Autor: Eduardo Fagundes

  • A ingenuidade das pessoas com as redes sociais

    O Facebook está sendo acusado de permitir o acesso a dados de 50 milhões de usuários pela consultoria Cambridge Analytica, através do pesquisador Aleksandr Kogan do departamento de psicologia da Universidade de Cambridge, e que estas informações teriam influenciado a campanha presidencial que elegeu Donald Trump. Este é o negócio do Facebook e de outras redes sociais, fornecer dados a empresas para testar e treinar seus algoritmos de inteligência artificial para entender e influenciar os consumidores. Este fato tornou-se polêmico porque evidenciou que se bem usados (para o bem ou para o mau) os softwares de inteligência artificial podem até eleger presidentes. É muita ingenuidade das pessoas acreditar que podem usar as redes sociais de graça, armazenando e trocando dados e fotos, sem terem que oferecer uma contrapartida para a empresa. O fato é que quando nos tornamos usuários de uma rede social aceitamos, contratualmente, seus termos de uso dos dados. Com as recentes tecnologias de Big Data, IoT e Inteligência Artificial (Machine Learning e Deep Learning) é possível entender a lógica dos algoritmos orgânicos das pessoas e gerar dados de entrada que as levem a tomar decisões controladas.

    Redes Sociais

    Vivemos em um mundo onde as pessoas têm necessidade de compartilhar suas informações pessoais, need to share, por várias razões: aumentar sua popularidade, expansão da sua rede de contatos (para fins pessoais ou profissionais), gabar-se do seu estilo de vida, fazer bullying, criticar a sociedade, evangelizar suas crenças, entre outras. Imagine fazer tudo isto de graça. Obviamente, não existe “almoço grátis”, as redes sociais coletam informações de todos os movimentos de seus usuários. Por exemplo, a Google conhece suas preferências pessoais. O Waze conhece os seus destinos. O Facebook conhece seus amigos melhor que você. A Netflix conhece suas preferências de filmes. O Spotify conhece seus gostos musicais.

    As operadoras de cartão de crédito já faziam isto antes da popularização das redes sociais. A cada compra que um usuário faz alimenta um banco de dados com o perfil de compras, incluindo lojas e valores. Os bancos conhecem mais da nossa financeira do que nós mesmos. As empresas de análise de crédito conseguem estabelecer o risco de crédito para cada um de nós quando solicitamos um financiamento. As farmácias para te dar um desconto nos medicamentos pedem o seu número de CPF e associam todas as suas compras, conhecendo suas doenças e conseguindo até prever que tipo de doença você terá no futuro. Os supermercados com seus programas de fidelidade e descontos para clientes conhecem seu perfil de compras e das comunidades que atendem, podem fazer compras e distribuição de produtos com mais eficiência. Os assinantes de jornais digitais oferecem informações das noticias que mais os atraem, com possibilidade de os jornais direcionarem reportagens que mais lhe agrade para manter sua fidelidade. Os partidos políticos podem usar informações de várias fontes de dados para conhecer os eleitores do cargo que concorrem para ajustar o seu discurso e vencer as eleições.

    Nossa privacidade já foi para o espaço (virtual) a muito tempo. Querer recupera-la agora é quase impossível. Você teria que deletar todas as suas contas nas redes sociais, usar só dinheiro em espécie, pagar mais caro nas farmácias e supermercados, usar telefone público, abrir mão de sua aposentaria pública, ganhar salário mínimo para não declarar imposto de rede, fazer picos para ganhar “por fora”, não usar o Uber, não se hospedar através do AirBnB, não viajar de avião ou de ônibus. Ou seja, você tem que se tornar um ermitão sem nenhum patrimônio.

    Acredito que a solução para viver melhor nesta sociedade vigiada e aberta, sem privacidade, é necessário que as pessoas tomem consciência que existem ataques para manipula-las e que devem forçar novas formas de pensamentos, questionando tudo que leem, veem e ouvem. Deixarem o alinhamento automático com as ideias e crenças da maioria. Leiam livros de diferentes assuntos e correntes sociais e políticas. Tenham em mente que tudo que você pensa e faz está sendo vigiado por alguém e que o “livre arbítrio” deve ser questionado.

    Por outro lado, os avanços tecnológicos e o poder de análise de dados usando inteligência artificial devem ser explorados para melhorar a qualidade de vida das pessoas, mitigar nossos desafios com as mudanças climáticas, criar novos hábitos de consumo consciente, participar mais ativamente da vida política, acabar com a corrupção, entre outros benefícios.

    Vivemos em uma nova realidade econômica, ambiental e social. Temos que compreender e agir de forma racional para a evolução saudável da sociedade e preservação da vida.

  • Em inovação estamos na quarta divisão

    No Oiweek Open Innovation (março, 2018), evento que reuniu 100 startups para apresentar seus projetos para grandes empresas, um dos organizadores afirmou que o Brasil está na quarta divisão da inovação no cenário global, fazendo uma analogia com o futebol.

    Participei de um encontro de acadêmicos no evento, onde discutimos oportunidades da academia participar mais de projetos de inovação aberta. Entre encontro participaram pesquisadores, empreendedores e representantes de grandes empresas de várias áreas de interesse, mostrando a pluralidade dos projetos de inovação. Um dos comentários é existem várias iniciativas governamentais e fundos de incentivos, porém dispersos. Uma das sugestões foi criar um mecanismo para orquestrar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

    Open Innovation Week

    Realmente, existem várias iniciativas para o desenvolvimento de P&D no Brasil e fundos incentivados que podem tirar do papel projetos inovadores, desde que bem elaborados e relevantes para o mercado. Estes fundos não apenas incentivam projetos acadêmicos, mas projetos da iniciativa privada, como o PIPE da FAPESP.

    Em 2017, o Brasil ficou na 69ª posição no Índice Nacional de Inovação, elaborado pela Universidade de Cornell, pela escola de negócios Insead e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) entre as 130 economias pesquisadas.

    Se existe dinheiro, mesmo em tempos de crise, para incentivar a inovação, porque estamos na quarta divisão?

    A primeira explicação é que a grande maioria dos empreendedores no Brasil não desenvolve tecnologia e processos inovadores, apenas as aplicam em seus negócios. Isto não cria um oceano azul de negócios (baixa concorrência e lucros atraentes) e a competição no mercado fica no preço (oceano vermelho). Neste cenário, os empreendedores lutam para sobreviver e não têm tempo para projetos de inovação.

    A segunda explicação é a dificuldade de as pesquisas realizadas nas Universidades chegarem ao mercado consumidores. Algumas vezes, as barreiras são criadas pelos próprios pesquisadores, que priorizam papers acadêmicos e participação em congressos científicos ao invés de focar na aplicabilidade de suas pesquisas.

    Outra explicação é baixa qualidade dos projetos que não conseguem se qualificar para obter os fundos incentivados.

    Coloco neste contexto o baixo desempenho dos alunos no Brasil, evidenciado pelas últimas provas de avaliação mundial entre alunos de até 15 anos. O Brasil continua nas últimas posições no ranking de educação, infelizmente.

    Isto reduz o número de pesquisadores e empreendedores que se qualificam a criar projetos realmente inovadores.

    Isto cria um gigantesco desafio para garantir uma renda mínima para os trabalhadores que perderão seus empregos pela inovação tecnológica crescente, ampliando a desigualdade social e potenciando nossas atuais fraquezas, como a violência urbana.

    Acredito que temos condições de reagir e levar nosso time para a primeira divisão da inovação, basta focarmos nisto e deixar as distrações de lado. Iniciativas como a 100 Open Startups ajudam a virar o jogo.

  • A velocidade de inovação das empresas tradicionais não é capaz de acompanhar o mercado

    As empresas já estabelecidas e com produtos e processos consolidados não conseguem sair do circulo de inovação incremental e possuem baixa capacidade de transformação. Mesmo empresas que conseguiram se adaptar as mudanças do mercado em tempos passados, hoje encontram dificuldades, caso da GE com perda do valor sua ações e uma dívida bilionária. Se analisarmos as noticias da mídia especializada em tecnologia, vemos que as inovações nas empresas tradicionais são melhorias de eficiência e adoção de práticas e tecnologias já existentes no mercado. As verdadeiras inovações estão nas startups, pouco divulgadas pela mídia e, consequentemente, reduzindo a capacidade de divulgação no mercado. Entretanto, ainda precisamos delas para manter o ecossistema do mercado, até que apareça e se consolide um novo paradigma de consumo. Estas empresas têm a oportunidade de planejar o final do seu ciclo, acumulando riqueza para investir em novos desafios. Mas, ao que parece poucas fazem isto, apostando que o seu nicho de mercado nunca será ameaçado.

    Escritório

    Empresas tradicionais são lentas nas tomadas de decisões, pois devem cumprir os rituais do compliance para mitigar os riscos, proteger o capital dos investidores e uma forte cultura organizacional. Como se diz, não é fácil um transatlântico mudar de rumo rapidamente. Quando maior a empresa maior a dificuldade para mudar de rumo. A velocidade de adaptação (mudança de rumo) não está sendo suficiente para acompanhar as mudanças de paradigmas do mercado, tornando as empresas vulneráveis. A GE, por exemplo, teve uma queda do valor de suas ações de US$32.88 em outubro de 2016 para US$14.31 em março de 2018. A Ford é outra empresa que teve impacto no valor de suas ações, cotadas a US$17,72 em julho de 2014 e US$11,15 em março de 2018.

    Uma solução que os investidores das empresas já estabelecidas é investir em startups, assumindo maiores riscos e com pessoal com cultura de inovação das novas gerações. Esta é a melhor maneira de proteger o dinheiro.

  • Oportunidades de inovação para 88% das famílias brasileiras

    Apenas 12% das famílias brasileiras possuem rendimentos acima de R$7.880,00 por mês, classificados como Classe A e B (IBGE, 2015). Um mercado atraente para produtos e serviços inovadores e oportunidade para muitas startups e empresas já estabelecidas atingirem receitas atraentes. Os avanços tecnológicos permitem maior produtividade e redução dos custos de produção e operação, nem sempre acompanhados com redução dos preços dos produtos e serviços. Fato que reduz o emprego e aumenta a desigualdade entre as pessoas. Como consequência podemos ter redução da qualidade de vida dos trabalhadores menos qualificados, aumento da violência e comprometer o crescimento do PIB nacional. Por outro lado, os 88% das famílias das classes CDE podem gerar novas e atraentes novas oportunidades de negócios.

    Vários indicadores mostram grandes desafios para o futuro dos brasileiros. No Brasil, apenas 43% da população acima de 25 anos concluiu o ensino médio. Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) o índice é de 90%. Um em cada três jovens de 19 anos está fora da escola. Estamos na 67ª posição no ranking de 72 países do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) que avalia alunos de até 15. O Brasil não está entre as 50 economias mais inovadoras do planeta. Apenas agora começamos a discutir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da educação infantil e do ensino fundamental e, recentemente, foi aprovada a reforma no ensino médio.

    A indústria brasileira enfrenta dificuldades e deve fazer um grande esforço de renovação. O setor automobilístico é um termômetro da economia do país. Ford, GM e Volks entre o início de 2014 e dezembro de 2017, tiveram perdas bilionárias. Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Recuperação Empresarial mostra que, até setembro de 2016, 130 fabricantes de autopeças já faliram, enquanto outras 105 pediram recuperação judicial.

    A renovação da indústria deve adotar as novas tecnologias da Indústria 4.0: automação extrema para a produção em massa de produtos personalizados, com suporte de inteligência artificial. Isto requer profissionais altamente qualificados. Aumentando, consideravelmente, a produtividade das fábricas os produtos tendem a reduzir de preço e alcançar mercados mais amplos.

    Analisando os índices educacionais e os desafios da indústria vemos que existe um grande desafio. Felizmente, o SENAI está qualificando vários jovens para atuarem na Indústria 4.0. Entretanto, o número é insuficiente para toda a indústria nacional.

    Uma alternativa é investir em novos produtos e serviços inovadores para as famílias de baixa renda. As Universidades brasileiras responsáveis pela captação da maior parte das verbas de pesquisa dos órgãos governamentais deveriam focar em projetos de geração de renda e produtos para atender as classes CDE.

    Economia Criativa

    Um exemplo é investir na economia criativa, conjunto de atividades econômicas relacionadas a produção e distribuição de bens e serviços que utilizam a criatividade e as habilidades dos indivíduos ou grupos como insumos primários. No mundo, o comércio de bens e serviços criativos somou US$ 624 bilhões (R$ 2,3 trilhões) em 2011, mais do que o dobro do registrado em 2002, aponta a Unesco. No Brasil, a indústria criativa empregava 1,8% dos trabalhadores formais em 2013, com 892,5 mil profissionais. Em quase dez anos, o número de empregados no ramo saltou 90%, superior ao avanço de 56% do mercado de trabalho brasileiro como um todo no mesmo período.

    Os novos avanços tecnológicos podem potencializar a criatividade e as habilidades dos indivíduos. Nesta linha, sugiro pesquisas e desenvolvimento de novos negócios. Acredito que podemos encontrar novos modelos de crescimento econômico usando nossas habilidades criativas.