedir a ocorrência de um tronado em outro local. A borboleta não dá força ou cria diretamente um tornado, porém é pode ser parte inicial de um conjunto de condições que leva a um tornado.

    Partindo desta hipótese, o que mudará com a gradativa substituição dos motoristas de carros convencionais por carros com sistemas autônomos?

    Eu trabalho e ensino cenários prospectivos que procuram prever o futuro, na verdade, identificando variáveis motrizes e dependentes que se tratadas e podendo ser influenciadas através dos atores envolvidos, direta ou indiretamente, podem criar um cenário no futuro de acordo com a imaginação de uma pessoa ou grupo de pessoas. A criação de cenários prospectivos foi impulsionada com o uso de inteligência artificial, ampliando as possibilidades de simulações.

    O importante nestes estudos é prestar a atenção em pequenas mudanças e avaliar o seu impacto futuro.

    A SAE – Sociedade dos Engenheiros Automotivos – definiu o nível de automação dos carros em cinco níveis distintos, que vão do SAE 0 a SAE 5.

    • SAE 0 – Sem automação. Todos os controles dependem dos humanos;
    • SAE 1 – Assistência ao Condutor. O sistema consegue ajudar o motorista com atividades simples, como manutenção da velocidade;
    • SAE 2 – Automação parcial. Além de manter a velocidade, ajuda o motorista a manter sua direção, mas é necessário um humano assumir o controle em caso de risco;
    • SAE 3 – Automação condicional. O veículo pode se movimentar por conta própria, tanto na parte de aceleração e direção quanto no monitoramento ativo do ambiente, mas o humano tem que assumir o controle em caso de risco;
    • SAE 4 – Alta automação. Neste nível o motorista pode até dormir ao longo do trajeto, onde praticamente todas as atividades são realizadas pelo sistema autônomo;
    • SAE 5 – Automação completa. Neste nível, provavelmente, os motoristas se tornarão passageiros e proibidos de dirigir, aumentando o nível de segurança dos carros.

    A Statista, empresa alemã de pesquisa, estima que em 2024 serão vendidos no mundo 18,43 milhões de veículos com automação nível 2, que permite ao motorista tirar as mãos do volante, e 860.000 veículos com níveis de automação condicional, alta e completa. O Gartner, consultoria americana de tecnologia, estima para 2023 a venda de 745.705 veículos com níveis automação sem supervisão humana, nível 3 e acima. Ou seja, as estimativas são consistentes.

    Investimentos de pesos pesados da tecnologia estão investindo em P&D para veículos autônomos, além da Tesla e Alphabet. A Amazon está trabalhando em um veículo autônomo multifuncional com a Toyota. A Apple contratou o ex-Waymo e engenheiro da NASA em junho de 2018 para liderar o Projeto Titan, hoje possui 70 veículos autônomos circulando na Califórnia. A APTIV fez mais de 100.000 corridas de taxi sem motorista em Las Vegas em colaboração com a Lyft. A Autoliv se associou à Volvo para desenvolver um software automotivo autônomo. A chinesa Baidu já rodou 3 milhões de quilômetros com veículos autônomos em ambientes urbanos, explorando um mercado potencial na China de US$500 bilhões até 2030, de acordo com a McKinsey. A Bosch investiu US$1,1 bilhão em uma instalação para a produção de semicondutores para tecnologias de autodireção, casas e cidades inteligentes, e tem mais de 2.000 engenheiros dedicados para desenvolver tecnologias de assistência ao motorista. A Cisco começou a construir uma infraestrutura para direção autônoma com a MDOT (Michigan Department of Transportation) em 2017. A fornecedora automotiva alemã Continental fez uma parceria com a Nvidia para construir sistemas de veículos autônomos. A Ford tem planos para implantar veículos autônomos até 2022, adquiriu a startup Argo AI, estabeleceu parcerias com a Domino’s e Walmart para pilotos de entrega autônomos e, fechou uma parceria com a Google para ter o Android e serviços em seus carros. A GM lançou o Super Cruise semiautônomo em 2018 e busca aprovação regulatória para implantar veículos Cruise Orign sem pedais e volante. A Honda tem planos para produzir veículos nível 3 de automação em massa aprovado pelo governo japonês. A Huawei fez uma parceria com a Vodafone para trabalhar em tecnologias móveis para conexão de veículos. A Hyundai está investindo US$35 bilhões ao longo de 5 anos em direção autônoma e se juntou à gigante russa de tecnologia Yandex para desenvolver tecnologia autônoma. A Jaguar Land Rover concentra-se na assistência à direção e faz parceria com a Waymo para construir carros autônomos. A Microsoft fornece serviços de nuvem Azure para empresas que trabalham com carros autônomos e fornece sua tecnologia HoloLens (soluções de realidade misturada) para a Volvo. A Samsung recebeu aprovação da Coreia do Sul para testar seus carros autônomos. A Tesla lançou o Autopilot, sua tecnologia semiautônoma de assistência ao motorista em 2014 e o Autopilot Hardware 3 em 2019. A Volkswagen fez uma joint venture de US$7 bilhões com a Ford em 2019 para desenvolvimento de tecnologia na plataforma de direção autônoma Argo AI da Ford. Waymo da Alphabet recebe licença para robotaxis na Califórnia e expande sua frota e serviços. A BlackBerry investe deste 2010 no setor automobilístico quando comprou a QNX, agora com planos para se tornar líder em software para carros autônomos e semiautônomos.

    Como percebemos existe um esforço internacional para a implantação de veículos autônomos. Interessante observar que em 135 anos do nascimento do carro moderno com o Benz Patent-Moterwagen, pelo alemão Karl Benz, só agora com as tecnologias de computação e telecomunicações é que estamos experimentando uma mudança radical na direção dos carros.

    Como vimos as empresas do setor automobilístico já estão em plena transformação do seu negócio e se adequando ao novo modelo. Gradativamente, reduzindo os modelos e produção de carros movidos a combustão e investindo mais em tecnologias de veículos autônomos, como o caso da Ford. O grande desafio para as tradicionais empresas do setor automobilístico e que estão concorrendo com empresas do setor de tecnologia da informação, como a Waymo da Alphabet, Apple, Samsung, Baidu e Amazon.

    Todo este movimento global de veículos autônomos está gerando ondas que perturbam o mercado e geram o efeito borboleta.

    Alguns efeitos são claros, como a substituição dos motoristas de carros compartilhados e de caminhões. A chinesa TuSimple obteve autorização para colocar 5.000 caminhões para rodar nas estradas chinesas em 2021, a partir de um piloto nos arredores de Xangai transportando contêineres para o porto de Yanshan, sem nenhum acidente grave. Isto irá reduzir o número de motoristas que devem migrar para outras atividades.

    Com menor incidência de acidentes, já que sabidamente a maioria é por falha humana, a indústria de reparos será afetada, reduzindo suas atividades e gerando mais desemprego. A consultoria McKinsey estima que os veículos autônomos poderão reduzir as colisões em até 90%. Com isto, o mercado de seguros de automóveis irá declinar com a simples suspensão dos seguros de carros ou tendo que reduzir drasticamente os valores dos prêmios. A indústria de saúde também será afetada, pois com menos acidentes terão menores custos e, deverão praticar menores valores de seguro saúde. Os hospitais também poderão reduzir a infraestrutura para atendimento de acidentados e, consequentemente, reduzir seu staff médico, incluindo enfermeiros e enfermeiras.

    O transporte público também será afetado, pois com a maior disponibilidade de carros compartilhados autônomos, sem motoristas, as pessoas poderão se deslocar de um ponto a outro com maior facilidade, sem o inconveniente de usar rotas pré-definidas.

    Outro impacto será nos hotéis ao longo das estradas para descanso dos motoristas. Uma vez que os passageiros poderão dormir nos carros autônomos, não haverá a necessidade dos hotéis. As companhias aéreas regionais perderão passageiros, pois muitos optarão em seguir viagem de carro, trabalhando ou dormindo, do que enfrentas o stress dos aeroportos.

    Com o aumento dos veículos autônomos em constante circulação provocará maior ociosidade de vagas de estacionamento, que poderão ser utilizadas para outras finalidades, podendo até gerar um novo boom imobiliário para trazer as pessoas para mais perto do trabalho.

    Poderemos migrar do home-office para o car-office, uma vez que os motoristas não precisarão prestar atenção no trânsito. Com isto, as pessoas podem optar em viver longe dos centros urbanos e adquirirem melhor qualidade de vida.

    Os restaurantes poderão ser afetados se existirem configurações de carros autônomos com ambiente para refeições, explorando novas experiencias para os consumidores. Hotéis e motéis também poderão ter seus atuais clientes migrando para carros autônomos.

    Os carros autônomos associados com a eletrificação reduzirão os congestionamentos e contribuirão para a melhoria do clima.

    Por último, sem esgotar outras possibilidades, este movimento de carros autônomos poderá reduzir a fabricação de carros, pois os consumidores migrarão para os novos serviços compartilhados oferecidos.

    Resumindo, os investimentos de várias empresas do setor automobilístico e de tecnologia em carros autônomos irá introduzir rapidamente novos hábitos nos consumidores que afetará outros setores, com maior ou menor intensidade, produzindo o chamado “efeito borboleta”.

  • Desligue o automático do seu cérebro e construa negócios disruptivos

    Desligue o automático do seu cérebro e construa negócios disruptivos

    Nosso cérebro opera em dois modos, o Sistema 1 e o Sistema 2. No primeiro, o cérebro opera no automático, os processos mentais não requerem esforço deliberado e operam de maneira inconsciente, sendo deficiente em raciocínio e estatístico. O Sistema 2, ao contrário, é mais lento e mais esforçado, exigindo esforço e energia mental. A maioria das pessoas tentam evitar utilizar o Sistema 2. Afinal, raciocinar é considerado muito chato para muitos. É muito mais agradável rolar o feed do Instagram, vendo fotos e textos curtos, do que ler um livro, planejar a carreira profissional ou elaborar um modelo de negócio disruptivo. Sabendo disso, o marketing utiliza gatilhos mentais para gerar estímulos para o cérebro dos consumidores convencendo-os a fazer uma compra.

    Os termos “Sistema 1” e “Sistema 2” foram criados pelos psicólogos Keith Stanovich e Richard West, e popularizados pelo psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel, no livro Thinking, Fast and Slow, 2012. A edição brasileira chama-se Rápido e Devagar: duas formas de pensar.

    Como todos sabem disso, quase tudo que fazemos é para gerar gatilhos mentais nas pessoas que nos relacionamos para acionar apenas o Sistema 1, ou seja, não deixando as pessoas racionarem.

    Se somos influenciados ou induzidos a fazer alguma coisa de forma inconsciente, apenas usando o Sistema 1. Quando mais complexo for um problema, menos recorremos à mente consciente, racional e lógica, e mais decidimos as coisas pela nossa mente inconsciente, intuitiva e emocional.

    Se observarmos as imagens se tornaram predominantes em nossas vidas. Paramos de rolar um feed quando vemos uma imagem agradável, bizarra ou sensual. Com isto, podemos escolher imagens para transmitir certos sentimentos para a formação de opinião das pessoas, de forma inconsciente.

    Este assunto é tão importante que na China existe um campo de treinamento, aos moldes de campos militares, para a recuperação de pessoas, principalmente jovens, viciados em internet. Os internos passam por um programa, desenvolvido pelo psiquiatra Tao Ran, que tem a opinião que a dependência à internet leva a problemas no cérebro semelhantes aos provocados pela heroína. Outro estudo da King’s College, de Londres, revelou que a distração por avisos sonoros de e-mails afeta mais os testes de QI do que os efeitos da maconha.

    Neste complexo tema sobre decisões, temos o que a psicologia chama de “cegueira das escolhas”, onde nem sempre as pessoas estão conscientes de suas próprias escolhas e preferências. Mesmo assim, quando tomam uma decisão são capazes de defender e justificar suas escolhas, de forma eloquente.

    Talvez você já tenha passado pela situação de alguém te levar um problema e você, em um passe de mágica, tem uma solução pronta para resolvê-lo. Isto pode te encher de orgulho e lustrar a sua autoestima pensando: “Puxa! Como eu sou bom”. Do lado de quem te pediu ajuda, adquiriu o conhecimento de como fazer e deverá usar a mesma solução em outras situações semelhantes, podendo eternizar este “novo saber”.

    Em uma outra situação, hoje tão comum para as pessoas, é quando têm uma dúvida buscam a solução no Google. Afinal, “googlar” é mais fácil e rápido do que pensar.

    Como já deu para perceber, utilizar apenas o Sistema 1, corremos o risco de perpetuar indefinidamente uma prática por anos a fio. Infelizmente, perde-se, constantemente, oportunidades de pensar em algo diferente, uma nova forma de fazer algo.

    Se deixarmos o nosso cérebro operar apenas no Sistema 1 nunca sairemos do lugar. Teremos a sensação de evolução quando adotarmos decisões de outras pessoas.

    O que deveria ter sido feito para criar algo? Aproveitar a oportunidade da pessoa que perguntou não ter vícios e questioná-la sobre alternativas para resolver o problema. Isto a levaria a utilizar o Sistema 2, racionando em maneiras de resolver o problema.

    Agora, imaginem o desafio das pessoas de identificar novos modelos de negócios disruptivos. Como introduzir uma cultura de Sistema 2 na vida das pessoas e nas organizações?

    Em outras palavras, como fazer as pessoas pensarem?

    A melhor forma é estabelecer objetivos desafiadores. No início, não precisa ser um desafio do tipo Elon Musk de colonizar Marte. Podemos iniciar com um desafio de eliminar 80% as falhas de um processo, reduzindo 30% do custo deste processo. Ou como entregar uma encomenda no dia seguinte sem alterar os custos de logística e estoque.

    Para implementar uma cultura de Sistema 2 é preciso ter um controle absoluto dos processos da empresa. Hoje facilitado com Big Data, ferramentas analíticas e monitoração remota de processos e, fundamentalmente, treinar os líderes para serem capazes de identificar as oportunidades e formular os desafios.

    Isto parece fácil, mas pare para pensar um pouco e analise se os líderes conhecem realmente os principais problemas da sua empresa. Provavelmente, este será o primeiro desafio.

    Formulados os desafios, a próxima etapa e buscar soluções disruptivas. Muitas vezes, a cultura interna das organizações inibe a criação de ideias disruptivas, principalmente, naquelas organizações onde os erros são punidos.

    Uma alternativa para contornar as restrições internas é optar pela inovação aberta, compartilhando os desafios com fornecedores e empreendedores de startups.

    Classificando isto como pesquisa e desenvolvimento (P&D) sua empresa pode conseguir benefícios fiscais que incentivam a inovação.

    Resumindo, tire um tempo para acionar o Sistema 2 do seu cérebro.

  • Será que a Ford está seguindo o propósito do Henry?

    Será que a Ford está seguindo o propósito do Henry?

    Henry Ford tinha o propósito de conseguir a paz através do consumismo. Em uma sociedade onde os indivíduos têm acesso a produtos e serviços que satisfaçam suas necessidades, em tese, é uma sociedade que vive em paz. Algumas de suas ações demonstram este propósito: através da eficiência operacional reduziu o preço do carro de US$825 (1908) para US$360 (1916), elevou o salário-mínimo diário de US$2,34 para US$5 para trabalhadores qualificados, contratava 300 funcionários para áreas que tinham 100 vagas, ofereceu participação nos lucros para funcionários com mais de seis meses, reduziu a jornada de trabalho de 48 horas para 40 horas semanais (para ele lazer não era tempo perdido ou privilégio de classe), contratava ativamente trabalhadores negros, mulheres e homens deficientes em uma época em que isso era incomum. Esta visão de Henry Ford forjou a Ford Motor Company, tornando-a uma das maiores empresas automobilísticas do mundo. A vida de Henry Ford foi também marcada por várias posições polêmicas e atitudes questionáveis, como o antissemitismo, que devem ser analisadas dentro do contexto da época em que ele viveu.

    O propósito de Henry Ford era focado nos indivíduos, tanto consumidores com funcionários, buscando formas de atender com produtos e serviços a um grande número de pessoas.

    A atual declaração de missão da Ford é: “Nossa missão é fortalecer comunidades e ajudar a tornar a vida das pessoas melhor. Nosso propósito é impulsionar o progresso humano por meio da liberdade de movimento”. A missão está em consonância com o propósito do seu fundador.

    Ao que parece, quem tem ideias parecidas e com capacidade de realização é Elon Musk. Seu propósito, segundo afirma, é resolver os maiores problemas do mundo: com a Tesla, sua empresa de carros elétricos, ele tenta resolver parte das alterações climáticas; com a Boring Company, cavando uma rede de túneis abaixo das cidades, ele tenta resolver os problemas de congestionamentos de trânsito nos grandes centros urbanos; e, com a SpaceX ele está tentando colonizar o planeta Marte para salvar a humanidade da extinção.

    Musk está introduzindo uma nova visão de construção de veículos nas Gigafactories da Tesla usando automação extrema na produção, permitindo que as peças de seus carros possam ser reproduzidas por outras pessoas, através do conceito de open source, preservando os direitos da tecnologia das baterias e softwares de automação. Isto deve tornar os carros da Tesla acessíveis para um grande número de pessoas, com o passar do tempo, assim como aconteceu com os PCs e os primeiros carros de Henry Ford.

    Ao que parece, o propósito de Elon Musk de resolve alguns dos maiores problemas do planeta está gerando riqueza e reputação para as empresas de Musk. Similar ao que aconteceu com Henry Ford no início da Ford Motor Company.

    Em janeiro de 2021, a Ford anunciou o encerramento da produção de carros no Brasil e a dispensa cerca de 5.000 empregados, continuando no Brasil como uma importadora de veículos. Em um comunicado a Ford afirma que anunciará novos modelos para o Brasil, incluindo um novo veículo híbrido plug-in, com expansão dos serviços conectados e introdução de novas tecnologias autônomas e de eletrificação. Se associarmos o propósito de Henry Ford com os planos da Ford no Brasil, teremos veículos baratos produzidos com a máxima eficiência operacional com empregados bem remunerados, para satisfazer as necessidades dos consumidores, trazendo paz para a sociedade.

    Em entrevista para o The New York Times em dezembro de 2020, Bill Ford, disse que a opção da Ford é desenvolver carros híbridos com força e com grande sucesso, até que a infraestrutura estiver pronta para investir forte na eletrificação. A Ford está eletrificando os seus veículos mais vendidos e seus carros mais icônicos, como o F-150 e Mustang. Sobre a Tesla, ele dá os créditos para a empresa pelo pioneirismo e por abrir o caminho para todos da indústria automobilística, e espera para ver como será o mercado daqui a cinco anos.

    O propósito de criação da Volkswagen teve uma das motivações de Henry Ford, construir carros baratos que quase qualquer um pudesse pagar. Sua missão atual é tornar a mobilidade sustentável para a atual e futuras gerações, através de veículos com acionamento elétrico, rede digital e direção autônoma, construindo veículos ecologicamente limpos, silenciosos, inteligentes e seguros. Se combinarmos propósito e missão, a Volkswagen deveria produzir seus novos veículos (limpos, silenciosos, inteligentes e seguros) para que quase qualquer um pudesse pagar.

    Acredito que apenas ter carros elétricos de alto desempenho não é e não será o diferencial competitivo no mercado automobilístico. A nova geração é adepta ao minimalismo e ao consumo sustentável. O home-office e o trabalho autônomo estão reduzindo a necessidade de deslocamentos frequentes entre a casa e o escritório. Os deslocamentos serão de pequeno percurso, sem a necessidade de carros caros, como hoje. Quando necessário, as pessoas usarão serviços de transporte compartilhados.

    Neste novo cenário, veículos de transporte de encomendas elétricos deverão ser o grande mercado nos próximos anos. Já existem algumas iniciativas aqui no Brasil. O Mercado Livre anunciou o uso de 51 carros elétricos na sua frota de entregas de encomendas. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, as vendas de automóveis eletrificados (elétricos e híbridos) entre janeiro e junho de 2020 cresceram 221% no comparativo com o mesmo período de 2019, passando de 2.356 unidades para 7.568 veículos.

    O Itaú-Unibanco, que tem o propósito de estimular a transformação das pessoas, revolucionou a mobilidade urbanas em grandes cidades com um serviço de compartilhamento de bicicletas, que está evoluindo para um serviço de veículos elétricos compartilhados em parceria com a U-Corp. Por sua vez, a U-Corp fez uma parceria com a startup Infra Solar para otimizar a logística de recarga de baterias com energia sustentável e identificação de rotas seguras para os motoristas.

    Interessante observar que o propósito de uma pessoa ou empresa (grupo de pessoas) impulsiona o desenvolvimento de todo um ecossistema. É a partir destes propósitos que conseguimos transformar a sociedade e proteger o planeta.

    Na minha visão, as empresas tradicionais do mercado automobilístico deveriam recuperar os propósitos de seus fundadores e criar missões compatíveis com o novo comportamento dos consumidores e, principalmente, assegurar que os planos operacionais sejam cumpridos.

    Isto pode acontecer com o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis que possam ser licenciadas para outras marcas, desenvolvimento de veículos no estilo minimalista para consumidores sustentáveis, como bicicletas e motos elétricas, veículos de transporte de encomendas para centros urbanos, incluindo drones, e iniciar a transição de caminhões de transporte de cargas de longas distâncias com tecnologia hibrida.

    Concluindo, as empresas tradicionais do mercado automobilístico, como a Ford Motor Company, devem recuperar o propósito de seus fundadores e definir missões empresariais desafiadoras para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos e mitigar os efeitos das mudanças climáticas do planeta. Só assim terão o reconhecimento dos consumidores e prosperarão nos negócios, assim como fizeram seus fundadores.